segunda-feira, 18 de maio de 2009

Viagem no tempo


Hoje acordei e estava no século XVII: milhares de pessoas adoraram por estes dias um Cristo de betão inaugurado por um ditador. O presidente Cavaco estava lá a dizer que em alturas de crise é normal que as pessoas se virem para Jesus. Os católicos e os muçulmanos entraram hoje em pânico quando se falou de oferecer preservativos nas escolas. E os Globos de Ouro, de tão dolorosamente maus e provocadores de vergonha alheia, mais pareciam um casamento entre um interrogatório do Santo Ofício e uma sessão de teatro de revista com textos escritos por chimpanzés e interpretados por caniches em lantejoulas. O que vem a seguir? Escorbuto e fogueiras no pelourinho?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Portugal Meu Amor (i)



Para quem não viu ontem, aqui fica o primeiro episódio de Portugal Meu Amor. Repete na Sic Radical, sábado às 17h30 e domingos às 22h40. Para a semana estreia o episódio sobre as Celebridades.

Ps - percebi agora que falta o último minuto na versão online, desculpem, espero que isto se resolva em breve.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Primeiro Amor

"Portugal Meu Amor" no jornal i, com direito a novo trailer. O primeiro episódio estreia amanhã , 23h10: "Meia Bola e Força, um país futebolizado". Repete sábado, 17h30, e Domingo, 22h40. Na Sic Radical.

sábado, 9 de maio de 2009

So please be kind if I'm a mess


Troquem-se as palavras boys, sons e doll por girls, daughters e guy e tenho a certeza que esta canção é sobre mim.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lei da compensação


No mesmo dia abre em Portugal o maior centro comercial da Península Ibérica e sai para a rua um novo diário, o I, dirigido por um dos melhores jornalistas com quem trabalhei, Martim Avillez Figueiredo, e onde tenho alguns amigos. Num país onde a comunicação social se comporta com a lógica de um centro comercial, espero e acredito que o I seja mais que um reality show sobre a vida das celebridades ou uma lista desinteressante de notícias de agência.

Hoje nasce mais uma catedral ao nosso deslumbramento pelas montras das lojas e restaurantes franchizados. Mais do mesmo, mais do que tivemos nos últimos 20 anos. Mas hoje nasce também um jornal com ambições de explicar este mundo obeso no cérebro e vontade de estimular o exercício do mesmo.

O slogan do novo jornal: i num instante tudo muda. Esperemos que sim, mesmo que demore mais que um instante.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Lisboa, por vezes, é Havana


Mais do que uma vez me disseram que não se pode viver como na ficção. E apesar da insistência, continuo a acreditar nos atributos dramáticos da realidade como se fossem um estilo de vida.

Ainda hoje, por exemplo, quando cruzei a ondulação quente dos passeios, e os números digitais confirmavam o calor da noite, e a minha língua, citrina de cerveja mexicana e cigarros, pensou em beijos na boca.

Caminhava numa dessas ruas cujos únicos habitantes são árvores demasiado quietas por causa do calor, e percebi (não é a primeira vez) que Lisboa se transforma em Havana. Se não vejam: a electricidade estática de um noticiário televisivo a atravessar uma cozinha onde se faz o jantar, trazendo para a rua, além das novidades do mundo, o cheiro de pimentos e frango assado e uma manga a ser descascada.

Desci a rua e duas mulatas passeavam o cão. Uma delas, mais velha, tinha unhas cuidadas a vermelho e calças brancas, justas, cintadas, numa eficaz tentativa de suavizar as rugas atrás das hastes dos óculos. A mais nova bamboleava-se, segura da sensualidade do seu peso, que as revistas femininas condenariam mas que todos os dias inquieta os homens do bairro. Como o mulato casado, que lhe paga a conta da pastelaria e que gosta de afastar-lhe o cabelo, brilhante e mais negro pelo suor, que se cola no pescoço dela assim que passam do chão para a cama.

