terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vida de cão


Os senhores do partido que não gosta de estrangeiros tinham razão quando nos avisavam da ameaça alienígena. Este fim de semana, demonstrou-se mais uma vez que os velhacos dos imigrantes estão neste país para nos roubarem esses empregos que são desempenhados atrás dos balcões das pastelarias ou em andaimes de obra com a solidez da Ponte de Entre os Rios.

No Porto, um desses prevaricadores com sotaque de patife e epiderme de terrorista, até teve tempo de antena em todas as televisões. O sacana é empregado de restaurante, trabalho que, com toda a certeza, surrapiou ao Paulo Jorge, filho mais novo da Josefa do pronto-a-comer 'O Cantinho', um rapaz que passa agora as tardes a mandar mensagens escritas ou a sorver refrigerantes por uma palhinha nos corredores do Norte Shopping - isto quando não anda com os Super Dragões a apoiar o FC Porto em estações de serviço.

O infiel estrangeiro estava a sair do seu turno - de certeza que mais cedo do que devia (calinas)-, quando viu um cidadão de nacionalidade portuguesa ser levado por uma onda, juntamente com um cão que, apesar do pêlo negro (hélas) consta que também nasceu em Portugal.

O estrangeiro correu para o náufrago, meteu-se dentro da água gelada, e tentou içar o corpo inconsciente do português, enquanto a turbulência das ondas reproduzia o programa de centrifugação da Whirlpool AWOD5526 White. Dois portugueses, que trabalham no mesmo restaurante, bem se apressaram, mas o pulha chegou primeiro ao oceano, tal a sua ganância de protagonismo. Foram apenas oito minutos a bater contra as rochas, mas na entrevista o imigrante teve de sublinhar que a água estava muito fria. Vêm para cá comer à nossa conta, e ainda dizem mal das nossas praias.

O homem ao mar lá se salvou, é verdade. Mas o dia estava estragado. Um estrangeiro passou-nos a perna mais uma vez. Este tipo de indivíduos, que tiveram a ousadia e o defeito de nascerem noutro país, de falar outras línguas e até de ostentar outra cor de pele, não fizeram mais nada que vir para cá trabalhar, mostrar que há outros hábitos, outros mecanismos de sobrevivência e ainda insinuam que há alternativas ao nosso estilo de vida. Comem coisas estranhas e diferentes. Usam roupas coloridas ou biquínis mínimos ou escrevem com alfabetos que parecem os desenhos dos homenzinhos que apareciam pintados de lado nas paredes e que usavam eye liner.

E nós, que estávamos aqui tão bem, tão sossegados na nossa horta nas traseiras da Europa, tão parecidos uns com os outros que o país se assemelha a um casamento entre primos, somos agora obrigados a ler anúncios em estrangeiro nas paragens do autocarro e a ver os nossos filhos a serem fintados, na hora do recreio, por algum Ronaldinho em formato de creche infantil.

Da história de ontem resta-nos um consolo. O cão preto (mas português), depois de desaparecer na corrente, regressou a casa do dono horas mais tarde. E por tamanha demonstração de dignidade (recusar a ajuda de um imigrante que só quer aparecer nos telejornais), proponho que seja o candidato a primeiro ministro pelo tal partido que não gosta dos imigrantes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Madrid mola mazo - pero mis amigos aun más


Para a Marta Flor de Lima

Não se volta a um lugar onde fomos felizes? Bullshit. Madrid continua a ser um excelente fornecedor de felicidade e de esclarecimento. Talvez tenhamos medo da nostalgia do regresso - sim, ao andar sozinho pelas ruas que durante três anos me serviam de circuito diário, comecei a pensar que uma qualquer pancada na cabeça me aproximara da condição lacrimejante de Stephen King - o autor americano, depois de atropelado, confessou ter chorado a ver o Titanic.

Temos medo do regresso porque não podemos repetir essa felicidade, porque queremos tantas coisas mas não temos corpo nem tempo nem coragem. Mais que tudo, temos medo. We are fucking pussies lounging on the couch. E o medo é como uma cabeça enfiada num saco plástico: mais tarde ou mais cedo asfixiamos.

