terça-feira, 31 de março de 2009

Na minha rua (i)


O homem do talho atravessa a rua, ata o saco num cordel pendurado do terceiro andar, e a senhora de bata eleva o saco com (agora imagino eu) costeletas de porcos, iscas e uma morcela de sangue. Melhorou o meu dia.

E eu no Facebook.

O que me atrai tanto nos contraste e nas diferenças?

Uma miúda de sardas, que me ofereceu um livro ("The pugilist at rest"), e que hoje tem um filho e ensina História de Arte em Rochester, disse, encostada numa parede em TriBeCa (os dois bêbedos, os dois a prolongar o desassossego até ao primeiro beijo, apenas proximidade, nenhum toque ainda): "You get bored easily, don't you?"

Mas tem de ser mais que isso. Não pode ser apenas o temor da pasmaceira. Porque razão gosto de estar sentado num restaurante (meia dose de filetes 4,5 euros), com erasmus franceses, reformados que tocam harmónica e trabalhadores marroquinos manchados de tinta?

Talvez porque acredite que, tendo em conta as possibilidades da vida, seja um desperdício acreditar num livro de instruções.

I'm in a Madrid state of mind



Vete - Marlango

Ayer te eché de menos. Es un poco ridículo porque en esta nostalgia no hay nada de poéticamente interesante, ni siquiera un hueco en el corazón que haga falta curar. Tenemos buenas relaciones, lo sabes. Lo años que pasamos juntos ya hacen parte de mi código emocional. Pero ayer estaba tumbado en el sofá, un poco fumado, y igual la ausencia de huesos y de compañía y la peli rodada en Madrid que ponía la tele me llevaron otra vez hasta ahí. Mira, te aviso que estoy muy bien en Lisboa, que por fin descubro algo aquí que me pone la sangre curiosa y se próximamente me hacen uno de esos cuestionarios de verano, responderé que sí a la pregunta: eres feliz?

Pero también sabes que me gustaría estar en muchos sitios al mismo tiempo (leí demasiados comics de super héroe en niño?)Te echo de menos: la inquietud caliente de la calle Espíritu Santo, cuando llegaba de correr por el Parque del Oeste, y cruzaba las terrazas con copas llenas de hielo y voces jóvenes y piernas sedutoras. Y Maria y Quique y Zé y Marta Y Álvaro Y Kiko y Vasco y Alex y Vero y el señor Ruso - una família intera. Es verdad que muchas veces me jodiste (yo me jodi). Pero me gustaria llegar otra vez al Rincon, solo, al final de la tarde, cuando el sol aparece y desaparece en las estrechas calles de Malasaña, y esperar que lleguen, uno a uno, los miembros de mi familia madrileña. En sério, te echo de menos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Polis


Não sabia ainda o que me esperava mas, como treino de preparação, li o guia da cidade escrito pelo brasileiro Nelson Motta num voo a caminho de Nova Iorque. Tinha passado duas semanas a ver, uma e outra vez, as imagens dos aviões incendiários e das torres desabando sobre gente que passei a conhecer nos meses seguintes: nos obituários do New York Times, chamados Portraits of Grief – heart breaking, pulitzer winning journalism – e nas pessoas que fui conhecendo em ambos os lados do bar: o paramédico que desatou a chorar em cima dum vodka gimlet porque já não conseguia sentir nada; a mulher que me ofereceu o The End of the Affair, sublinhado e anotado, imediatamente após o fim da relação com um homem casado e seu professor; o mecânico que odiava árabes e, com um smoking e uma limusina alugada, celebrou o aniversário de Frank Sinatra em rat pack party mode, noite fora e com os irmãos na ilha de Manhattan.

Usando o guia de Nelson Motta, ainda no avião, eu queria descobrir o que aí vinha (um contrasenso, uma vez que queria tudo o que não conhecia). Ele era um estrangeiro que tinha vivido naquela cidade, e sentia-o próximo de mim da mesma forma que em criança torcia pela selecção do Brasil. Os seus ensinamentos e experiências, a sua longa missão de reconhecimento na cidade, teriam de servir-me a partir do momento em que aterrasse em Newark. No entanto, agora, não me lembro se o guia continha recomendações de restaurantes em Brooklyn Heights ou comentários sobre a parolice iluminada de Times Square. Mas lembro-me de uma ideia, qualquer coisa como: em todos os países há corrupção, a diferença (e lembrem-se que Motta é brasileiro) está na vontade da sociedade em não pactuar com essa corrupção. E puni-la.

