
Não sabia ainda o que me esperava mas, como treino de preparação, li o guia da cidade escrito pelo brasileiro Nelson Motta num voo a caminho de Nova Iorque. Tinha passado duas semanas a ver, uma e outra vez, as imagens dos aviões incendiários e das torres desabando sobre gente que passei a conhecer nos meses seguintes: nos obituários do New York Times, chamados
Portraits of Grief – heart breaking, pulitzer winning journalism – e nas pessoas que fui conhecendo em ambos os lados do bar: o paramédico que desatou a chorar em cima dum vodka gimlet porque já não conseguia sentir nada; a mulher que me ofereceu o The End of the Affair, sublinhado e anotado, imediatamente após o fim da relação com um homem casado e seu professor; o mecânico que odiava árabes e, com um smoking e uma limusina alugada, celebrou o aniversário de Frank Sinatra em rat pack party mode, noite fora e com os irmãos na ilha de Manhattan.
Usando o guia de Nelson Motta, ainda no avião, eu queria descobrir o que aí vinha (um contrasenso, uma vez que queria tudo o que não conhecia). Ele era um estrangeiro que tinha vivido naquela cidade, e sentia-o próximo de mim da mesma forma que em criança torcia pela selecção do Brasil. Os seus ensinamentos e experiências, a sua longa missão de reconhecimento na cidade, teriam de servir-me a partir do momento em que aterrasse em Newark. No entanto, agora, não me lembro se o guia continha recomendações de restaurantes em Brooklyn Heights ou comentários sobre a parolice iluminada de Times Square. Mas lembro-me de uma ideia, qualquer coisa como: em todos os países há corrupção, a diferença (e lembrem-se que Motta é brasileiro) está na vontade da sociedade em não pactuar com essa corrupção. E puni-la.
De regresso ao voo para Nova Iorque: não fui seguramente o primeiro a gozar com as perguntas ingénuas dos formulários dos serviços de imigração norte-americanos. Querem saber, por exemplo, se somos terroristas ou se levamos armas. O nacional espertismo lusitano (o mesmo que levou os supermercados a suspender a pesagem feita pelos clientes) não entende que há certas sociedades que se baseiam em esperar o melhor dos outros, ao invés daquelas que se fundamentam na engenharia da artimanha em proveito próprio.
Os Estados Unidos não são, seguramente, os campeões da decência humana – Kissinger, Chiney, Fox News, Enron, AIG, Wall Street, Darth Vader & Freddy Krueger – mas Nelson Motta tinha razão quando dizia que no Brasil (e eu acrescento Portugal) é menor a vontade de uma existência limpa, preferindo-se a glorificação da prática do engano.
Hoje vi Isaltino Morais dizer que era comum, há dez anos, os políticos não pagarem a totalidade dos impostos, usando um argumento do tipo: se toda a gente mija na piscina eu também posso. Isaltino não estava a pedir a clemência do tribunal ou a reconhecer a falha, estava a dizer que talvez a lei estivesse mal, uma vez que tantas pessoas honestas e capazes de dirigir o país (os políticos) praticavam a fraude fiscal.
Eu usei o mesmo argumento quando, aos 18 anos, a GNR me multou por passar um traço contínuo: “Mas seu guarda, toda a gente vira aqui”. O guarda preencheu o papel e conseguiu ser brutalmente essencial ao mesmo tempo que previsível: “E se toda a gente se atirar de uma ponte?” Felizmente, o meu caminho para o nacional isaltismo foi parado depois da terceira multa grave, com 21 anos, por excesso de velocidade.
Há mais de oitenta anos, Almada Negreiros escreveu: “Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia, se é que a sua cegueira não é incurável, e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado”.
Mesmo que eu tenha deixado de activar radares da polícia, sinto ainda a herança dessa sujidade (e de alguma testosterona), que se perpetua no tempo, que custa a limpar, e que se propaga pela atmosfera como se se tratasse da peste bubónica da decência: as fintas aos impostos, o nepotismo madeirense, as derrapagens orçamentais de milhões nas obras públicas, o entrevistado na rua que, questionado sobre os escandâlos financeiros dos bancos, responde: “Não é um roubo, é um desvio, eu se estivesse no poleiro também desviava”; os dois homens de trinta anos (filhos dessas boas famílias que fazem um péssimo trabalho) gabando-se das patranhas usadas para, infracção após infracção de trânsito, continuarem na posse da carta.
Tanto na bazófia de homem comum de Isaltino, como no pedantismo dos condutores aristocratas, é a impunidade que importa; e ser o mais esperto do bairro, ainda que isso resulte em danos para outros. Fugir da honestidade e recolher dividendos é motivo de um orgulho tão resplandecente como o orgulho do carro com jantes especiais, do telemóvel (o terceiro este ano), do passar à frente na fila do Pingo Doce.
Uma nova iorquina bêbeda, que tentei beijar na boca, disse-me uma vez, num apartamento da rua 96, entre a Lexington e a 3ª avenida: “Não interessa de onde se vem mas onde se pode chegar”. Depois mandou-me ir comprar mais cervejas.
Nelson Motta tinha razão: é a vontade de limpar que importa, porque lixo haverá sempre. Vimos de um sítio de chico-espertos triunfadores, diante dos quais as massas sussurram em aprovação: “Gamam mas ao menos têm obra feita”.
Sabendo do risco das latrinas a céu aberto, acredito que teremos de chegar a outro sítio: um sítio que tem de ser qualquer coisa de asseado.