Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Tempo de mudanças




A partir de agora, e várias vezes por semana, estou no Malemolência Zuga, o meu novo blog a partir do Rio de Janeiro.

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Fado da Partida


O meu avô era guarda-fiscal numa aldeia encostada a Espanha onde fazia calor de forno e havia largadas de touros durante o verão. Os miúdos viviam na pobreza descalça de pisar a neve, sem sapatos, no inverno. O meu avô deixou um familiar cruzar a raia a caminho de França. A PIDE descobriu a complacência do meu avô e mandou-o para o castigo de um quartel desterrado, onde não havia aldeias por perto nem familiares aventurosos a caminho das bidonvilles de Paris. Os filhos dos guardas andavam quilómetros a pé para terminarem a quarta classe antiga.

Depois de fazer a guerra em Angola, o meu pai mandou-se para França com uma mulher e um filho. Ganhava mais, podia falar de política em lugares públicos (embora esse não fosse seu hábito), elogiava o sistema de saúde local e talvez tenha pensado em enriquecer. Regressou a Portugal porque a minha mãe não se dava bem com os subúrbios de Paris.

Durante muito tempo o meu pai sugeriu que Truman Capote era da família – tínhamos um tio-avô, de sobrenome Capote, que emigrara para Buenos Aires e depois para algum lugar nos Estados Unidos até que deixou de dar notícias. O meu pai acreditava que o espírito empreendedor e internacional da família tinha, por fim, apresentado resultados grandiosos: um escritor famoso sobre o qual até fizeram um filme com direito a Oscar de melhor actor.

Já vivi em Nova Iorque, Madrid e preparo-me para morar no Rio de Janeiro, mas só agora, muitos anos depois da estreia como emigrante, começo a perceber (a entranhar) uma evidência bem portuguesa – tão portuguesa como é chegar atrasado, desenrascar uma saída num momento de aflição ou ter a habilidade gentil de indicar o caminho certo ou a mesa de casa a um forasteiro. Essa evidência é muito antiga e perpetua-se em nós apesar dos fundos comunitários, dos multibancos e dos hipermercados. É uma evidência que se prolonga na História e se propaga no sangue, algo que se manifesta se ouvimos a voz de Amália no gira discos ou cheiramos as alfarrobeiras a sul ou se a garganta se aperta de tanta beleza numa esquina de luz lisboeta. Essa evidência é mais forte do que aqueles portugueses que a transportam pelo globo, mais importante que o legado da ditadura, a crise ou a globalização. Seja qual for a razão porque saímos deste país – amor, arreliação, aventura, desespero, disponibilidade para a vida – a verdade é que a vontade (ou a inevitabilidade) de partir é tão forte como a certeza que voltaremos um dia, mesmo que não seja para ficar.

Agosto de 2011

Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

O meu romance com um romance


A dormência deste blog não se deve a férias de praia ou descanso do pessoal. Meti-me a escrever furiosamente o próximo romance e não há tempo ou força para muito mais coisas escritas. Mas regressarei em breve, após mudar-me para o Rio de Janeiro. Tenho a certeza que, assim que aterrar, terei muito sobre o que escrever aqui. Para compensar a minha preguiça blogueira, fica um excerto do romance, exclusivo, inédito e on the making.