De regresso ao voo para Nova Iorque: não fui seguramente o primeiro a gozar com as perguntas ingénuas dos formulários dos serviços de imigração norte-americanos. Querem saber, por exemplo, se somos terroristas ou se levamos armas. O nacional espertismo lusitano (o mesmo que levou os supermercados a suspender a pesagem feita pelos clientes) não entende que há certas sociedades que se baseiam em esperar o melhor dos outros, ao invés daquelas que se fundamentam na engenharia da artimanha em proveito próprio.

Os Estados Unidos não são, seguramente, os campeões da decência humana – Kissinger, Chiney, Fox News, Enron, AIG, Wall Street, Darth Vader & Freddy Krueger – mas Nelson Motta tinha razão quando dizia que no Brasil (e eu acrescento Portugal) é menor a vontade de uma existência limpa, preferindo-se a glorificação da prática do engano.

Hoje vi Isaltino Morais dizer que era comum, há dez anos, os políticos não pagarem a totalidade dos impostos, usando um argumento do tipo: se toda a gente mija na piscina eu também posso. Isaltino não estava a pedir a clemência do tribunal ou a reconhecer a falha, estava a dizer que talvez a lei estivesse mal, uma vez que tantas pessoas honestas e capazes de dirigir o país (os políticos) praticavam a fraude fiscal.

Eu usei o mesmo argumento quando, aos 18 anos, a GNR me multou por passar um traço contínuo: “Mas seu guarda, toda a gente vira aqui”. O guarda preencheu o papel e conseguiu ser brutalmente essencial ao mesmo tempo que previsível: “E se toda a gente se atirar de uma ponte?” Felizmente, o meu caminho para o nacional isaltismo foi parado depois da terceira multa grave, com 21 anos, por excesso de velocidade.

Há mais de oitenta anos, Almada Negreiros escreveu: “Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia, se é que a sua cegueira não é incurável, e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado”.

Mesmo que eu tenha deixado de activar radares da polícia, sinto ainda a herança dessa sujidade (e de alguma testosterona), que se perpetua no tempo, que custa a limpar, e que se propaga pela atmosfera como se se tratasse da peste bubónica da decência: as fintas aos impostos, o nepotismo madeirense, as derrapagens orçamentais de milhões nas obras públicas, o entrevistado na rua que, questionado sobre os escandâlos financeiros dos bancos, responde: “Não é um roubo, é um desvio, eu se estivesse no poleiro também desviava”; os dois homens de trinta anos (filhos dessas boas famílias que fazem um péssimo trabalho) gabando-se das patranhas usadas para, infracção após infracção de trânsito, continuarem na posse da carta.

Tanto na bazófia de homem comum de Isaltino, como no pedantismo dos condutores aristocratas, é a impunidade que importa; e ser o mais esperto do bairro, ainda que isso resulte em danos para outros. Fugir da honestidade e recolher dividendos é motivo de um orgulho tão resplandecente como o orgulho do carro com jantes especiais, do telemóvel (o terceiro este ano), do passar à frente na fila do Pingo Doce.

Uma nova iorquina bêbeda, que tentei beijar na boca, disse-me uma vez, num apartamento da rua 96, entre a Lexington e a 3ª avenida: “Não interessa de onde se vem mas onde se pode chegar”. Depois mandou-me ir comprar mais cervejas.

Nelson Motta tinha razão: é a vontade de limpar que importa, porque lixo haverá sempre. Vimos de um sítio de chico-espertos triunfadores, diante dos quais as massas sussurram em aprovação: “Gamam mas ao menos têm obra feita”.

Sabendo do risco das latrinas a céu aberto, acredito que teremos de chegar a outro sítio: um sítio que tem de ser qualquer coisa de asseado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Mania das grandezas


Depois da maior árvore de Natal, da maior bandeira e do maior centro comercial, o país orgulha-se de, em breve, ser casa da maior loja da marca Ikea na Europa. Em Frielas. Estou aqui que não posso. Até ao verão quero ver mais um record: que tal a maior meia dose de mãozinha de vaca? Com grão, claro está.

terça-feira, 24 de março de 2009

Tenha medo, tenha muito medo


Nunca vi nada assim. Não é a primeira vez que escrevo isto, mas preciso de repetir: nunca vi nada assim. E mesmo que me digam que os gregos são mais mediaticamente futeboleiros que os portugueses (parece que têm 13 jornais desportivos), começo a ter dúvidas que haja um país que telenoveliza o futebol como nós, e uma comunicação social que alimente a besta como se fosse um implacável traficante de heroína. Sem escrúpulos. "É o que as pessoas querem ver", dizem os responsáveis pela comunicação social, com o mesmo encolher de ombros dos traficantes, como a mesma preguiça de quem só quer chegar a casa e calçar os chinelos e adormecer diante da intermitência faladora da tv.

