Pequines e pitbull - Seu Jorge
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
'Bora não cantar as janeiras?

No dia que entrámos em recessão (pelo menos nas previsões), o primeiro-ministro ouviu cantar as janeiras nas escadarias do palácio de São Bento. Meninos com o uniforme do colégio militar elogiavam o nosso timoneiro Sócrates na letra da canção. Os rapazes eram certamente muy católicos e tão lusitanos como Viriato. O primeiro-ministro aguentava o sorriso das cerimónias obrigatórias no calendário - o mesmo sorriso que encaixamos na cara quando nos oferecem um par de meias. Em dia inaugural de recessão, imagino que Sócrates preferisse estar no seu gabinete, a trabalhar, em vez de ser louvado como líder.
E mesmo que seja uma tradição anual, havia ali qualquer coisa do Portugal das reverências e dos salamaleques, um Portugal tristemente sebastianista, que dá pena, o filho débil que precisa de um pai de mão dura - os portugueses chamam a isso carisma. Em dia inaugural de recessão o primeiro-ministro estava onde não queria: no passado.
E, como no passado, o ministro das Finanças, nesse tal dia de previsões de recessão, falou cinco minutos, sem responder a perguntas dos jornalistas, e sem mencionar a notícia do dia - a recessão. Ele fala do que quer, os outros ouvem. E mai' nada. Isso sim é carisma, senhor ministro.
Por uma vez na vida, gostava de ver um governante que motivasse os portugueses, que os elucidasse, que lhes desse pistas para enfrentar as dificuldades, que nos fizesse perceber que os sacrifícios valem a pena porque estamos a avançar para algo melhor. Ontem isso não aconteceu. O primeiro ministro aguentou o sorriso e disse que queria que, para o ano, lhe cantassem outra vez as Janeiras. O ministro das Finanças, por sua vez, parecia estar a fazer um favor aos portugueses quando debitou o seu monólogo para microfones. Nunca percebi porque continuamos a esperar por dom Sebastião (ou por aqueles que se fazem passar por ele), se o rei era tão incompetente como para atacar um território que não nos fazia falta e morrer no acto. O sebastianismo não é esperança - é preguiça, é incompetência, é marcar passo.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Diz-me as tuas prioridades, dir-te-ei quem és

Portugal foi o único país da União Europeia que aumentou as vendas de carros de gama média alta em Dezembro - mais 40 por cento que no mês anterior. Os BMW dispararam. Uma alegria sobre rodas. O rei vai nu, claro, mas com estofos de pele e gps de série. País de patos bravos exibicionistas. Se houvesse uma sequela da aventura de Noé e da sua arca, aposto que muitos pais de família estariam divididos entre levar o casalinho de filhos ou levar os dois carros com jantes de liga leve. Que venha o dilúvio.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
The Bleak World

Um filme para a Penguin Books, escrito e realizado por um amigo que vive em Londres. É português. E sabe muito bem o que anda a fazer. Enjoy.
sábado, 3 de janeiro de 2009
O Elogio da Crise

(Texto publicado no número 4 do Jornal do Lux)
Portugal queixa-se da crise, mas esta pode ser a nossa oportunidade para sairmos do comodismo do sofá. Já passámos demasiados anos embalados no conforto dos carros, dos telemóveis e do deixa andar. Não queremos desperdiçar mais oportunidades. Com a crise surge a metamorfose.
Por Hugo Gonçalves
Esta história começa nos Estados Unidos e acaba em Portugal. E mesmo que não pareça, ainda pode ter um final feliz. Depende de nós.
Tragédia número 1: o comediante norte-americano Grouxo Marx ficou sem 240 mil dólares (“Podia ter perdido mais, mas era todo o dinheiro que tinha”, disse Grouxo) quando a bolsa de Wall Street se desmoronou em 1929. Um dos seus amigos, Max Gordon, assessor financeiro, ligou-lhe. Gordon disse então as suas últimas palavras e deu um tiro na cabeça.
