
Texto publicado no jornal do Lux
Se o título deste artigo fosse facebook conseguiria muito mais leitores – o que só prova que as redes sociais de internet já fazem parte do dia. E da noite. Nada disto é científico, claro. Muito menos este texto (mesmo que diga a verdade).
Hugo Gonçalves
O facebook permite-nos ser glamorosomente interessantes mesmo que estejamos em casa de cuecas, ou no escritório, enquanto esperamos uma reunião com pessoas que não lavam o cabelo com a devida frequência. No escritório, estamos debaixo de luzes fluorescentes, agoniados pelo bolo alimentar do colega que mastiga a sandes de carne assada. Mas abrimos o Facebook e, de repente, estamos noutro lado, onde podemos partilhar um vídeo de Dean Martin a cantar “Sway”, e recriar um sentimento de copo de whisky na mão, smoking com o laço maltratado e a possibilidade de um romance que dure até de manhã. Não estamos sozinhos: somos generosos ao ponto de partilhar a banda sonora do nosso dia com os duzentos amigos da nossa rede social de internet. Também eles, ainda que por dois minutos, estão com vontade de deslizar pelo chão e cantar: “When marimbas rythms star to play dance with me make me sway”.
Para a maioria das pessoas a vida é como o Fernando: umas vezes a pé, outras vezes andando. Ou seja, aborrecida e conformada. Condição que se agrava se tivermos em conta que a maioria das pessoas não faz o que gosta: seja lamber envelopes ou usar máquinas de calcular para fechar balanços.
Como dizia Tom Wolf: “A realidade é um bom sítio para visitar mas eu não viveria lá”. Claro que Wolf se referia à realidade de lamber envelopes enquanto se vê telenovelas.
O facebook não tem as qualidades risonhas do Prozac, mas parece-me ser um estímulo para que as pessoas ponham a cabeça a funcionar (um bocadinho mais).
No facebook recuperou-se esse espírito de competição e vaidade (tudo coisas boas, já vão perceber) que tínhamos nas salas de aula – queremos ser engraçados, interessantes, atraentes. Queremos acreditar que temos alguma coisa para partilhar e que as nossas ideias ou gostos irão tocar os outros, melhorar-lhes o dia durante uns segundos.
O facebook faz-nos mais interessados e mais generosos – seja a partilha de uma notícia do Jakarta Post, uma petição para que os bares do Bairro Alto fechem depois da duas, uma canção da Likke Li (descobri-a no facebook através de uma amiga) ou uma frase do John Updike (esta usei-a eu): “Somos seres criadores, potentes e plásticos, o mundo na nossas mãos. Estamos a brincar com dinamite.” Ou outra, menos literariamente pretenciosa, de uma amiga, que melhorou a qualidade cómica do meu dia: “Tenho dois grandalhões a montar-me um armário em casa e estou razoavelmente agradada com a circunstância”.
O Facebook é o liceu, o bairro, a rua. O princípio é o mesmo: dar e receber informação e querer que os outros gostem de nós e do que temos para dizer. Trata-se da mesma alegria que sentíamos ao partilhar um disco novo, no recreio, ou o mesmo desassossego se conversávamos com a miúda de aparelho nos dentes que, embora de ançaime metálico temporário, continuava a dar cartas no campeonato de beleza do liceu. O facebook são os humanos a serem humanos.
Mas quando os humanos são humanos também mandam para a prisão quem afirma que a terra é que dá voltas ao sol. E é por isso que há uma certa sobranceria em relação ao facebook. Uma desconfiança – a mesma desconfiança que o meu pai tem em utilizar o multibanco; a mesma desconfiança que as pessoas da alta cultura (lol) têm quando olham para tudo o que esteja abaixo de Brecht e dos romancistas russos; a mesma desconfiança que se tem com as coisas novas que nos afectam a vida mas que ainda não conseguimos compreender muito bem.
E se houve gente que se assustou com moda da Bota Botilde, dos Tamagochis ou das camisas de cornucópias, é normal que se assuste com o facebook. Porque, como quase tudo na vida, o facebook também traz consigo lixo (se eu quisesse responder a questionários sobre qual é a minha cor preferida tinha ficado no infantário). O facebook é como as drogas: a sua natureza é boa ou má consoante a utilização que fazemos delas. Beatles = drogas = Penny Lane. Nicole Anne Smith = drogas = suicidio. Há quem passe dias na palheta no facebook deixando a produção do país na agonia dos calinas. Há quem tenha a capacidade para esgalhar um bom comentário em menos de cinco segundos e continuar com a sua vida. Eu tenho a sorte de ter amigos que dizem coisas de jeito, capazes de fabricar maravilhosos pensamentos incomuns sobre coisas comuns. Se há pessoas com amigos facebookianos que escrevem com a mão esmagadora das coisas chatas e vulgares, o problema não é meu.
Neste texto falo apenas do aspecto criativo e entretido do facebook, porque esta rede pode ser utilizada para trabalho, para consciencialização social e provavelmente para muitas outras coisas que valham a pena – como prova a campanha eleitoral de Barack Obama. Mas isso é uma história mais séria. Prefiro dizer que me divirto e que produzo no facebook. Uso-o como laboratório para outras coisas que escrevo. Invento frases. Exploro ideias. Descubro livros, música, notícias, o sentido de humor dos meus amigos.
Nunca falhei um compromisso de trabalho por causa do facebook. Nunca confundi o mundo real com as janelinhas de chat. Tenho amigos de carne e ossos lindos que me abraçam, saio para a rua (mais até do que devia), conheço pessoas novas (ao vivo) sem precisar de as adicionar no facebook. Continuo, imagine-se, a ler coisas em papel, a praticar relações de cama e a observar as pessoas na Praça do Rossio. O facebook ainda não me comeu as entranhas do cranio nem fez de mim um robôt ao serviço da vulgaridade.
O facebook é, afinal, como as sestas de quinze minutos aconselhadas pelos médicos. Fazem-nos bem, ajudam a revigorizar o corpo e potencializam a criatividade. Mas o facebook também é deliciosamente inútil, como são tantas vezes as conversas entre amigos, cara a cara, com risos sonoro e copos de amêndoa amarga com muito gelo e sumo de limão. Essa é a piada da leveza absurda das coisas, porque a vida é demasiado importante para se levar a sério. E mesmo que o facebook venha a ter o mesmo tempo de influência nas nossas vidas que teve a Bota Botilde, resta-me a alegria de, após ter convidado os meus amigos facebookianos a encontrar palavras lusitanas, fazer aqui um best off dessa recolha: biltre, gandim, sarrabulho, intigamente, ósdepois, vou cânhemãe ao médico dos pézes, regabofe, rambóia, tufunaste, biciclete, camionete, salxixa, espilrro, patife, catota, bardajona, moleirinha, catrapisca, torresmo, burrié, galhofa, curaçã, médico-da-caixa, sarrabeco, lambisgóia, sirigaita, rabiló, coninhas, panhonha e escanifobético.
E agora digam-me que o facebook não presta.