E depois os prédios arranhados por uma decadência que os turistas julgam charmosa, os fumos doces da gasolina, uma banda sonora de apenas alguns segundos sempre que passa um carro com todos os vidros em baixo. E cães que ladram na rua de trás, e miúdos que se desviam de um pára-choques para salvar uma bola, e a hipótese de que alguém nos convide para mais uma garrafa de cerveja.

Cheguei a casa, as janelas abertas como as tinha deixado de manhã. E mesmo assim a sala tem o peso do calor que esteve aqui o dia inteiro. Chá gelado e música na rádio. E agora, posso dizê-lo com toda a certeza, da minha janela posso ver o Malecon.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Portugal Multitask


Sempre me questionei sobre o espanto e o escândalo com que muitas pessoas escutam críticas a Portugal, como se as críticas, ou seja, a capacidade de analisar, pensar e elaborar uma opinião, fossem tão vis como a traição de Judas.

Não sinto que tenha alguma dívida por pagar ao meu país. Gosto muito de ser português, mas não tenho um orgulho especial em sê-lo, porque essa característica da minha personalidade e do meu passaporte apenas se deve ao facto de o meu pai e da minha mãe terem tido relações sexuais neste território. Nada de extraordinário, portanto.

Gosto de Portugal como gosto de melancia e da Praia Grande e da língua em que escrevo e da minha família: porque cresci com tudo isso e é normal que os afectos estejam no lugar onde crescemos. Se os meus pais tivessem imigrado para a Baviera de certeza que me emocionaria mais diante de uma salsicha. Sendo assim, prefiro carreirinhas e pernas de pau. Tudo isto para dizer que, gostando de Portugal, não me sinto como uma beata diante da irmã Lúcia. Portugal, meu amor, digo-te agora que não estás a salvo de apanhar.

Além disso, o argumento de que perdemos demasiado tempo na maldicência em vez de metermos as mãos na massa, não pega comigo. Primeiro, porque maldicência é coisa de porteiras que acham que a vizinha do 2ºEsq se anda a meter debaixo do rapaz da papelaria. E eu sei que quando aponto o dedo ao que está mal, não é porque o Cristiano Ronaldo falhou um penalti, mas porque me dei ao trabalho de perceber o problema e teria gosto em resolvê-lo.

Em segundo lugar porque eu ponho as mãos na massa todos os dias em vez de mandar bitaites na mesa do café enquanto vejo as notícias da TVI.

Há um tipo de discurso, cada vez mais usado pelos políticos, que se alimenta da própria crise para esconder a miséria mental do país. E, como tem sido hábito, a carneirada come o que lhe põem no prato e continua acreditar nesse novo mantra nacional: sejamos optimistas uma vez que não vale a pena estar sempre a dizer mal de tudo. Eu não sei se este argumento maravilha crianças de seis anos, mas claramente não me convence. O facto de eu ser optimista (que sou), não implica que não possa estudar, ponderar, apontar o dedo e, se preciso, até dizer, Foda-se, estou farto desta merda.

O optimismo não anula a crítica. Se há tanta coisa que está mal, não esperem que eu entre no rebanho do optimismo só porque faz dói dói ao país dizer mal dele. Portugal é, por acaso, uma adolecescente sensível com acne e cabelo oleoso?

Pensando bem, e considerando que podia ter nascido no Irão, talvez tenha uma dívida com Portugal: a liberdade para pensar, para poder sair daqui, para voltar, para falar mal, e até para disparar palavrões ofensivos contra os meus concidadãos e governantes. Mas, e aqui está o coração do problema, nada disso me impede de trabalhar todos os dias para que as coisas sejam melhores.

Não sou uma Bymbi, mas consigo fazer mais que uma coisa na minha vida.

Ps - o facto de ser português e de saber tão bem que padeço de certos males nacionais, e que sou muitas vezes protagonista deles, não me afasta da crítica, só a torna mais legítima.