Esta viagem a Madrid, com noites em fast foward e as gargalhadas dos que ainda insistem em gostar de mim, permitiu-me perceber que não posso ter tudo (já tinha percebido antes, mas é sempre bom acrescentar mais uma nota mental), e que, tendo em conta as possibilidades do planeta, seria estúpido não sair da freguesia de São Martinho de Sintra (onde nasci). Sei que dificilmente farei uma volta ao mundo em bicicleta, mas a imobilidade come-me o cérebro como uma praga de gafanhotos - e não falo necessariamente da imobilidade geográfica.

Entre as festas e as ressacas, entre as conversas de diplomacia social com pessoas que acabava de conhecer e a cumplicidade dos amigos, senti esse rumor no sangue que nos diz que precisamos de acumular experiências, que a curiosidade nos faz continuar, que devíamos gostar mais da verdade (ainda que isso dê trabalho), e que parar é mesmo martelar um prego no caixão. No entanto, no centro do barulho das luzes ou nesse estado febril de sofá a que chamamos ressaca, estou cada vez mais seguro que a viagem a sós seria sempre insuficiente - tão insuficiente como eu. Os Ornatos Violeta diziam que o monstro precisa de amigos. E este monstro concorda.

O herói clássico


(Texto publicado no Semanário Económico de 24 de Janeiro)


Quando o pugilista Cassius Clay, com 22 anos, ganhou o seu primeiro título mundial, gritou: “Eu abanei o mundo, eu abanei o mundo!” No dia do combate, em 1964, meses após o assassinato de John F. Kennedy e da esperança destroçada dos americanos, Cassius Clay era um negro que crescera no sul do Estados Unidos, lugar de cruzes em chamas do Klu Klux Klan, e que, convertido ao islamismo, estava prestes a mudar o nome para Muhammad Ali, num país que ainda hoje põe o presidente a jurar com uma mão sobre a bíblia. O mais jovem campeão do mundo de sempre tinha, portanto, propriedade para afirmar que abanara o mundo.

Barack Obama podia ter dito, no seu discurso de tomada de posse, que também ajudara ao estremecimento do planeta, porque, como explicou num discurso em 2004, na convenção do Partido Democrata, onde nem sequer era cabeça de cartaz, “A minha presença neste palco é bastante improvável. O meu pai era um estudante estrangeiro [nos Estados Unidos], nascido e criado numa pequena aldeia do Quénia. Cresceu a ordenhar cabras.” Nos vinte minutos seguintes, Barack Obama cruzou a sua narrativa familiar com a história do país. Não apenas os factos cronológicos, mas a emoção que está no coração desses factos: a avó materna que, sozinha, criou uma filha enquanto o avô de Obama desembarcava na Europa vestindo um uniforme do exército americano; o pai de Obama negro, a mãe branca: “Os meus pais não partilhavam apenas um amor improvável, partilhavam uma fé duradoura nas possibilidades desta nação. Deram-me um nome africano, Barack, acreditando que, numa América tolerante, um nome não é uma barreira ao sucesso”. E esta foi a narrativa de Obama até ganhar as eleições, a narrativa da “esperança de um rapaz magrinho, com um nome estranho, que acredita que a América também tem um lugar para ele.”

Obama e Ali partilham a improbabilidade das suas vidas, uma improbabilidade que resulta da viagem esforçada dos seus protagonistas. “Yes we can” – “Sim podemos”, foi o que disse Obama quando ganhou as eleições primárias do Iowa, tornando essas três palavras no mantra da sua campanha.

Na dramaturgia, esta viagem chama-se o arco da personagem, um arco que, no final, tem de causar mudanças no protagonista. Em 1992, a campanha de Bill Clinton criou aquele que é considerado um dos melhores anúncios políticos de sempre, “The Man from Hope”. Clinton nasceu em Hope (esperança), e a narrativa da sua viagem era a de um rapaz pobre que teve a esperança de ser presidente. Num programa da BBC, Philip Gould, conselheiro de Tony Blair, explicou: [Depois de Clinton] as pessoas diziam: ‘Precisamos de uma narrativa, o que precisamos é de uma explicação para o que se está a passar, e que dê sentido aos acontecimentos’”. Os humanos têm o impulso inato para organizar as suas vidas em forma de um conto clássico. A narrativa serve para dar sentido à vida. E alguns políticos, como Clinton, souberam aproveitar essa necessidade com maestria, procurando o arco perfeito.