Tragédia número 2: setenta anos mais tarde, em Dezembro de 1999, eu estava na Venezuela para escrever sobre as inundações e derrocadas que mataram mais de 15 mil pessoas: as chuvas tinham destroçado os morros onde antes se equilibravam milhares de barracas; rios de lama empurraram carros, pessoas e casas até ao mar, despedaçando tudo contra os hóteis de luxo e as mansões de praia da alta burguesia de Caracas. No país que acabara de eleger o comandante socialista Chávez, esta era uma estranha forma da Natureza explicar a luta de classes. Eu, jornalista em fim de estágio, que ainda usava sapatos de vela, comprei o bloco de apontamentos que mais me aproximasse do jornalismo dos filmes Terra Sangrenta e Os Homens do Presidente. Tinha boas intenções. Mas no final dessa semana de reportagem, percebi que, por mais empenho literário que tivesse, haveria coisas que nunca conseguiria contar com suficiente precisão emocional. Tinha apenas de vivê-las: como a irremovível presença do cheiro dos mortos espalhados pela praia, misturados com o lixo, um cheiro dolorosamente doce que se instalava no céu da boca e subsistia mesmo depois de lavarmos os dentes.
Numa estrada de terra onde as pessoas caminhavam em busca de um campo de “damnificados” – assim lhes chamavam os jornais venezuelanos –, quis fazer perguntas a um homem que transportava um frigorífico. Tinha perdido a mulher e os filhos, soterrados dentro de casa. Sobrara-lhe aquele electrodoméstico que acabara de pousar na lama. No final, estendeu-me a mão e, como se fosse eu que precisasse de estímulo, despediu-se: “Buena suerte amigo, siempre p’alante.” E adiante foi, com o frigorífico às costas.
No seu discurso de vitória, o optimista pragmático Barack Obama avisou que as coisas não iam andar bem no futuro: “Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira num século”. O mundo encolhe-se, tosse, sofre dores, tem demasiado medo. Pode vir aí uma depressão tão decisiva e prolongada como será, por ventura, o aquecimento global caso fiquemos quietos. Portugal também se lamenta. Parece um paciente depressivo que nem consegue tomar a medicação. E eu pondero se esta crise não será antes a nossa oportunidade. Pergunto-me: continuamos na vida em loop ou abrimos a pestana?
Nós, os que nascemos depois do 25 de Abril, nunca tivemos uma causa geracional, metemos nojo aos colunistas que lutaram pela liberdade, somos os doutores e engenheiros que queriam que fôssemos; somos os primeiros filhos da classe média, somos os irmãos anónimos de Tyler Durden, de Clube de Combate. Temos a sua desilusão precoce, embora nos falte o inconformismo incendiário, porque temos sempre a desculpa de que há alguma coisa melhor a passar na televisão. Senhoras e senhores, Tyler Durden: “Na História, somos o filho do meio; não temos um propósito, um lugar, não temos nenhuma grande guerra, nenhuma grande depressão; a nossa grande guerra é espiritual; a nossa depressão são as nossas vidas.”
Nós, os filhos da pós revolução, crescemos com televisões a cores, com jogos de computador, com os vídeoclips da MTV a açucarar-nos a vida. Nunca estamos sozinhos – os telemóveis, as sms, o messenger, o facebook. Recebemos o conforto que faltou aos nossos pais. Trabalhamos num escritório com ar condicionado e wi-fi, numa rua com dezenas de multibancos. Estamos sempre na vanguarda da superfície das coisas – o mp3, o plasma para a sala, a assinatura da Sport TV. Podemos viajar, ler jornais estrangeiros na internet, encomendar livros de Inglaterra, comer massas tailandesas. Queremos ser intérpretes do aforismo moderno: pensa globalmente, actua localmente. Mas as nossas maiores emoções colectivas são partilhadas diante de um jogo da selecção nacional. As nossas maiores emoções pessoais precisam de ser intensificadas com desportos radicais, com o consumo de drogas, com o sexo a abrir, com a esperança de um amor que não resulte no modelo de família protagonizado pelos nossos pais. E, no entanto, tantas vezes os copiamos.
