sábado, 26 de setembro de 2009

Cold Turkey


Depois de tanta festa eleitoral, novelização da campanha e mexicanização da política, este dia de reflexão parece-me o fim das férias, a escova de dentes sem companhia na bancada da casa de banho, a ressaca da noite de coca. Ligo a televisão, abro os jornais e nada. Sinto-me sozinho e sem brinquedos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

E o burro sou eu?


É verdade que o Gato Fedorento pôs os políticos a responder num registo menos formal - o que não quer dizer (mesmo) um registo menos programado - e que pôs os portugueses a consumir mais política televisiva - o que não quer dizer (mesmo) que estejam mais politizados ou se tornem cidadãos mais preocupados com o estado da Pólis. Mas é bem melhor que uma parede a mandar pessoas vestidas de supositório prateado para a piscina.

Como uma mãe engenhosa diante do filho sem apetite, o Gato Fedorento envolveu as nabiças do jantar(que são os nosso políticos)numa camada de caramelo.


Mas por ter usado e abusado do Gato Fedorento com promoções e entrevistas de bastidores nos noticiários durante todo o dia, com a constante menção nas análises dos comentadores da casa, com perguntas destas a Jerónimo de Sousa, "Estava nervoso por ser entrevistado pelo Gato?", a Sic não percebeu que era tão susceptível de gozo como os políticos. O Gato escolheu focar-se na acção dos políticos, mas a comunicação social, Sic incluída, é parte da paródia.

E quando usa, nas suas peças de telejornal, imagens editadas e transmitidas pelo Gato, nas quais se confronta aquilo que os políticos dizem agora com aquilo que disseram no passado - técnica apurada no Daily Show de Jon Stewart -, está a reconhecer que foram precisos comediantes para fazer o trabalho dos jornalistas.

O mais estranho é que a Sic o faz com uma certa alegria e orgulho, não percebendo que também é o bobo da corte, parecendo o marido corno que convida para jantar quem lhe pôs o par de chifres na testa.

Boys will be boys


No final da tarde, no Chiado, dois adolescentes que faziam inquéritos de rua contemplavam as mulheres em desfile pela rua do Carmo. E falavam assim:

"Não gosto muito das mulheres cavalonas...
"Depende..."
"Sim, mas as cavalonas... Aquilo dá muito trabalho para pôr a carburar".

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

God complex ou Jesus tinha um trabalho fodido


E lá fui eu, atravessando o jardim com a gratidão de, ao princípio de uma tarde com calor, não estar num escritório entalado entre um menu sandes + bebida + salada de fruta e o brilho de um computador, feliz por estabelecer os meus horários, reparando nos alemães que preparam o Oktoberfest diante da sua embaixada, nos homens de cor de especiarias como jibóias cansadas com turbantes, nos ucranianos gordos, rodeados de patos e galos, no português que, para não manchar a roupa com riscos húmidos de relva, tinha posto um cartão por baixo do seu corpo deitado.

Lá fui eu pensando no que compraria para o almoço quando encontrei uma romena descalça, resplandecendo cansaço e a ferocidade do sol, prostrada no passeio, mesmo ao lado do Pingo Doce. Pensei perguntar-lhe se estava bem, mas segui caminho, desistindo da minha missão ocasional de justiceiro da cidade que discute com homens que mijam na rua e transeuntes que atiram papéis para o chão.

Mas entrei no supermercado e uma senhora velha estava encostada na parede, o seu bigode com esferas de suor, os olhos descaídos de basset hound, as mamas de matrona arfando por oxigénio. Por isso, tive mesmo de perguntar: “A senhora está bem?” E ela disse-me que não tinha tomado o comprimido para a tensão, que não aguentava o punho apertado do calor nas suas veias. Atravessei o supermercado, pedi um copo com água e açúcar na padaria, entreguei-o nas falanges que pareciam raízes de árvore da velha em aflição. Ela bebeu-o de uma só vez como se fosse um praticante do alcoolismo com a esperança de matar o delirium tremens matinal. E depois a surpresa, como se adivinhasse que eu tinha reparado na romena lá fora: “Que vergonha, já não basta a outra na rua. Sou cigana mas não sou da mesma raça, sou cigana mas o meu marido não é”, como se tentasse afastar o seu estado doente da condição mendiga da romena, como se temesse o meu juízo caucasiano. A verdade é que nem tinha percebido que a senhora velha era cigana – nenhuma roupa negra, nenhum lenço apertado entre o cabelo cinzento e o queixo, nem sequer um saco com roupas falsificadas ou qualquer outro lugar comum que definisse a sua tribo.

E enquanto metia fruta nos sacos pensei numa reportagem em que um transsexual no Irão – país com regime homófobo mas que patrocina operações de mudança de sexo – dizia que não gostava de homossexuais. Alguma coisa está mal encaixada no coração das pessoas quando, sendo diferentes da norma, não toleram a diferença dos outros.