Richard Maxwell, consultor americano de uma companhia cujo lema é “história como estratégia, a narrativa como forma de liderança”, disse nesse mesmo programa da BBC: “As histórias têm cinco elementos: a paixão com que se contam; um herói, que fornece um ponto de vista ao ouvinte para que este faça essa história a sua história; um problema, que o herói tem de enfrentar; um momento de tomada de consciência, que permite ao herói ultrapassar o obstáculo; e a mudança que daí ocorre.”

Durante a campanha, Obama tinha, sem dúvida, paixão no desempenho da sua oratória. E, sendo o herói, conseguia com a sua história pôr o público a fazer a mesma viagem que ele fez. O problema era representado por todas as adversidades que superou: um homem negro e a sua luta; um país em estado letárgico, com medo, controlado por um governo, de George W. Bush, que cometia demasiados erros e os varria para debaixo do tapete com exercícios de propaganda. O momento de consciência aconteceu no Iowa, durante o discurso “Yes we can”, depois de Obama ganhar essas eleições primárias: “Disseram que este dia não aconteceria, que os nossos objectivos eram demasiado altos, que este país estava demasiado dividido (...) para se juntar em redor de um propósito comum (...), mas neste momento determinante da História, vocês fizeram o que os cínicos disseram que não conseguiríamos fazer”. Depois da tomada de consciência, surgia o derradeiro obstáculo e a possibilidade da mudança que o arco da personagem exige, neste caso, a presidência dos Estados Unidos.

Muitas pessoas desconfiam da narrativa de Obama, dizendo que é tão vazia como a publicidade de um aparelho que faz crescer os músculos sem exercício físico. Mas a narrativa de Obama revelou-se mais que uma campanha da TV Shop. Com ela, mostrou que a política se pode fazer sem ataques pessoais e sem o dinheiro dos grandes lobbies. Conseguiu levar as pessoas a falar de política, a sair para a rua, a participar na campanha; empolgou jovens, conseguiu a maior participação de sempre numa eleições presidenciais, pôs a mudança em andamento, como quem prepara um pugilista para o combate do título mundial. Essa foi a principal conquista da sua narrativa: mudar a disposição, a mentalidade e o empenho de um país de 300 milhões de pessoas e, pelo meio, contagiar o mundo.

Agora, com os espíritos despertos, entrou no segundo acto da sua história, no qual o herói tem de fazer as escolhas mais difíceis, mesmo que isso represente sacrifício e perda pessoal. No seu discurso de tomada de posse disse: “De tanto em tanto tempo, o juramento [do presidente] é feito entre nuvens densas e tempestades raivosas. Nestes momentos, a América perseverou não apenas pela capacidade e visão daqueles que estão no topo do governo, mas porque Nós, o Povo, nos mantivemos fiéis aos ideais dos nossos antepassados, e verdadeiros diante dos documentos que fundaram a nossa nação. Assim foi. Assim deverá ser para esta geração de americanos.”
Obama não precisava da emoção de outros discursos, nem de gritar que tinha abanado o mundo porque essa parte da viagem tinha terminado: num edifício que foi construido por escravos, um homem negro tornou-se oficialmente no presidente dos Estados Unidos.

Com o seu discurso de tomada de posse, Obama estava determinado em iniciar o segundo acto da viagem. Falou do passado para provar que o país tem as ferramentas, e os americanos a capacidade, para enfrentar a crise do presente. Falou dos sacrifícios feitos durante guerras e depressões, disse que é preciso que os homens voltem a pensar num bem maior que eles próprios: “Chegou o tempo (…) de escolher a nossa melhor História; de carregar para diante essa oferta preciosa, essa ideia nobre, passada de geração em geração: a promessa de Deus de que todos são iguais, livres, e que todos merecem a oportunidade de perseguirem a sua medida de felicidade”.

No segundo acto, os trabalhos de Obama têm a dificuldade contemporânea dos trabalhos de Ulisses. Sobre a perfeita narrativa da Odisseia, António Lobo Antunes disse uma vez que se tratava da história de um tipo que avisa a mulher que vai chegar tarde a casa. Tendo em conta o tamanho da viagem que inicia agora, o presidente dos Estados Unidos está também a avisar os americanos, e o mundo, que, para superarmos as nossas circunstâncias, teremos de chegar tarde a casa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Descubra as diferenças (The end)




O provedor dos leitores do Público, Joaquim Vieira, recebeu a minha reclamação sobre uma história de cópia (ou vincada influência). E escreveu este texto, na sua página do jornal, este domingo:

Esse espectro chamado plágio

Terá a nova ecologia comunicacional do século XXI abolido a regra contra a apropriação do trabalho intelectual alheio?