Habituámo-nos a que personagens como Valentim Loureiro ou Alberto João Jardim fossem tidas como figuras cómicas em vez de desastres para a nação. Cruzámos os braços. Não fomos votar no referendo do aborto. Comprámos, por fim, a casa. Crescemos entre a abundância parola dos centros comerciais e o medo do risco, esse legado de uma ditadura tão insuficiente como pacóvia, que se agarra a nós como um polvo durante o cio. Portugal: o país de rabo entre as pernas, pobre, mas que se comporta como novo rico. Tivemos professores obsoletos que anunciavam que nunca dariam mais de doze valores num exame, deixámos de acreditar que o mérito abre caminho, passámos a vida a empurrar elefantes na areia para chegar a algum lado. Num conciso exercício de clarividência, o presidente da Liga de Futebol descreveu-nos: “Somos muito resistentes à mudança.” – o país num cartão postal: futebol e pasmaceira.
Dizemos que, mais de um século após terem sido escritas, as análises de Eça de Queiróz ainda nos descrevem. Dizemos, sim, dizemos. E o que fazemos? Ouvimos Saramago explicar porque escreveu O Ano da Morte de Ricardo Reis. Conta ele que pegou numa frase do heterónimo de Pessoa – “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” –, e quis perguntar ao seu autor se em Portugal, naquela década de 30, numa Lisboa fraca nas ambições, cinzenta nas caras e asfixiada no cérebro, bastava com estar contente diante do espectáculo do mundo, sem fazer nada. Eu pergunto: e hoje, basta? Será que ainda temos capacidade para perguntar, como a personagem idosa de Jack Nicholson, que entra na sala de espera do consultório do psicólogo e questiona: “Is this as good as it gets?” Em todo este tempo, do D’Artacão à Luciana Abreu, do Pinheiro de Azevedo ao Santana Lopes, do telefone de disco ao telemóvel com raio laser, parece-me que alguma coisa se nos escapou, que alguma oportunidade se perdeu, que pedimos para sair do barco e fomos para casa, onde se está muito mais confortável.
Com a crise nasce a oportunidade – de meter um fundo a este fundo. Chega de justificar qualquer falha com: Isto é Portugal, pá. Seja o café que vem frio, o dinheiro que desapareceu do banco ou a impunidade sem vergonha, não queremos ouvir mais a desculpa: Isto é Portugal, pá. Não serve. Vocês deram-nos a liberdade, o ensino superior democratizado, os empréstimos à habitação. Nós agradecemos. Já não precisamos de cavar a terra para comer. Obrigado. Temos o essencial para dar o passo seguinte e não temos medo de assumir as nossas insuficiências. Não temos complexos de inferioridade. Sabemos que há muito que fazer. Mas queremos mais que um carro desportivo, e o maior centro comercial da Europa, e telejornais de hora e meia. Também já não somos fatalistas, nem desgraçados, nem nos resignamos diante da tristeza como se fosse uma marca genética. Isso, acreditem, já não nos diz nada.
Em breve, caso a depressão económica nos arrase, deixaremos de ter subsídios de férias, e segurança social, e ar que se respire. Em breve talvez sejamos mais frugais, mais sensatos, obrigatoriamente mais activos – a necessidade apura o engenho. Precisamos muito desta crise. O Empire State Building foi construido durante a depressão dos anos 30. Picasso estava exilado na capital francesa quando Franco deixou que a força aérea alemã incendiasse uma aldeia no País Basco. Depois, Picasso pintou Guernica. O trabalho de Nelson Mandela, por exemplo, não foi nada facilitado pelos 27 anos que passou na prisão. Mas a sua perseverança durou muito mais que esses 27 anos de cela. Dizer que os tempos de crise estimulam grandes ideias e mudanças não é fazer nenhuma descoberta inédita. Os homens precisam de superar as suas circunstâncias – muito bem explicado (e tão duramente) na frase que Orson Welles acrescentou ao guião do Terceiro Homem, escrito por Graham Greene: “Em Itália, durante os 30 anos dos Bórgias, houve guerra, terror, sangue, mas produziram o Miguel Ângelo, o Leonardo Da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, houve amor fraternal, 500 anos de democracia e paz, e o que produziram? O relógio de cuco.”