Não consegui a mesma irritação diante da cigana em operação de auto-branqueamento racial que experimentei diante do transsexual persa. A cigana era demasiado real, a sua transpiração fria tornava as rugas mais vincadas, o seu pulso tremendo o copo de água estava ali, mesmo ali – o que terá passado por casar com um homem branco? Há quantos anos não fala com a família? Quantas bofetadas terá levado do pai de família ao anunciar a sua ousadia?

A senhora velha pôs-me a mão no ombro:

“O senhor é enfermeiro?”
“Não”.
“Mas preocupa-se com as pessoas.”

E as minhas cordas vocais ocas, um instrumento eléctrico sem amplificador, o meu pulso tremendo também, a urgência de ir entregar um copo de água gelada a uma romena descalça, que recebia o sol na cabeça como se fosse um telhado de zinco.

Mas ela já não estava lá.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

White Noise


Candidatos a deputados que são arguidos e que compram votos dentro do seu partido; pressões do governo a estações de televisão; alegadas escutas ao presidente da república, que, como sempre, se acha melhor que a política, um deus pairando acima dos fumos tóxicos dos partidos, e que por isso não comenta nada, não diz nada, não faz nada; um assessor do presidente (ex-director do Diário de Notícias) que terá dado pistas sobre o caso a um jornalista chegando a sugerir ângulos possíveis para a elaboração do artigo; repórteres que publicam emails de outros repórteres, emails esses que, segundo o director de um jornal, podem ter sido forjados e roubados pelos serviços secretos a pedido do governo.

O que é mentira? O que é verdade? O que é campanha eleitoral suja? O que é defeito de carácter? Mais que um país isto parece um romance do Grisham.

Nunca, como agora, o simbolismo do voto de cor branca fez tanto sentido para mim. Não é sequer um voto de protesto: é o duche de água a ferver depois da violação.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jornalismo para vender aspiradores


Em tempos julgo ter escrito que a revista Sábado está para o jornalismo como o wrestling está para o desporto. Mas hoje, vendo a capa da newsmagazine que tem um fascínio pelas celebridades só comparável a uma adolescente americana, percebi que havia outra comparação possível - a Sábado está para o jornalismo como o Dan Brown está para a literatura.

Esta semana, a capa da revista anuncia: "O poder oculto da maçonaria é o novo livro de Dan Brown - os factos históricos que inspiraram o autor do Código da Vinci".

O melhor atributo de Dan Brown não é a qualidade literária mas a capacidade de usar truques para prender o leitor da mesma maneira que as batatas fritas de pacote têm aquele produto artificial (como se chama?) que nos faz querer mais e mais. Dan Brown pode não ser um excelente escritor, mas é um óptimo vendedor da banha da cobra.

Sempre me espantou que as pessoas acreditassem nas suas revelações históricas como descobertas irrefutáveis e determinantes - claro que Jesus andou a rebolar no feno com Maria Madalena e deixou prole que, ao longo dos séculos, acabou na Europa, no entanto, a ideia nem sequer é original, vários investigadores e escritores já tinham trabalhado nessa narrativa antes de Brown. O que me choca aqui não é a fornicação do filho de deus, mas a forma como tanto o autor, como muitos dos seus leitores, assume essa informação como factual, científica e decisiva para a humanidade, mais ou menos como dizer que Abraão viveu até aos 800 anos ou que Jonas esteve dentro da barriga de uma baleia durante dias ou que depois de rebentar com uma embaixada americana o terrorista receberá um autocarro de virgens no céu.

Num artigo de 2006 do El País, o jornal espanhol desancava o primeiro livro de Dan Brown, "Fortaleza Digital", não por causa da sua qualidade literária mas pelo medíocre trabalho de investigação e desprezo por coisas tão simples como datas. Não se pode querer fazer doutrina com a fornicação de Cristo e apelidar os romances de "históricos" se depois se escreve ficção científica. Dan Brown é a versão em livro daquele estranho produto norte-americano para barrar no pão "I can't believe it's not butter" - um sucedâneo da manteiga, que não é realmente manteiga, mas que diz ser melhor que a manteiga.

É claro que um autor que se tornou num fenómeno de vendas e de leitura na praia e no metro, merece cobertura jornalística quando lança o seu novo livro. Pode até merecer primeira página. Mas a Sábado usa exactamente a mesma estratégia de Brown para se vender e vangloriar. E, na capa, parece oferecer-nos o caminho secreto para o mundo obscuro da maçonaria, as revelações mais inesperadas, aquilo que você nunca soube mas que mudará o curso do universo. A Sábado é a mulher de barba no circo de rua medieval. A Sábado faz cockteasing - a little less conversation a little more action please.

Onde é que quero chegar? Aqui: é cómico que, numa semana de campanha eleitoral, a menos de duas semanas de eleições legislativas, a revista traga uma história sobre a compra de votos no PSD, que envolve dois candidatos a deputados, e escolha fazer capa com os segredos de Dan Brown.

