sábado, 13 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Portugal Meu Amor

Ontem vi escrito, a tinta vermelha, na Praça da Figueira, "Vencemos outra vez, 64 por cento".
Portugal foi o país da UE com maior abstenção. E pelos vistos há quem se orgulhe disso.
Porque somos tão avessos a melhorar as coisas?
"Sim podemos?", hoje às 23h15, estreia o episódio sobre a política nacional, programa "Portugal Meu Amor", na Sic Radical.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Bailarico Eleitoral

Ontem, noite de eleições e alguma ressaca, percebi que a política em Portugal é mais ou menos como a festa antecipada dos santos populares que acontecia na minha rua, no Grupo Desportivo da Pena, com música de Quim Barreiros a abanar-me as paredes da casa e do cérebro.
Os discursos dos candidatos e dos líderes partidários foram tão inconsequentes como as letras da música pimba. Não vi nenhum líder falar da vergonhosa abstenção nem sequer da Europa - falar do que vão lá fazer, do que é preciso que façam. Não os ouvi ser clarividentes quanto aos nossos problemas e muito menos motivadores, ou objectivos, quanto àquilo que precisamos de fazer para sair da modorra mental e da leveza e conivência com que se trata a corrupção, os erros governativos, a mesquinhez do combate partidário. Os políticos ontem falaram uns para os outros e para si mesmos. Só faltou falarem de si na terceira pessoa.
Ouvi o primeiro-ministro usar a estratégia retórica de um treinador de futebol. Sócrates disse que este resultado não ia desmotivar o governo, e só ia fazer com que o executivo trabalhasse mais. Ainda bem que há eleições europeias para motivar os governos quase no fim da sua legislatuta. Já não há equipas pequenas. Todos os jogos são difíceis. Matematicamente ainda é possível ser campeão.
Houve ainda um detalhe que me revelou mais alguma coisa sobre o primeiro-ministro. Percebi que estava irritado e, como já demonstrou antes, tem a impaciência de um pai ao volante, com um filho desrespeitador no banco de trás; o pai que trava a fundo, que ergue as sobrancelhas, que grita na direcção do filho, libertando balas de cuspo entre as palavras. Ontem, usando a derrota como um casaco de fazenda que pica a nuca e os sovacos, e antes de responder às perguntas dos repórteres em sobressalto, Sócrates disse, inquieto, para não se aproximarem demasiado do púlpito nem subirem para o palco onde falava. E é assim que me parece que trata os portugueses: como o pai que tem a certeza do caminho, que quer chegar a horas (as suas horas) a um destino que talvez esteja errado mas que é o seu destino, e que diante de qualquer questão sobre a escolha da rota, diante do desassossego das crianças (nós) no banco traseiro do carro, se presta a largar um grito e a ameaçar com um castigo, se não mesmo com um calduço.
Outra coisa que me fez comparar a festa do Grupo Desportivo da Pena com a noite das eleições, foi a inclinação para os cânticos futebolísticos dos apoiantes dos partidos. Eu sei que, em Portugal, futebol e política se encontram tantas vezes na cama, e clandestinamente, como o marido casado que vai às putas. Mas há limites para a futebolização das nossas mentes. Na maioria das sedes dos partidos (com grande destaque para o coro de Santo Amaro da JSD), cantou-se e gritou-se como se duas equipas de liceu se enfrentassem na final do campeonato. Coisas como “Ninguém pára o Rangel”, “Manela vai em frente, tens aqui a tua gente” ou o fascinante exercício pedagógico, ao género da Rua Sésamo, de juntar uma letrinha a seguir a outra e a outra. “É Jota, é D, é JSD". Até os sofisticados esquerdistas, comedores de trufas e detentores da arrogância moral de quem acha que é sempre dono da verdade, agitavam bandeiras como se fossem adeptos do Leeds United e gritavam, com a criatividade dos contabilistas: “É bloco, é esquerda, é bloco de esquerda”.