Até já

Relicário contra comunistas

O verão que antecedeu a minha estreia na escola primária foi o mais quente da história. Digo isto com a mesma certeza com que o meu irmão garantiu, logo no mês de Julho, que nunca mais haveria aulas porque os soviéticos e os americanos estavam prestes a disparar mísseis nucleares. Então, o mundo seria igual aos filmes sobre a Terceira Guerra Mundial. Os sobreviventes deixariam de ter televisão, habitariam grutas subterrâneas e continuaria a haver gente má e alguns canibais, ditadores e banqueiros. Para agravar o pânico de ficar para sempre sem desenhos animados, o meu irmão explicou-me que o calor anormal, que matava pássaros na varanda e deixava a minha mãe tão aflita como um afogado, era prova da aproximação do apocalipse nuclear – a água das piscinas públicas desaparecera, o sol queimava como um ferro de engomar na pele, os cigarros dos adultos acendiam-se sem precisar de fósforos.
Nesse verão, passei muitas tardes na casa de uma vizinha do prédio – a Dona Helena, mãe do Ricardo, colega de turma do meu irmão, e da Susana, que, tendo nascido quatro anos antes de mim, ainda não usava a parte de cima do biquíni na praia. O Ricardo e o meu irmão saíam pelo bairro de bicicleta, faziam parte de uma tribo sénior e masculina que não me aceitava como membro – Susana também fora excluída, tinha os cromossomas errados e jamais conseguiria fazer um cavalinho em cima da bicicleta cor-de-rosa. No final do dia, o meu irmão contava-me como a cidade se preparava para o desastre da aniquilação quase total e aconselhava-me a encontrar um abrigo nuclear. Dizia-me: Já descobri um sítio com o Ricardo, mas não cabe lá mais ninguém."

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

Não há nenhum consolo nem satisfação em ter dito: I told you so.




(Crónica publicada Julho de 2010 no i)


Dear miss Winehouse,

Quando me contaram que tinhas sido internada outra vez, imaginei-te com um cachimbo de crack e um copo de gin, envolta numa nuvem cocainómana. Depois soube que tinha sido apenas um tropeção que resultou num corte acima do olho e num problema com as tuas novas mamas de cirurgia plástica. Não te escrevo como amigo (não nos conhecemos), nem como paizinho, aliás, dizes na canção “Rehab” que se o teu pai acha que estás bem não precisas de ser internada. Eu até concordo com o comediante Bill Hicks, que disse: “As drogas já nos deram muitas coisas boas. Se não acreditam, peguem nos vossos cds e queimem-nos, porque as pessoas que fizeram essas grandes músicas, que melhoraram as vossas vidas, estavam bastante drogadas.” Nem sequer estou preocupado que os miúdos se ponham a fumar cocaína por causa de ti – as pessoas não precisam de ídolos para se drogar, drogam-se porque querem. Mas fico aflito sempre que vejo que a droga raptou um ser humano e o substituiu por um farrapo de gente – acredita em mim, morreu-me um tio por causa da heroína. Não te peço que deixes para todo o sempre o copo de Tanqueray e alguma maluqueira tóxica. Mas ouve as palavras de outro comediante, George Carlin, cujo génio sobreviveu aos excessos: “As drogas podem ser maravilhosas, mas à medida que as consumimos, a parte do prazer diminui e aumenta a dor. Passa a ser apenas dor.” O que te quero dizer é: põe-te boa dessas costelas doridas e termina o disco que começaste a gravar. Depois, sim, podes festejar. Estraga-te um bocadinho mas, por favor, não te estragues para sempre.

Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Poliglidiota


Escuta o que te digo
aunque te parezca
uma lenga lenga
of lame, rusty, and
cliché
excuses

Tento todas as palavras contigo
para que te cuelgues en mi cuello
like groupies do with rock stars

ninfeta and slut e dona de casa
fascinada e strastruck
pelo brilhantismo das minhas línguas

falo de sacanagem, versos sem roupa, humidade e umidade
pero nada te convence
nem gramática nem cunnillingus
nem todo o latim malandro das cidades mais sacanas

dizes-me que entre nós não há acordo
nem ortografia em sintonia

dizes:
fuck you very much
pendejo maricon
babaca e filho da puta

só então percebo que, como tantos casais,
temos problemas de comunicação

B.


Era tão bela como bélica
por vezes bruta com a boca
balançava
bonita
(mas breve)
na
besta que
eu fui

depois bazou

Quarta-feira, 6 de Julho de 2011

Dar-vos música


Esta é a minha play list, na TSF. Música, maestro: aqui.