Não é jornalismo, é venda de aspiradores, num ringue de wrestling, com a oferta de um pacote de I can't believe it's not butter.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A menina do cabelo amarelo


Nesta memória, uma das primeiras que guardo, havia o calor das férias grandes e estava sentado na mesa dos adultos. Pus-me de pé, em cima da cadeira, pronto para anunciar uma descoberta que mudaria a minha vida. Baixei os calções de banho, apontei para a minha pilinha de pré-primária e anunciei à família o assombroso mecanismo mutante que era o meu corpo: “Está tão grande”.

Não me lembro de ser repreendido – é possível que alguém tenha dito “Veste-te e vai dormir a sesta" –, mas tenho quase a certeza que o meu alegre espanto diante de tamanha descoberta tirou o tapete debaixo dos pés da minha audiência. O meu avô, o único autorizado a inaugurar melões e melancias, como se fosse o xamã da tribo prestes a degolar o cabrito, deve ter mantido a lâmina em suspenso, afinal, eu tinha tirado a pila das cuecas, a meio de uma refeição, e anunciado com orgulho que ela tinha mudado de tamanho. E isso não cabe na cabeça regulamentada de um adulto.

Hoje, não sou praticante do exibicionismo genital durante as refeições, mas lamento já não ter a destreza de me estar a cagar para a lógica certinha das pessoas grandes. Pensei nisto quando vi a menina de cabelo amarelo, sentada na relva, a chamar um cão de “babau”, a apontar para ele e a olhar para a mãe como se dissesse “Acreditas nisto? Não é possível? É um cão. Um cão!”. Nesse momento, a menina de cabelo amarelo tinha feito uma descoberta mais importante que a internet, a penicilina ou o Macdrive.

A menina do cabelo amarelo abraçou o cão pelo pescoço e, assim que ele começou a lamber-lhe a cara e as orelhas, ela cedeu ao ataque de cócegas, dando gargalhadas, de boca aberta e cabeça tombada para trás – nenhum sentido de ridículo, nenhuma preocupação com o protocolo, apenas a resposta intuitiva ao prazer.

Logo de seguida, com a mesma indiferença ao código de conduta com que, há quase 30 anos, eu puxei o elástico dos calções até aos joelhos, a menina de cabelo amarelo começou a lamber o cão. O que fez todo o sentido – mesmo quando ela se virou para a mãe, mostrando a sua mini língua cor de rosa coberta de pêlos de labrador. Se um cão pode lamber uma pessoa porque não pode uma pessoa lamber um cão?

O especialista em criatividade Ken Robinson, conta que um professor perguntou a uma criança de quatro anos o que estava ela a desenhar. A menina respondeu que estava a fazer um retrato de deus. O adulto tentou cortar o barato infantil: “Mas ninguém sabe como é deus.” A menina pô-lo na ordem: “Já vais saber quando eu acabar o desenho”.

O comediante Jon Stewart explicou que o seu filho dança de alegria só porque reconhece alguma coisa na rua – sempre que vê um cão no passeio, tira a xuxa e aponta para o bicho dizendo: “dog”. Stewart também disse que aquilo que assusta os pais é já saber o final da história, ou seja, saber que a vida – que por vezes se parece com a esquina de um móvel pronta para o dedo mais pequeno do pé – acabará por retirar aos nossos filhos a felicidade de lamber um cão ou, tão só, de serem capazes de identificá-lo na rua – dog!

Os adultos sabem como a história acaba – primeiro passamos por essa fase transitória chamada adolescência, em que nos parecemos com moscas a embater contra o vidro até que alguém nos abre a janela e nos encontramos, por fim, na idade adulta. E é então que precisamos de comprimidos, álcool, carros, 300 canais de televisão, sexo com prostitutas, saltos de pára-quedas e filhos a fim de superar o aborrecimento da repetição, a fim de aliviar o peso das coisas que parecem cada vez mais difíceis de solucionar. Os adultos conhecem o final da história e, por isso, junto das crianças, costumam ser tão temerosos dessas esquinas destruidoras de pés, tão protectores, tão inibidores da criatividade – “Isso não é para brincar, não se diz assim, ninguém sabe como é deus.”

No passado domingo, a menina de cabelo amarelo queria ver os patos bebés num jardim de Lisboa, embora os animais estivessem por trás da cerca. Primeiro hesitei. Um adulto responsável respeita os avisos, não invade a propriedade. Mas os patinhos, disse ela, eram amarelos como o seu cabelo. E foi então que lhe peguei ao colo, saltei a cerca e a levei até junto da família de patos flutuantes.

No banco de jardim, um velho cuja boca, por falta de incisivos, teria servido para arrancar caricas, disse logo, apontando para os patos: “Esses já cá não estão amanhã, as gaivotas dão cabo deles”.

Ao contrário do velho, prefiro não me preocupar com o final da história. E é por isso que, desrespeitando todas as regras de bom gosto literário, e repetindo a ousadia do gesto de baixar os calções, me preparo para escrever algo que jamais imaginei escrever:

Xi coração.

Menina do cabelo amarelo, gosto muito quando me dás um xi coração.