Eu compreendo a alegria de vencer eleições, e ontem parece que houve imensos vencedores. Compreendo a festa, a agitação vocal e a vontade de cantar. Mas se os discursos tão frouxos e vazios forem constantemente interrompidos para gritar o nome do partido ou “Portugal, Portugal”, estamos a usar um penso rápido quando precisamos de um transplante. Os gritos e as bandeiras agitadas parecem-me cuidados paliativos (o palhaço que vai visitar as crianças com leucemia) em substituição da dolorosa cirurgia que realmente precisamos. No fundo, a noite de eleições pareceu-me o campeonato de karaoke amador no Grupo Desportivo da Pena. E deve ser por isso que ainda me sinto com ressaca.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Lambadas e números de telefone

(O Jornal de Letras desafiou-me a escrever sobre um dos meus professores. Fica aqui o resultado)
Isto eu não aprendi na escola: as memórias estão atarrachadas a sentimentos e emoções. Como tal, temos mais dificuldade em recordar números de telefone e recuperamos com rapidez uma melancia que comemos debaixo de um pinheiro, junto de uma praia com falésias e um avô que era perito em desmantelar a fruta enquanto assobiava fados do Alfredo Marceneiro.
Se me lembro da escola – um colégio católico de rapazes e uma universidade reaccionária e pública num palácio decadente –, lembro-me, por exemplo, de como S.G, professor de francês, contribuiu, com as suas mãos sempre prontas a disparar estalos, para que o meu domínio da língua gaulesa seja hoje qualquer coisa de insuficiente entre o Bon jour madame, un café, s'il vous plait, e o Je ne parle trés bien français, je suis desolé, mademoiselle. S.G. tinha regressado de África depois do 25 de Abril, e na sua postura esticada, nas suas falanges longas e castigadoras, vingava um qualquer ressentimento antigo, que se exprimia através do medo que impunha nas suas aulas.
S.G, director de turma, obrigava um aluno por dia a tomar conta do quadro: apagá-lo depois de cada aula e escrever, no lado esquerdo, a data e a lista de aulas desse dia. O “aluno do quadro” tinha ainda de deixar na secretária de S.G uma caneta vermelha e dois cadernos, forrados e colados, de forma a criar uma bolsa, entre os dois, onde se guardavam folhas de dossier (para exercícios) e folhas de teste (para os dias de terror). O primeiro caderno servia para os sumários de cada aula, escritos no quadro, e passados a limpo, em casa, a partir de uma sebenta que éramos obrigados a usar – S.G odiava que apagássemos ou riscássemos, tirando pontos percentuais dos testes por cada correcção ou tentativa de eliminar uma palavra com borracha para caneta. O segundo caderno era usado para os trabalhos de casa. S.G explicava a exigência da caneta vermelha assim: “Não vou gastar a minha tinta para vos corrigir”.
Os primeiros cinco minutos de aula assemelhavam-se a uma sessão de tortura pública do Santo Ofício: em vez do pelourinho o quadro, em vez de chicotes e archotes, a caneta vermelha e as palavras humilhadoras de S.G, essa ameaça constante de que um erro ortográfico, no quadro, valeria um puxão de orelhas a estalar as cartilagens. Tanto o judeu medieval como o aluno do 7º ano, turma D, tinham em comum o temor pela autoridade e a incapacidade de perceberem porque estavam a ser castigados.
Lembro-me de mais professores maus, tanto no colégio como na universidade, do que de professores bons (tão poucos). Fui percebendo que ser bom professor não significa ter um grande domínio da matéria dada, como acontecia com um catedrádito, na faculdade, que ditava de cor o seu livro – todo, em bocejantes aulas, às oito da manhã, em que não podíamos fazer perguntas. Estávamos em 1994. Comprendi que há demasiado docentes que não têm jeito algum para aquilo, como o professor que todos os anos repetia uma pergunta na frequência do primeiro semestre (O que é a Sociologia?), obrigando que a resposta fosse uma cópia, palavra a palavra, da definição que ele expusera no seu livro há décadas.
