
O guionista, vestido como guionista – jeans, camisa preta, casaco preto – passa por trás dos fotógrafos e ao lado da passadeira vermelha (e vazia) no cinema São Jorge. Os flashs esperam por Soraia Chaves e os restantes membros do elenco. Tiago Santos, guionista do filme “A Bela e o Paparazzo”, está mais preocupado em saber se os pais têm lugar para ver a ante-estreia do filme que escreveu para o realizador António Pedro Vasconcelos. Tiago, com quem partilhei uma casa em Nova Iorque, podia ser o detective de um romance negro – silencioso, ácido, reservado. Pergunto-lhe se tem dado muitas entrevistas. Parece que não. E quando as revistas cor-de-rosa se interessam por ele, costumam perguntar-lhe pela vida romântica. Se abre a boca, alguma coisa vai abaixo: “Vou perguntar-lhes se também querem saber se sou circuncidado”.
Estamos no bar de um restaurante, antes da première, e o que conseguimos de mais glamouroso são os dry martinis em cima do balcão. Depois, alguém julga ver um finalista do Ídolos. Tiago, que escreveu um filme sobre a fama, diz: “Só escrevia telenovelas se tivesse que suportar um vício de heroína, jogo e prostitutas”. Ser guionista de cinema em Portugal é mais ou menos como ser a equipa jamaicana de bobsled.
No filme, a personagem de Soraia Chaves cita uma peça de Tchekov: “Percebi que, no nosso trabalho, o que é importante não é fama, nem glória, nem nada do que eu sonhava - o que é importante é conseguir aguentar.” Well, Mr Screenwriter: it beats working.