Não queremos guerra nem sangue. Mas queremos o tempo que nos pertence. Sim, também temos culpa, também já confundimos o que é essencial com o que é assessório, já conduzimos bêbedos, já nos drogámos mais que a medida, já fizemos demasiadas coisas pela metade, já preferimos o conforto inconsequente ao prazer de fazer o que realmente gostamos. Houve dias, meses, anos, em que não crescemos quase nada. Mas um país que se está a cagar para tudo é um país de merda. E nós não queremos viver na latrinas. Vem aí a crise – é a nossa chance. Sabemos que estamos melhor preparados, sabemos que temos a força nas pernas, a resistência no coração e o brilhantismo na cabeça. Este momento é nosso, saiam da frente. Vamos ser melhores políticos, melhores pais, melhores cidadãos. Seremos muito mais exigentes, simpáticos, curiosos, divertidos, disponíveis, ambiciosos, inconformistas. Deixaremos de encolher os ombros quando nos responderem: Isto é Portugal, pá. Não seremos indulgentes, nem passivos, nem mandriões. Não precisamos de ser os melhores da turma. Mas queremos chegar a casa, ao fim do dia, e dizer: Fizeste bem, amanhã há mais. Fighting the fight, percebem?
Há quase oitenta anos o amigo de Grouxo Marx matou-se com um tiro na cabeça e evitou assim cruzar uma década de depressão económica e a grande guerra que se lhe seguiu, enfim, uma vida inteira. Há quase dez anos um venezuelano com um frigorífico às costas decidiu enfrentar o caminho para diante sem família, sem nada. Qual destas duas histórias nos convence mais? Qual é a nossa resposta quando a tragédia ou a crise ou conformismo tornarem as nossas vidas insuportáveis?
Sabem quais foram as últimas palavras do amigo de Grouxo Marx, ao telefone, antes de disparar a pistola, referindo-se ao descalabro da bolsa? “The joke is over.” Também aqui chegou o tempo de se acabar com a palhaçada. O que ainda nos falta fazer começa, exactamente, agora.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Rewind & Fast Foward (compacto de Natal e Ano Novo)

e por isso, naquele palacete de Lisboa, quando ela, na noite de ano novo, ainda bonita, com falta de equilíbrio nas pernas e no discurso (embora sempre elegante), de vestido preto e sorriso Burberry's, me perguntou, 'quando é que voltas a escrever?', eu, que tinha o copo de plástico quase vazio e pouco sentido de orientação, enrolei a língua, 'preciso de mais vodka neste gelo'; e não voltei a pensar em escrever até que me sentei aqui para, num instante, estar outra vez a correr para o Estádio da Luz, dias antes da consoada, atrasado para um jogo de bocejo entre o Benfica e o Nacional da Madeira; o meu vizinho de bancada enrolou uma ganza, o meu vizinho de trás conseguiu repetir a palavra 'xuxu' em cada frase - 'Xuta, Xuxu', 'Olha-me este Xuxu', 'Então não foi falta, Xuxu?' - e ainda comi uma febra no intervalo; depois entrei num carro para o Bairro Alto, onde apareci num jantar com pessoas que não conhecia, e alguém falou da Islândia, depois dos transsexuais no Irão, e já estava no Majong, onde um rapaz musculado, sem metade do teclado dentífrico, mas com narinas de muita coca e mortinho para andar ao estalo, me perguntou se eu achava que ele era paneleiro - não fosse o meu estado ébrio impedir-me de responder, e de certeza que a suas mãos de carroceiro tunning teriam feito de mim mais um boneco na mesa de matraquilhos.
claro, e a consoada: um exercício de rapidez numa família que, por vezes, parece uma granada após a explosão: cada fragmento para o seu lado. havia uma televisão acesa, e eu e os meus irmãos jogámos dominó, e os presentes foram atacados antes de tempo pelos meus sobrinhos, crianças adoráveis mas em estado de choque pela abundância de caixas e papel de embrulho e brinquedos. regressei a casa. dormi sozinho.
