Official Sound Track
Ela disse-lhe: 'You make wrinkled shirts look cool'.
Ele tinha uma nódoa de rum cola junto ao colarinho - alguém o empurrara num alcoolizado momento de dança, os dedos ficaram molhados, depois pegajosos, açúcar que ele lambeu baixando a cabeça como um miúdo que acabou de cometer uma ilegalidade na cozinha. Ele disse: 'I don't smoke, but do you have a cigarette?'
Ela aproximou-se mais. Tinha o cabelo ruivo, os olhos azuis, dedos com manchas de tinta. Ele tirou mais pedras de gelo do balde em cima da mesa. Disse: 'So you're an artist?' Ela tirou-lhe o copo da mão, provou, serviu mais rum: 'Boys need to be boys'.
Ele bebeu. O fervor do excesso de álcool espalhou-se nas paredes da boca e por todo o sistema nervoso. Olhou para o vestido dela, os ombros sem tecido, uma veia azul no pescoço quando ela se ria. E ria-se tanto. Ela perguntou: 'Nina Simone or Billie Holyday?'
Ele aproximou-se, as ancas de ambos a menos de um dedo de distância, uma das mãos segurando o copo, a outra a pousar no vestido, um pouco abaixo das costelas, até que o polegar deslizou, apertando-lhe o ponto onde se estreia a virilha. Por cima do vestido, ele podia sentir o fino elástico que lhe rodeava a cintura. Ela disse-lhe, boca ao lado da boca: 'It's like you're undressing me already.'
Cruzaram a festa, ela parou para conseguir um copo de água, gelo, limão. Ele agarrou um cubo de melancia que se transformou em sumo dentro da boca. Havia fumo, e fila para a casa de banho, e pessoas que tinham chegado da praia. Duas irmãs de bikini bebiam margueritas. Um ilustrador sóbrio falava com um diplomata ganzado. No corredor, onde a corrente de ar apagara as velas no chão, alguém mordia o pescoço de alguém.
Subiram para o terraço do prédio: um sofá, antenas de televisão, as pontes sonoras e iluminadas sobre o East River.
Ela inclinou-se no parapeito do terraço, virou-lhe as costas, disse: 'I think I've never made out with anyone in Brooklyn.' E bebeu a água, limpou a língua, estilhaçou uma pedra de gelo dentro da boca, produziu saliva com sabor a limão.
Ele disse-lhe: 'Water melon tongue', e a sua mão pressionou-lhe a curva onde as costas se despistam, puxou-a para si, a outra mão segurou-lhe a cara, o dedos entraram no cabelo, agarrou-a com mais força, e ela afastou as pernas, roçou a pele das coxas nas calças de ganga, o centro do seu corpo cedeu, um ombro inclinou-se, os lábios cresceram, a sua boca podia ter dito: 'Do something to me'.
Ele virou-a de costas e apanhou-lhe o cabelo na nuca com uma das mãos: firme, sem espaço de manobra. Com a outra mão desceu-lhe uma alça do vestido, usou um dedo para contornar a curva do ombro, descer pelo peito, sobrevoar o mamilo.
Mordeu-lhe o pescoço, os músculos da nuca, deixou a marca dos dentes.
Ela disse: 'Do it already', e rodou sobre si mesma, a alça a meio do antebraço, a boca apontada, a urgência de ficar sem fôlego.
E depois beijaram-se.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Descubra as diferenças

Excerto do texto 'O elogio da crise', escrito por mim, e publicado no Jornal do Lux:
“Nós, os que nascemos depois do 25 de Abril, nunca tivemos uma causa geracional, metemos nojo aos colunistas que lutaram pela liberdade, somos os doutores e engenheiros que queriam que fôssemos (...) Nós, os filhos da pós revolução, crescemos com televisões a cores, com jogos de computador, com os vídeoclips da MTV a açucarar-nos a vida. Nunca estamos sozinhos – os telemóveis, as sms, o messenger, o facebook. Recebemos o conforto que faltou aos nossos pais (...) Queremos ser intérpretes do aforismo moderno: pensa globalmente, actua localmente.”
Primeiro parágrafo de um artigo, no jornal Público, no suplemento P2:
“Somos a geração pós-revolução. Não estamos no top de preferências dos que lutaram pela liberdade. Não temos ideais, dizem-nos. Somos os doutores que queriam que fôssemos, replicamos. Deram-nos TV a cores e jogos de computador. Nunca estamos sozinhos. Ele é telemóveis, SMS ou Skype. (...) Somos guardiões do lema "pensar global, agir local.”