Para quem tem apetências criativas, o nosso ensino é como o pai que obriga o filho canhoto a escrever com a mão direita. Ser professor exige uma dedicação e uma vocação admiráveis. Não é o mesmo que ser caixa de supermercado, porque pede sentido de missão. S.G não tinha nada disto. Tinha ido parar ali por uma cambalhota improvável da vida, transportava ainda esse método de ensino “Mete-lhes medo e e bate-lhes quando se enganam”, acreditando que a disciplina austéra (uma mistura de Sazalar e Cardeal Cerejeira) criaria cidadãos impecáveis na aparência e lineares na cabeça.
Sempre que me encontro com os meus melhores amigos desse tempo, repetimos as histórias de S.G e rimos muito, algo que, se acontecesse na sua aula, valeria uma bofetada no focinho (“Ficas desenhado na parede, ouviste?”) e uma falta disciplinar. Não me lembro de cor de nenhum dos números de telefone desses meus amigos e, no entanto, lembro-me de tudo isto. E rio-me. Sem ressentimentos nem pulsão para a vingança, mon chéri monsieur S.G .
segunda-feira, 1 de junho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
Gajos & Paneleiros

(Texto publicado no jornal do Lux)
O rapazes que gostam de raparigas temem os rapazes que gostam de rapazes. E acham que as coisas de macho a sério são exclusivas dos heterossexuais. Mas tantas vezes os hetero são mais mariquinhas que os homo.
Hugo Gonçalves
Os homens hetero têm medo dos homens gay. Medo do contágio da outra orientação sexual, medo que pensem que são panascas. Um exemplo: eu e um dos meus irmãos, na fila do supermercado. Os dois sem barriga e com cara de quem usa creme depois de fazer a barba. Perante o olhar dos estranhos, um de nós disse: “Devem pensar que somos panilas.” Outro exemplo: há uns anos, em Nova Iorque, uma portuguesa cruzou-se comigo num restaurante, tínhamos amigos em comum, mas nessa noite nem falámos. Na segunda vez que estivemos frente-a-frente, e passámos ao jogo do álcool e da sedução nocturna, ela disse: “Pensei que fosses gay.” Eu, um pouco insultado, com as sobrancelhas a subir na testa, questionei: “Porquê?”. E ela, aliviada com a afirmação da minha heterossexualidade, pronta a esquecer as minhas escolhas de vestuário, respondeu: “Porque tinhas uma camisola de gola alta”. Um derradeiro e inesperado exemplo: estou a escrever este texto, agora mesmo, num café do Chiado. O empregado, estrangeiro, cabelo rapado e bicépes de pesos e halteres, inicia uma conversa comigo em inglês. Penso se será homossexual, analiso as suas intenções quando pergunta sobre o meu sotaque excessivamente americanizado. Desconfio. Mas será que a empregada atrás do balcão, de lábios cor de cereja e barriga desvendada, teve também esta pulsão de levantar a guarda quando tentei ser engraçado com ela, apenas há alguns minutos?
Aos gays, tenho de agradecer uma melhoria acentuada na minha sensibilidade: quando caminhei a primeira vez na Cristopher Street, em Nova Iorque, rua tão gay como as cuecas de António Variações, senti-me incomodado com a quantidade de homens que forçavam uma troca de olhares ou que analisavam a parte traseira dos meus jeans. Desde esse momento, fiquei mais sensível à paciência e desespero das mulheres, todos os dias, diante das abordagens masculinas – os piropos chapa cinco, a baba invisível, esse esgar facial de comia-te toda.
Desde pequeno aprendi que “Paneleiro do caralho” era um insulto eficaz entre heterossexuais. Fui criado num meio masculino em que a homossexualidade era uma aberração, uma fragilidade imperdoável, um motivo de exclusão – por tudo isto, chamar paneleiro a um hetero resultava (e ainda resulta) numa comum e poderosa forma de ataque. No meu colégio, um aluno novo, com gestos efeminados e pouco talento futebolístico, foi continuamente chamado de “Maricas” e gozado pela sua forma de andar. Tenho agora a certeza que lhe fizemos mal.