e mais dias e noites com o conforto dos amigos, tantos deles que, por esta altura, regressam de cidades fora de fronteiras; horas entrelaçadas de disparate, outras de comodismo, uma casa de fados, deitar-me cada vez mais tarde, e a clara consequência dos excessos: uma espécie de bolha de álcool e leitão assado e sobredose de açúcar, o sono a empurrar-me para uma posição vertical de sofá, a preguiça sem solução, a lucidez cada vez mais embaciada.
noite de ano novo. três retratos de três festas. enfim, um esforçado exercício de síntese e desaceleração da realidade dessas 12 horas de festa a prego a fundo.
primeiro: uma mulher que me falou do seu trabalho social (uma história de louvar), eu a dizer-lhe que, segundo um estudo recente (li num jornal?) o altruísmo nos faz mais felizes que o egoísmo, e ela, altruista, com uma das pernas em ângulo quase recto, o pé sobre um canteiro, o vestido a subir sempre que ela passava a mão entre o joelho e a coxa. despedi-me. fui-me embora.
segundo: na festa seguinte, num palacete em Lisboa, o tempo passou tão depressa que, de repente, já estou outra vez num táxi a chegar ao Cais-do-Sodré.
terceiro: perdido na selvajaria do after hours do Europa, cruzando a espessura atmosférica do calor, da transpiração colectiva, da drogaria eufórica da multidão, I found a young lady, dressed in pink, que me sorriu como se me perdoasse todas as insuficiências, tão visíveis na minha cara quando saí para a rua e já era de dia.
durante toda a noite puxaram-me a gravata. tinha transpirado na pista de dança. olhar-me nas montras não seria aconselhável. Lisboa estava acordada, molhada, com vontade de não sair à rua. eu precisava de dormir. cheguei a casa de dia: a auto-estrada, na janela do táxi, cinzenta e tranquila, obrigou-me a perceber que, por vezes, num fulminante momento de tristeza e cansaço festivo, estamos irremediavelmente sozinhos - e que, logo de seguida, deixamos outra vez de estar sozinhos. e eu (sei-o tão bem) preciso de fazer sempre, mas sempre, essa viagem de retorno.
.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Brincar com o fogo
Juntem-se homens em redor de um carro, de um leitor de dvd, de uma lareira, e mesmo aqueles que não precisam de afirmar as suas qualidades através de uma caixa de ferramentas adquirem a atitude de quem dispensa um livro de instruções para montar um foguetão espacial. Num grupo de homens que tem de enfrentar uma actividade (seja ela montar uma mesa do Ikea ou cortar a perna gangrenada a um náufrago) haverá sempre quem se afirme como o macaco mais valente e conhecedor. No grupo, haverá sempre um homem que julga saber mudar pneus com a destreza de um mecânico de Fórmula 1. Haverá sempre palpites, e a demonstração de técnicas que os outros desconhecem, e um certo brilho de glória no final: o pódio dos ganhadores masculinos das pequenas tarefas.
Ontem, eu fui esse macaco que dá um passo em frente. Empenhado em acender uma lareira (diga-se, para atenuar o meu grau de estupidez, que não tinha todos os elementos necessários para despoletar um bonito fogo), calquei o meu polegar da mão direita num tronco em brasa. Resultado: minutos com o pequeno polegar debaixo de água gelada, uma pomada espessa e branca que desapareceu rapidamente, devorada pela epiderme em efervescência, e um claro atrasado na evolução humana: percebo agora a importância de ter um polegar oponível. Desde ontem que sou mais estúpido e descartável. Sem o polegar da mão direita, esqueçam tarefas complicadas e mesmo as simples, como agarrar na tigela de água do cão ou abrir a caixa de cereais. Qualquer médico diria que o onanismo está fora de questão em casos de tamanha gravidade. Percebo agora porque é melhor ter polegares em vez de barbatanas ou cascos ou barrigas deslizantes como as serpentes.
Neste Natal, serei esse animal sem polegares oponíveis, incapaz de salvar quem se engasgue com o brinde do bolo rei.
Este Natal serei um bicho apetecidamente inútil.
Subscrever:
Mensagens (Atom)