A queixa vem hoje de um jornalista, Hugo Gonçalves, acerca de uma colaboração que fez para a edição de Janeiro do Lux Frágil, mensário gratuito editado por uma discoteca de Lisboa:

”No dia 27 de Novembro enviei um texto por email, com o título ‘O Elogio da Crise’, ao editor do jornal do Lux, Pedro Fradique. O editor resolveu mostrá-lo a alguns amigos e colegas de profissão - entre eles estava o jornalista do PÚBLICO Vítor Belanciano. (…) Queria, segundo me disse, partilhar o artigo e saber as opiniões dos seus colaboradores e amigos sobre o mesmo.

No dia 13 de Dezembro, uma crónica na pág. 3 do P2, escrita por Vítor Belanciano [‘Larguem o ecrã’], começava assim: ’Somos a geração pós-revolução. Não estamos no top de preferências dos que lutaram pela liberdade. Não temos ideais, dizem-nos. Somos os doutores que queriam que fôssemos, replicamos. Deram-nos TV a cores e jogos de computador. Nunca estamos sozinhos. Ele é telemóveis, SMS ou Skype. (...) Somos guardiões do lema pensar global, agir local’.

Um dos parágrafos do meu texto: ’Nós, os que nascemos depois do 25 de Abril, nunca tivemos uma causa geracional, metemos nojo aos colunistas que lutaram pela liberdade, somos os doutores e engenheiros que queriam que fôssemos. (...) Nós, os filhos da pós-revolução, crescemos com televisões a cores, com jogos de computador, com os vídeoclips da MTV a açucarar-nos a vida. Nunca estamos sozinhos – os telemóveis, as sms, o messenger, o facebook. Recebemos o conforto que faltou aos nossos pais. (...) Queremos ser intérpretes do aforismo moderno: pensa globalmente, actua localmente.’

(…) Sim, somos vulneráveis às palavras e às ideias que absorvemos e digerimos e processamos. Porém, e ainda que os textos abordem claramente temas distintos, no caso do parágrafo em questão não se trata de vulnerabilidade, mas de cópia: a cadência, a ordem das palavras, a ideia subjacente e até as imagens usadas para ilustrar tal ideia. Não esquecendo que Vítor Belanciano recebeu o meu texto (…) dias antes de publicar a sua crónica”.

Hugo Gonçalves esclarece que, duas semanas antes de escrever ao provedor, reclamara junto do director do PÚBLICO acerca deste alegado plágio de um escrito seu, mas sem qualquer reacção. E conclui:

“O meu texto foi publicado após a crónica de Vítor Belanciano No entanto, tenho testemunhas e emails que provam que o meu artigo foi escrito muito antes do texto do PÚBLICO. Não gostaria que os leitores pensassem que fiz um exercício de copy/paste [copiar/colar no computador]. É desagradável. Lamento que o PÚBLICO não se tenha preocupado em esclarecer este problema”.

O provedor solicitou esclarecimentos a Vítor Belanciano, perguntando-lhe preliminarmente se confirmava a leitura prévia do texto de Hugo Gonçalves, o que assumiu:

“Nunca fugi – nem ninguém deste jornal – a esta questão. Claro que li o texto de Hugo Gonçalves. Mais: instiguei à sua publicação a quem me pediu opinião. Por isso, recuso insinuações que poderia passar-me pela cabeça dizer que não li o referido texto”.

O provedor nada insinuou a esse respeito, apenas perguntou, no exercício normal de funções, pelo que desconhece a quem Vítor Belanciano possa referir-se. Quanto à explicação da similitude entre o seu texto e o outro, Vítor Belanciano adianta:

“A ideia, o conceito, a essência, dos dois textos é totalmente diferente. O meu reflecte sobre a retórica tecnológica, como se fosse a única imagem de um futuro possível. Algumas influências na sua feitura foram teorias de Zygmunt Bauman (a geração do ‘ter’ e não do ‘ser’), análises de James Howard Kundler (a confiança cega na tecnologia e o estilo de vida ocidental ter que mudar face à escassez de recursos energéticos) e texto de Simon Jenkins sobre haver cada vez mais pessoas a consumirem espectáculos ao vivo, porque não há comunidades virtuais que os substituam. O texto de Hugo Gonçalves é sobre o estado de Portugal e como a crise pode ser, afinal, a salvação.

