
E lá fui eu, atravessando o jardim com a gratidão de, ao princípio de uma tarde com calor, não estar num escritório entalado entre um menu sandes + bebida + salada de fruta e o brilho de um computador, feliz por estabelecer os meus horários, reparando nos alemães que preparam o Oktoberfest diante da sua embaixada, nos homens de cor de especiarias como jibóias cansadas com turbantes, nos ucranianos gordos, rodeados de patos e galos, no português que, para não manchar a roupa com riscos húmidos de relva, tinha posto um cartão por baixo do seu corpo deitado.
Lá fui eu pensando no que compraria para o almoço quando encontrei uma romena descalça, resplandecendo cansaço e a ferocidade do sol, prostrada no passeio, mesmo ao lado do Pingo Doce. Pensei perguntar-lhe se estava bem, mas segui caminho, desistindo da minha missão ocasional de justiceiro da cidade que discute com homens que mijam na rua e transeuntes que atiram papéis para o chão.
Mas entrei no supermercado e uma senhora velha estava encostada na parede, o seu bigode com esferas de suor, os olhos descaídos de basset hound, as mamas de matrona arfando por oxigénio. Por isso, tive mesmo de perguntar: “A senhora está bem?” E ela disse-me que não tinha tomado o comprimido para a tensão, que não aguentava o punho apertado do calor nas suas veias. Atravessei o supermercado, pedi um copo com água e açúcar na padaria, entreguei-o nas falanges que pareciam raízes de árvore da velha em aflição. Ela bebeu-o de uma só vez como se fosse um praticante do alcoolismo com a esperança de matar o delirium tremens matinal. E depois a surpresa, como se adivinhasse que eu tinha reparado na romena lá fora: “Que vergonha, já não basta a outra na rua. Sou cigana mas não sou da mesma raça, sou cigana mas o meu marido não é”, como se tentasse afastar o seu estado doente da condição mendiga da romena, como se temesse o meu juízo caucasiano. A verdade é que nem tinha percebido que a senhora velha era cigana – nenhuma roupa negra, nenhum lenço apertado entre o cabelo cinzento e o queixo, nem sequer um saco com roupas falsificadas ou qualquer outro lugar comum que definisse a sua tribo.
E enquanto metia fruta nos sacos pensei numa reportagem em que um transsexual no Irão – país com regime homófobo mas que patrocina operações de mudança de sexo – dizia que não gostava de homossexuais. Alguma coisa está mal encaixada no coração das pessoas quando, sendo diferentes da norma, não toleram a diferença dos outros.
Não consegui a mesma irritação diante da cigana em operação de auto-branqueamento racial que experimentei diante do transsexual persa. A cigana era demasiado real, a sua transpiração fria tornava as rugas mais vincadas, o seu pulso tremendo o copo de água estava ali, mesmo ali – o que terá passado por casar com um homem branco? Há quantos anos não fala com a família? Quantas bofetadas terá levado do pai de família ao anunciar a sua ousadia?
A senhora velha pôs-me a mão no ombro:
“O senhor é enfermeiro?”
“Não”.
“Mas preocupa-se com as pessoas.”
E as minhas cordas vocais ocas, um instrumento eléctrico sem amplificador, o meu pulso tremendo também, a urgência de ir entregar um copo de água gelada a uma romena descalça, que recebia o sol na cabeça como se fosse um telhado de zinco.
Mas ela já não estava lá.