Há coisas que estão mal. Esta é uma dessas coisas.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
No fio da navalha

(texto publicado no Semanário Económico de hoje)
Fazer a barba é coisa de homens: as mãos do barbeiro abrem a navalha, a lâmina suspende-se um instante acima da cabeça; e ele analisa-nos a cara como se fosse um cirurgião delicado, um adepto da certeza; logo que o metal desliza na pele produz-se o som enrolado e lento de um fósforo em combustão. Por vezes parece que magoa, ou que assusta um pouco: a lâmina razando a jugular, por exemplo. Mas fazer a barba na barbearia do Hotel Ritz é como pilotar um caça F18 num simulador – toda a emoção, nenhum risco. E mesmo que nesta barbearia nos ofereçam café, nos ajudem a tirar o casaco, nos limpem os óculos de sol, e nos recebam com uma simpatia sem protocolos desnecessários, fazer a barba continua a ser uma coisa de homens – que o diga Artur Freixinho, o barbeiro que manipula a lâmina enquanto monta a narrativa da sua vida: “O meu irmão estava em Moçambique, tinha lá um negócio de barbearias, e meteram-me a treinar. Comecei quando tinha dez anos, numa barbearia da minha aldeia, perto de Foz Côa. Tinha de afiar as lâminas numa assentadora, sabe o que é uma assentadora?”. O senhor Freixinho imita então o movimento de uma lâmina a deslizar numa tira de cabedal, essas fitas grossas de couro esgaçado onde os cowboys dos filmes afiavam as navalhas e a sua natureza de tipos duros. O senhor Freixinho passava os sábados de criança nesse movimento pendular, tentando tornar mais perfeito aquilo que parecia inutilizado. “O barbeiro da aldeia trabalhava no campo, e os clientes também, por isso a barbearia só estava aberta aos sábados.” Depois, o senhor Freixinho juntou-se ao irmão em Moçambique.
Na barbearia do Ritz trabalham nove pessoas. Também há um salão para senhoras. No espaço dedicado aos cavalheiros há um ambiente de clube privado, uma certa cumplicidade masculina mesmo entre aqueles que não se conhecem. É preciso ter confiança nas mãos de quem nos corta o cabelo ou nos passa uma lâmina no pescoço. Estar ali, naquele trono almofadado, com uma toalha quente e vapores de menta na cara, serve para abrir os poros da pele mas também para baixar a guarda. Os clientes conversam, trocam opiniões sobre o estado do país, preparam negócios.
O senhor Freixinho explica como é que os homens se emanciparam do barbeiro: “Hoje já toda a gente pode fazer a barba em casa, e de uma forma muito fácil. Não precisam de um barbeiro todos os dias.” O próprio senhor Freixinho disfruta, em sua casa, do resultado dos milhões de euros que marcas como a Gillette ou a Wilkinson Sword investiram na tecnologia das suas lâminas. Noutros tempos, o homem precisava de um pulso firme para se barbear. Hoje, é preciso sofrer de delirium tremens para abrir um corte sério na cara. Por outra palavras: as novas lâminas são à prova de estúpidos. “E com a Sida muita gente se assustou. Nós aqui temos tudo descartável,” explica o senhor Freixinho enquanto põe a lâmina na navalha. Os seus gestos são precisos, suaves, procuram a eficácia: “Tem de se fazer sempre a barba na direcção em que os pêlos crescem”, depois estica a pele da face do cliente com os dedos, passa a lâmina mais uma vez, acrescenta: “Hoje em dia talvez tenha uns quatro clientes por semana para fazer a barba, mas há muitos que vêm cá para aparar.”
Depois de quinze anos em Moçambique, e algum tempo após independência do país africano, o senhor Freixinho, um estudioso do seu ofício, regressou a Portugal com experiência e gosto pelo requinte. Passou por algumas das melhores barbearias de Lisboa – Príncipe Elegante, Hotel Florida, Brasília, Amoreiras. Põe, na sua aparência, o mesmo empenho que dedica aos clientes: o cabelo impecavelmente cortado, as mangas da camisa dobradas, sem uma ruga, a gravata certeira, a bater na fivela do cinto. Na barbearia do Ritz, um cliente que tenha sido vítima de algum desmazelo acidental pode sempre engraxar os sapatos, comprar meias, gravatas e alfinetes para gravatas. Quando saem da barbearia e atravessam o sumptuoso lobby do Ritz, como se cruzassem um romance de Graham Greene, os homens querem-se sem mácula.
O senhor Freixinho, que ganhou prémios como barbeiro, que usou as suas tesouras no cabelo de governantes e celebridades, avisa desde o primeiro momento: “Não me pergunte quem são os famosos que cá vêm”, porque a discrição também faz parte dos dos serviços da barbearia que comanda, com António Caeiro, há onze anos. Nessa tarde, o seu colega de salão, João Besteiro, diz: “Já me passaram tantas cabeças importantes pelas mãos”.