A minha crónica está escrita num registo formal que é o meu: conciso, directo, frases curtas, dinâmico, cadenciado.

Isso não significa que não existam cinco frases no princípio da minha crónica com semelhanças a frases do outro texto, que, em alguns casos, na sua declaração, Hugo Gonçalves tira de contexto, recorrendo a parêntesis. Adiante. Não vou estar a discutir ‘vírgulas’, que é o que, nestes casos, pode suceder.

Digo, frontalmente, que sim, é plausível que a leitura, alguns dias antes, do texto de Hugo Gonçalves possa ter sugestionado essas minhas frases. Fui um pouco incauto? Talvez.”

E depois, à guisa de doutrina para um gesto que olha com aparente displicência, Vítor Belanciano elabora uma tese justificativa:

“De qualquer forma, a ideia que atribui forma a essas frases está banalizada e é do senso comum. (…)

Eu próprio, em crónicas anteriores, utilizei alusões parecidas para reflectir o mesmo: ‘Podemos recorrer a astúcias e pequenos gestos quando estamos entre desconhecidos sinalizando a intenção de permanecermos afastados, como a utilização indiscriminada do telemóvel – como se através dele obtivéssemos consolo de estar em comunicação, sem o desconforto que o verdadeiro contacto reserva’. (‘Viver por opção no gueto’, 13-08-07); ’Fazer parte de comunidades ou universos virtuais como o Second Life, de dia, ou passear no Chiado de iPhone no ouvido, à noite. Cada um pode criar o seu mundo artificial’. (‘Coexistir’, 20-07-08).

Sei perfeitamente que existem sensibilidades diferentes para conviver com estas questões. Entendo a susceptibilidade de Hugo Gonçalves. Muitos outros partilham do mesmo, certamente. Respeito-o. (…) Essa não é a minha visão, no entanto. (…) Enquanto alguém que pensa sobre estes factos, queria deixar apenas a seguinte observação:

Nenhum texto, ou obra, é puramente original, feito exclusivamente por um sujeito, livre das interferências de outras produções. Citações, referências, alusões, apropriações e ecos – conscientes ou inconscientes – encontram-se, cada vez mais, num mundo intrincado de signos. Mais do que isso, são a própria condição do acto criativo. Ter uma voz singular implica adoptar e abraçar filiações, comunidades, discursos. Inventar não é criar do nada, mas do caos.

Todos o sabem, poucos o aceitam. Tenho a sensação de que hoje grassa uma espécie de arrogância cultural, e uma hipocrisia que lhe está subjacente, quando se fala nestes assuntos. Com o fluxo ininterrupto de informação vinda de todos os lados, estas questões são – e serão ainda mais no futuro – relevantes, implicando rever as formas pelas quais nos relacionamos com elas”.

Por louvável que seja a franqueza de V.B. ao admitir influências do texto de Hugo Gonçalves, é muito mais problemático que o encare como natural. Vítor Belanciano constatava na crónica em causa haver quem acusasse a sua geração (de que se assume como porta-voz) de já não ter ideais. O provedor, que não sabe se é isso que ele próprio pensa, entende de forma diferente – que continua a haver ideais, mas não necessariamente coincidentes com os das gerações anteriores. Em todo o caso, estava convencido de que a não apropriação do trabalho intelectual alheio, mais conhecida como recusa do plágio, permanecia como ideal transmitido de geração para geração.

Conviria a Vítor Belanciano ter a consciência de que o código deontológico da sua profissão estipula que “o jornalista deve combater (…) o plágio como grave falta profissional” e de que trabalha para um jornal cujo Livro de Estilo é taxativo a este respeito: “O plágio é terminantemente proibido no PÚBLICO”.

Poder-se-ia pensar que a proximidade de ideias, a semelhança da exposição e a coincidência de vocábulos entre Hugo Gonçalves e Vítor Belanciano não teriam passado de uma bizarra coincidência em milhões de diferentes combinações lexicais à volta do mesmo tema – certamente mais rara do que ganhar o Euromilhões. Mas, tendo lido o outro texto antes de escrever o seu, a Vítor Belanciano não poderá ter escapado tudo isso, pelo que lhe competiria fugir à inevitável comparação entre dois discursos tão concordantes.

