segunda-feira, 2 de março de 2009

Esta Lisboa Moderna


Na mesma rua, frente a frente:

1) O rapaz negro, com a farda McDonalds, esfrega a calçada das traseiras do restaurante (entre dois M's gigantes e amarelos) e é observado por:

2)Homem branco e despenteado, que sai do café com cartazes na entrada ("Há meios pratos de dobrada", "Há moelas todos os dias"). O homem tem os olhos cheios de fiozinhos alcoolizados de sangue, ergue o copo matinal diante do lábios e, mesmo antes que os tubos do interior do seu corpo sejam iluminados pelo bagaço, observa o rapaz, que continua a esfregar a calçada, e

3) não se se dá conta sequer que eu ando a fazer as pazes com esta cidade

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O escritor enquanto faz a devida vénia


Caros leitores,

Mesmo hoje, quando ponderei tirar o passe L, senti que o compromisso de pagar algo a cada 30 dias exigia a dedicação de quem se alista na Legião Estrangeira. Pago as contas depois do prazo. Nunca comprei uma casa. E cada vez tenho menos coisas para transportar a cada mudança. Mas acreditem que tenho tentado ser mais duradouro que o sabor de uma pastilha de Epá.

Também não tenho site meter (ainda que me olhe demasiadas vezes nas montras das ruas - preciso de um corte de cabelo), nem sei em que partes do mundo me lêem, nem se há citações do que escrevo pela internet. Não me lembro de quando comecei a escrever este blog. Não é desprendimento, é preguiça ou (soa melhor assim) é a necessidade de me concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo.

E é por isso que também não costumo responder aos comentários dos que aparecem no meu blog. Tenho algum pudor - ao vivo posso ser um desenvergonhado, no blog tenho o mesmo constrangimento de uma adolescente a quem tentam apalpar as mamas pela primeira vez.

Sou insuficiente, caros leitores. Chego-vos tarde e a más horas. Desapareço. Sou o marido bêbedo que sai para ir ver o jogo no café e só volta para almoçar no domingo com uma tatuagem nova.

Mas tenho mesmo de vos agradecer.

Dobro o corpo numa vénia.

Muito obrigado.

Aos bondosamente chanfrados que decidiram ser seguidores deste blog (clara, busy cat, joaninha versus escaravelho, luciana, sónia, carol e num relance), ofereço também um mortal encarpado. Sou o vosso ginasta chinês. A vossa locutora de continuidade. O boneco dos Marretas. O rapaz que mete música na festa. O pirata a balançar na corda. O escritor num filme de acção. O gajo que grita: bar aberto. O miúdo que se diverte muito, mesmo muito, a escrever isto.

Note to self


Não escrever no blog quando se chega a casa às seis horas e quarenta e cinco minutos da manhã.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Feios, porcos e maus (mas estou bem disposto)


Sade: menino. Dante: poeta de paninhos quentes. Hunter S. Thompson: totó. Se qualquer um deles fizesse compras no Pingo Doce do Campo Mártires da Pátria, teria produzido literatura freak show a sério, infernal, sem dentes na gengiva superior e de cabelo oleoso; literatura de rés-do-chão onde vivem avós, pais, e filhos; poemas de unha encravada e frases gritadas, por adolescentes grávidas, no corredor da higiene pessoal: "Ó mor lê ali o coiso que eu não posso por causa da pança".

Pensava eu ao acordar, observando o castelo e a Graça pela janela: Uma manhã de sexta-feira para pôr um pouco de ordem na vida doméstica e retirar os horários de dentro do cranio. Por isso, atravessei o jardim com patos no lago e galos tão imperiais na crista e nas penas do peito como obtusos no movimento incessante de cabeça. E crianças com as mães, e jovens viajantes, sem t-shirt, a brincar com a sua entourage canina, e relva que cheira sempre a relva, e a ideia de que este pode ser um extraordinário dia para a espécie humana.


Depois da bela, veio o monstro. Se comparadas com este supermercado, Sodoma e Gomorra não passam de parques da Disney. Estou bem, é verdade, sobrevivi aos vegetais moles e murchos como uma actriz velha e sem trabalho; enfrentei o rapaz da caixa que tinha pele de metadona; fui empurrado na fila, afastei-me das abóboras gelatinosas; saí para a rua e atravessei de novo o jardim com a relva que agora cheirava mais a campo do que a relva - cheirava a flores amarelas que se mordem e são amargas.

Lição de um dia que será, de certeza, extraordinário para a espécie com polegar oponível: ou mudo de supermercado, ou transformo-me num escrito maldito.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O rapaz do eléctrico


Uma mulher portuguesa a usar a língua como palito hidráulico enquanto explica a uma turista francesa que o Mosteiro dos Jerónimos não é em Cascais; uma africana, com o filho ao colo, e rabo que precisa de um reboque, esmaga-me contra a janela assim que se senta a meu lado; a estudante de design que ainda troca os b's pelos v's mas que já sabe fazer olhinhos e fumar ganzas; japoneses, marroquinos, ucranianos, tantos espanhóis, carteiristas, travestis, e o rio a passar nas janelas. Regressei aos transportes públicos de Lisboa, e até tenho aquele cartão que se carrega com dinheiro. Carris: minha musa, tágide laranja, inspiração maior para que este blog seja tão fértil como a Angelina Jolie.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quarta Feira de Cinzas ou Self Help Manual


Para a Diana

No final, o coração do coração, aquilo que importa, não está na grandiosidade das conquistas nem na queda livre dos falhanços; não está nos rituais do amor, nos domingos sem outra voz dentro de casa, no anonimato, na fama, na impossibilidade de pagar as contas ou no bónus de produtividade que rebenta as costuras da conta bancária. A hipótese de encontrar a verdade encontra-se na forma como nos portamos em cada uma destas situações. Naquilo que conseguimos ser. Naquilo que realmente somos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Let's look at the trailer


Uma das razões da velocidade arrastada deste blog: um programa de televisão de nove episódios. Fica aqui um trailer, ainda experimental e sem pós produção audio, do Esplendor de Portugal, a estrear em Março, na Sic Radical.