Em adulto comecei a conhecer gays, a trabalhar com eles, e tentei perceber o que assusta tanto os heterossexuais, o que os deixa como homens nus, em pânico, num campo de urtigas, se por acaso entram num bar gay, ainda que acompanhados de mulheres. Os hetero conhecem a natureza masculina. Por isso, suspeitam que a necessidade de levar alguém para a cama se agrava num ambiente exclusivo a homens. Pensam: tantos gajos juntos? Só pode acabar em festival da mangueira. Quando os heteros – como eu em Cristopher Street – se encontram na posição de zebras na savana, em vez de galifões no piso do meio da Kapital, perdem o peito feito, apertam um botão da camisa e sentem-se como a miúda de calções de ganga que tem de passar todos os dias por um prédio em construção.
Mas se os heteros receiam a alegada promiscuidade dos gays – porque a reconhecem em si próprios –, há também toda uma doutrinação anti-homossexual que leva anos a limpar dos cérebros. Ouvi mais que uma vez, mesmo que em tom de brincadeira, pessoas que diziam: “Antes um filho agarrado que um filho rabo.” Cresci com a obrigatoriedade adolescente de mostrar que era homem através de bebedeiras de black out, do gosto pela velocidade nas estradas e da contabilização das miúdas que tiravam a roupa e que iam até ao fim. Para muitos heteros ser homem é ser tudo isto. E ser gay é um atentado ao orgulho másculo. Como se apenas os heteros detivessem o monopólio da mudança de pneus ou das vitórias nas cenas de porrada. Não podemos esquecer que António Oliveira, ex-seleccionador nacional, afirmou que não há jogadores de futebol homossexuais. E que o avô de um amigo meu, coronel na reserva, dizia durante a nossa adolescência: “Todos os que parecem são e ainda há os que não parecem e são” – a ameaça, a conspiração, a peste, o medo lançado sobre nós como uma rede apertada a fim de nos manter no exército hetero.
No outro dia, no elevador da Glória, um turista belga e um brasileiro imigrante encontravam-se em estado de engate romântico. Procuravam, como acontece quando os intervenientes não dominam o mesmo idioma, coisas comuns para comunicar (“Gostou de visitar o Brasil?”), coisas entediantes para quem está de fora mas essenciais para quem quer meter-se dentro do lençóis. E eu, observador do engate, rapaz armado ao moderno, que já não precisa de dizer que tem um amigo gay para ser do grupo dos bons, que é a favor do casamento e da adopção por casais do mesmo sexo, que se está nas tintas para quem as pessoas comem, pus os auscultadores nas orelhas e apaguei o meu desconforto com música.
No filme “Rachel Getting Married”, que tem lugar no sofisticado, literário e rico estado norte-americano do Connecticut, não é a raça dos noivos (ele preto, ela branca) que tem qualquer importância dramática. Nesse Connecticut cinematográfico já se vivia num estado pós Obama mesmo antes de Obama ser presidente. Um preto e uma branca de mão dada fazem parte da casa. Não chocam. A raça deixou de ser relevante para a narrativa.
Quando saí do elevador da Glória e comecei a pensar neste texto, lamentei não ter alcançado ainda, na sua plenitude, um estado mental do género Connecticut, onde já não houvesse um passado com avós homofobos e boatos mesquinhos sobre o primeiro-ministro. Eu já deveria estar totalmente limpo dessa propaganda suja com que cresci, mas ainda não estou. Sobram recantos por varrer. Pensei ainda que muitos heteros vão pensar que este texto é tão panilas como a colecção integral de Will & Grace ou um broche a um desconhecido na casa de banho do Trumps. E isso, para ser sincero, não me importa mesmo nada: ser heterossexal não é uma benção, nem uma medalha, nem sequer a normalidade por tantos desejada. É apenas um acaso.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Contem-me uma história

Estou à procura de bloggers que tenham blogs de ficção ou que escrevam ficção, para um projecto editorial de contos que estou a coordenar e editar. Mandem-me os vossos blogs ou textos, caso estejam interessados, sem compromisso que sejam escolhidos, embora tenham sempre uma resposta. Hugogns@gmail.com.
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