Sendo certo que a nova ecologia comunicacional poderá obrigar a repensar o conceito de direito de autor, como alega em sua defesa, Vítor Belanciano estava a escrever, com a sua própria assinatura, para um órgão de informação tradicional, onde ainda imperam (e imperarão) os velhos valores que obrigam a atribuir devidamente às respectivas fontes todas as informações e expressões recolhidas algures.

Remata o jornalista:

”Alguém me perguntava: ‘E se fosse ao contrário?’ Respondi – com exagero, decerto – que todas as semanas vejo isso acontecer com textos meus. (…) Todos são bem vindos às minhas considerações e histórias. No limite, elas nunca foram apenas minhas, em primeiro lugar, façam favor de fazer delas o que quiserem”.

Sendo estimável, a generosidade de Vítor Belanciano não o autoriza a abusar da generosidade dos outros.

sábado, 17 de janeiro de 2009

A vida inteira na televisão



Texto publicado na edição de hoje do Semanário Económico

Num dos episódios da série Mad Men, o protagonista, Don Draper, depois de apanhado numa das suas infidelidades, tem de voar de Nova Iorque para a Califórnia numa viagem de negócios – desaparece durante três semanas quando conhece uma mulher mais nova, e muda-se para uma mansão habitada por um grupo de pessoas que existem em redor de uma piscina, que falam francês, que escolheram a liberdade dos costumes.

Don Draper, publicitário implacável, americano de fato e chapéu no início da década de 60, está num impasse: escolher o amor seguro da família tradicional ou desfrutar da vida sem rede. Mais tarde, lê em voz alta um poema do livro “Meditations in an Emergency”, de Frank O’Hara: “Agora estou tranquilamente à espera que a catástrofe da minha personalidade volte a parecer bonita, interessante e moderna”.

Draper decide então regressar a Nova Iorque. Pede desculpa. E a mulher, grávida do terceiro filho, esposa exemplar na aparência e prisioneira de um subúrbio dourado, diz-lhe que não. Depois, a mulher deixa os filhos com o marido, entra num bar e, num quarto de arrumações, permite que um estranho lhe levante a saia até que se vejam as meias de liga. Em seguida, inclina a cabeça para trás.

Mad Men, que acaba de ganhar o Globo de Ouro pela para melhor série dramática de televisão, tem a capacidade para pôr as suas personagens no limite, encostadas às cordas, e de mostrar como reagem diante dessas escolhas decisivas. Em Portugal, a primeira temporada já começou a passar na Fox, estando também disponível em DVD, na Amazon.

Mad Men estreou-se em Outubro de 2007, num canal que, até então, apenas oferecia filmes antigos. Mas os executivos do AMC acharam que era preciso produzir ficção própria e escolheram a ideia de um guionista dos Sopranos, Matthew Weiner. No primeiro ano, a série não disparou nas audiências, mas a crítica impressionou-se. Na segunda temporada as audiência subiram 20 por cento.

Nos últimos anos, os Estados Unidos, produtores de tanto lixo televisivo, conseguiram recuperar todo o potencial da televisão. Por isso, passou a ser um lugar comum dizer que séries como os Sopranos, Sete Palmos de Terra ou The Wire são melhores – no guião, na interpretação, na fotografia, na direcção – que a quase totalidade dos filmes produzidos por Hollywood. Se fossem vivos, dramaturgos como Tennessee Williams ou Arthur Miller estariam a escrever para televisão.

O primeiro episódio de Mad Men começa com uma nota explicativa: “Mad Men, termo do final dos anos 50 usado para descrever o publicitários da Madison Avenue”. A série acompanha o funcionamento da agência Sterling & Cooper, nuns Estados Unidos felizes com a abundância mas assustados com os mísseis soviéticos. Os publicitários estão adiante do seu tempo nas ideias para as campanhas publicitárias, mas são fiéis seguidores do fato e do chapéu, dos cigarros sem parar (até os médicos fumam durante as consultas), dos cocktails antes e depois das reuniões, da amante na cidade e da mulher nos súburbios.