Há um comentador, Rui Santos, na Sic Notícias, que, sozinho, fala mais de uma hora e meia no horário nobre de domingo. Há três programas cujo o formato é exactamente igual, cada um com três comentadores (oh originalidade!) nos três canais de notícias portugueses. Há fóruns e mais fóruns, onde a vox populi tenta superar a profissão de camionista ou professor de escola secundária para, nesses dois minutos de tempo de antena, sentir-se parte do painel oficial de comentadores.

Há presidentes de clubes, há o responsável de comunicação do Benfica, que discursa como se fosse um elemento da oposição a Fidel Castro. O Jornal da Noite da Sic, 24 horas após o final da Taça da Liga, abre (durante vários minutos) com a Taça da Liga (que tinha acontecido, repito, na noite anterior). O jornal Jogo chama "Ferrari" ao fiscal de linha, porque dizem que é do Benfica. Fazem-se ameaças de morte ao árbitro do jogo.

Quando o Vata marcou o golo ao Marselha, na semi-final da Taça dos Campeões Europeus, saltei de tal forma em cima da cama, a ouvir o relato, que o meu pai pensou que estivessem a assaltar a casa. Mas a verdade é que agora não consigo associar o meu gosto pelo futebol a esta pobreza massificada. Não percebo porque tudo isto é tão importante. E numa derradeira tentativa de perceber esta voracidade parola, em que o jornalismo se começa a parecer com as multidões que cospem e gritam e agridem nas portas dos tribunais, começo a imaginar-nos a nós, os portugueses, como a família na qual ninguém acabou a escolaridade obrigatória, e cujo o desinteresse pelo mundo é substituído pela dormência de seguir as novelas do futebol na televisão. É mais fácil viver neste estado de hipnose futebolística, através do outro - do dirigente indignado, do jogador birrento, do árbitro ameaçado -; é mais fácil não mexer o corpo desinteressado do sofá ou da cadeira do café e, no entanto, largar opiniões com a certeza e a pompa de um comentador televisivo.

Dizem que precisamos de escapes para a dureza e tristeza da vida real. E que tal fazer com que a vida real seja mais apetecível e mais alegre?

O que é mais estranho ainda: é que o nosso futebol nem é assim tão bom, os jogos são soporíferos, os jogadores mandriões, os dirigentes são tão incompetentes e maníacos do ego como são alguns autarcas e criminosos, os árbitros falham na curva com demasiada frequência. Somos um pouco napolitanos: convivemos com uma coisa feia e mafiosa, o futebol nacional, mas que faz parte de nós, como a Camorra faz parte da vida dos napolitanos.

Um estudo dado a conhecer hoje, informa que as crianças portuguesas passam a maior parte do seu tempo, diante da televisão, a ver novelas e futebol ou programas relacionados com futebol. Primeiro, porque esses são os programas que os pais escolhem ver. Segundo, porque essa é a programação que as televisões oferecem. Este é o nosso admirável mundo novo.

What a wonderful world of waste.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Note to self (ii)


Aos 32 anos as ressacas precisam de muito mais horas de sono e, pelo menos, dois dias de recuperação. Se saíres no sábado, o teu domigo passa a ser na segunda-feira. Nunca te imaginaste a dizer isto e, provavelmente, nem te servirá de lição, mas aqui fica: as tuas células danificadas pelos comportamentos excessivos já não recuperam com velocidade juvenil. Ou seja, pequeno rapaz: já não tens 18 anos. Mas também já não tens sentimentos de culpa. É a natural lei das compensações.

Could you be the most beautiful girls in the world?


Quando vivia em Madrid havia, previsivelmente, conversas repetidas quando conhecia locais pela primeira vez – as diferenças no desenvolvimento entre Portugal e Espanha, a razão pela qual os espanhóis não entendem uma palavra do que dizemos ou como são bonitos e bem educados os homens portugueses. Eu e os meus amigos lusitanos do sexo masculino dizíamos que sim a essa ideia generalizada de que os machos portugueses punham os espanhóis no banco dos suplentes. E embora a nossa confirmação tivesse tanto de científico como as aparições de Nossa Senhora de Fátima, resolvi não perder muito tempo a pensar no assunto assim que percebi que os homens espanhóis têm, tantas vezes, cara de pão saloio e os modos de um estivador desempregado após a crise de 1929.

Não sei quem ganha no campeonato ibérico da beleza. Mas hoje, cruzando (determinadas partes de) Lisboa, percebi como há mulheres portuguesas tão bonitas. E só por isso, muito obrigado.