Terminou-se o tempo da lâmina. O senhor Freixinho usa pequenos palitos descartáveis com cabeças brancas de cutiline para fechar algum ponto (quase invisível) de sangue – a pele arde um pouco, mas não se pode dizer que o senhor Freixinho tenha feito um corte sequer. Regressa a toalha quente, depois Fátima, uma das assistentes da barbearia, passa uma pedra de gelo para refrescar a pele e encerrar os poros. Segue-se uma loção. Há um cliente que diz: “Mas onde é que nós chegámos quando o Benfica diz que aquilo é penalti?” Os barbeiros são mais ouvintes do que protagonistas nas conversas, explica João Besteiro: “E acredite que se fala mais de negócios e de política do que de futebol.”
Enquanto espera para cortar o cabelo, outro dos clientes tem os dedos ao cuidado de uma manicura. Na barbearia do Ritz pode até fazer-se limpezas de pele. Mas, nesta era da metrossexualidade cintilante e de modelos masculinos de photoshop, estar sentado numa daquelas cadeiras ainda é uma coisa de homens – talvez seja o ritual de outros tempos, talvez seja a emoção de estar no fio da navalha, talvez sejam todos os filmes de homens duros que se barbeavam com facas de mato se fosse preciso, mas assim que se abre a porta da barbearia, com o rosto liso e a pele fresca, e enfrentamos o bar do hotel Ritz, (onde se podem beber dos melhores dry martinis de Lisboa), há a suspeita que, a qualquer momento, se comecerá a ouvir a banda sonora de James Bond.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Mostra-me os teus pistons, eu mostro-te a minha injecção electrónica

Esta semana soube-se que o número de mortos nas estradas portuguesas continua a diminuir. Um motivo de alegria entre tanto frio e fome de anti-depressivos. Nos últimos anos morreram cada vez menos pessoas de acidente de carro - ainda que em 2008 tenham sido apanhados 24 mil condutores bêbedos a manobrar coisas com rodas e motores e que pesam toneladas e que, vai-se a ver, quando batem nos ossinhos são capazes causar algum desconforto.
Mas se falamos de sinistralidade, a grande notíca é outra, e teve muito mais espaço nos jornais e tempo de antena nas televisões do que a diminuição de mortos que se despistam, se enfaixam em camiões, e lixam o trânsito.
Ontem o Cristiano Ronaldo pregou com um Ferrari numa parede. Foi em Inglaterra.
Entre os senhores dos jornais, das revistas e da tv, deve ter havido erecções instantâneas assim que se soube a notícia. Basta ver as primeiras páginas e os noticiários. Ronaldo e um carro topo de gama: muito melhor que ter um valente par de mamas na capa.
O Correio da Manhã, sabendo da relação homo erótica que os portugueses mantêm com Cristiano Ronaldo, bem como a função dos carros enquanto prolongamentos penianos, resolveu escrever um poema erótico sobre o tema. Meninas, controlem a respiração e juntem as coxas. Senhores, se estão com calças de ganga, mantenham-se de pé. Este poema vai do estado aborrecido ao estado excitado em poucos segundos.
"FERRARI 599 GTB
Preço em Portugal 306 549 euros
Velocidade máxima 330 km/h
Cilindrada 5999 cc
Potência 620 cavalos
Tempo de espera 9/10 meses
O Ferrari 599 GTB é um modelo recente, de 2007, e o seu custo equivalente ao valor de 18 Opel Corsa 1.3 75cv, o carro mais vendido em Portugal
OUTROS CARROS DO CR7
Porsche Cayenne. Cristiano Ronaldo tem dois, um em cada país. Custa aproximadamente 120 mil euros
Audi R8. Uma bomba que é o topo de gama da marca. Custa 146 mil euros e atinge os 301 km/h. É o Ferrari alemão.
BMW M6. É apenas o carro mais caro da BMW. Custa 166 mil euros. Concorrente directo do Audi R8.
Porsche 911 Turbo. A garagem de Ronaldo tem ainda mais um carro alemão. Custa 188 mil euros e vai aos 310 km/h
Bentley Continental GTC. Ronaldo saiu do treino de ontem neste carro de 275 mil euros. Gasta 15 litros aos 100 km."
Podia comentar a cadência das palavras como ancas que se movem sem parar, a originalidade literária em frases como "custo equivalente ao valor de 18 Opel Corsa 1.3 75cv", ou mesmo a promiscuidade como elemento que potencia o desejo: "Cristiano Ronaldo tem dois, um em cada país." Mas já tenho o peito a arfar. Tantos cavalos no motor. Tanto gel no cabelo. Ronaldo, por favor, tira a camisola e atropela-me na Segunda Circular.
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