Don Draper, herói de guerra, com um passado misterioso, é a estrela da companhia – e uma das personagens televisivas mais fascinantes de sempre –, capaz de emocionar a audiência quando apresenta uma campanha à Kodak ou de dizer coisas como: “O amor foi inventado por um tipo como eu para que se vendam mais collants”. Mad Men é uma série politicamente incorrecta – trata do sexismo, do racismo, das peripécias exibicionistas dos machos alpha, da ideia que a competição é o motor da vida. As personagens podem, por vezes, parecer canalhas, mas são canalhas com sentido de humor, bem vestidos, sempre envoltos em fumo e vapores de whisky. Don Draper é um homem brilhante e insuficiente emocional. Um tipo duro com um lado suave muito bem escondido. Mad Men é uma série aparentemente superficial no estilo de vida dos personagens, mas, como diz Don Draper sobre um dos produtos que quer vender: “(Trata-se) de nostalgia. Delicada mas potente. Nostalgia significa a dor de uma ferida antiga, uma pontada no coração. Muito mais poderosa que a memória”.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A little less conversation a little more action (short fiction story of a prelude to a New York kiss)

Official Sound Track




Ela disse-lhe: 'You make wrinkled shirts look cool'.

Ele tinha uma nódoa de rum cola junto ao colarinho - alguém o empurrara num alcoolizado momento de dança, os dedos ficaram molhados, depois pegajosos, açúcar que ele lambeu baixando a cabeça como um miúdo que acabou de cometer uma ilegalidade na cozinha. Ele disse: 'I don't smoke, but do you have a cigarette?'

Ela aproximou-se mais. Tinha o cabelo ruivo, os olhos azuis, dedos com manchas de tinta. Ele tirou mais pedras de gelo do balde em cima da mesa. Disse: 'So you're an artist?' Ela tirou-lhe o copo da mão, provou, serviu mais rum: 'Boys need to be boys'.

Ele bebeu. O fervor do excesso de álcool espalhou-se nas paredes da boca e por todo o sistema nervoso. Olhou para o vestido dela, os ombros sem tecido, uma veia azul no pescoço quando ela se ria. E ria-se tanto. Ela perguntou: 'Nina Simone or Billie Holyday?'

Ele aproximou-se, as ancas de ambos a menos de um dedo de distância, uma das mãos segurando o copo, a outra a pousar no vestido, um pouco abaixo das costelas, até que o polegar deslizou, apertando-lhe o ponto onde se estreia a virilha. Por cima do vestido, ele podia sentir o fino elástico que lhe rodeava a cintura. Ela disse-lhe, boca ao lado da boca: 'It's like you're undressing me already.'

Cruzaram a festa, ela parou para conseguir um copo de água, gelo, limão. Ele agarrou um cubo de melancia que se transformou em sumo dentro da boca. Havia fumo, e fila para a casa de banho, e pessoas que tinham chegado da praia. Duas irmãs de bikini bebiam margueritas. Um ilustrador sóbrio falava com um diplomata ganzado. No corredor, onde a corrente de ar apagara as velas no chão, alguém mordia o pescoço de alguém.

Subiram para o terraço do prédio: um sofá, antenas de televisão, as pontes sonoras e iluminadas sobre o East River.

Ela inclinou-se no parapeito do terraço, virou-lhe as costas, disse: 'I think I've never made out with anyone in Brooklyn.' E bebeu a água, limpou a língua, estilhaçou uma pedra de gelo dentro da boca, produziu saliva com sabor a limão.

Ele disse-lhe: 'Water melon tongue', e a sua mão pressionou-lhe a curva onde as costas se despistam, puxou-a para si, a outra mão segurou-lhe a cara, o dedos entraram no cabelo, agarrou-a com mais força, e ela afastou as pernas, roçou a pele das coxas nas calças de ganga, o centro do seu corpo cedeu, um ombro inclinou-se, os lábios cresceram, a sua boca podia ter dito: 'Do something to me'.

Ele virou-a de costas e apanhou-lhe o cabelo na nuca com uma das mãos: firme, sem espaço de manobra. Com a outra mão desceu-lhe uma alça do vestido, usou um dedo para contornar a curva do ombro, descer pelo peito, sobrevoar o mamilo.

Mordeu-lhe o pescoço, os músculos da nuca, deixou a marca dos dentes.

Ela disse: 'Do it already', e rodou sobre si mesma, a alça a meio do antebraço, a boca apontada, a urgência de ficar sem fôlego.

E depois beijaram-se.