sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Muda de Vida


Crónica do dia no jornal i

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Extra! Extra!


Crónica de estreia no jornal i, aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

i num instante tudo muda


Todos os dias, a partir de 5ª Feira, vou escrever uma crónica aqui

Sound Track

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

a poesia dos outros também é minha


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carta


Querida Rosa,

Sei que chego tarde com esta carta e que a nossa correspondência se interrompeu há anos. Sei também que a última vez que estive em sua casa havia bolos e chá e scones. Eu estava a preparar-me para ir para outro país e a Rosa teve a atenção de convidar os seus netos para me falarem da cidade onde eu iria viver. O seu marido Joaquim estava lá, rodeado de móveis antigos e contando histórias sobre o Cardoso Pires e sobre a PIDE. Apesar dessas histórias do passado, a única coisa escura e antiga na sua casa eram mesmo os móveis da sala de jantar - a Rosa e o Joaquim espantavam-me: como podiam duas pessoas nascidas há tantos anos perceber as minhas inquietações existenciais de pós-adolescente, como podiam ouvir tão bem, como podiam perdoar a minha certeza de saber tudo sobre o mundo quando ainda me faltava aprender tanto?

Conheci-a, se bem se lembra, durante a entrega de um prémio de poesia na minha faculdade. Lembro-me que me disse que, ao ler os meus poemas, me imaginara vestido de preto, com barba e uma apetência para a misantropia. Isso, deu-me uma certa felicidade, uma vez que era a prova que os escritores, afinal, podiam usar camisas às riscas e sapatos de vela. Eu era um universitário pateta, produto inacabado da betice obsoleta da Linha, deslumbrado com as possibilidades da poesia: as pessoas gostariam de mim pelo génio da minha escrita e as miúdas da faculdade despiriam a roupa ao ritmo dos meus sonetos. Eu, confesso, queria ser o David Mourão Ferreira, por isso, quando me disse que fora amiga do poeta de "Música de Cama", cansei-a, tenho a certeza, com perguntas que nem uma groupie dos Rolling Stones teria coragem de fazer.

Depois comecei a ir a sua casa, a trocar cartas metidas em envelopes gordos, cheios das minhas primeiras tentativas na prosa. Em sua casa, recebia-me sempre com comida que acabara de cozinhar. Recebia-me tão bem. Sentados nos sofás, durante a tarde inteira, falávamos muito e hoje, se pudesse, falaria menos e escutaria mais. Era um miúdo, sabe, um rapaz que acreditava que a escrita limparia o lixo do mundo e que precisava de ser validado pelas suas palavras, um miúdo a quem fazia falta o seu cuidado na execução do bolo de laranja e a sua paciência para os relatos das minhas desventuras românticas.

Lamento nunca lhe ter dito que agora compreendo tudo muito melhor, que percebo que a Rosa não estava ali apenas para me dizer que eu seria escritor.

Por exemplo, se voltasse a sua casa, dir-lhe-ia que sempre que escrevo o código postal da minha morada, num envelope, me lembro do seu código postal da Calçada dos Barbadinhos. É um exercício de memória, uma vez que os códigos são parecidos. Se falasse agora consigo, em vez de escrever esta carta, diria que nunca percebi as pessoas que diziam que a Rosa é uma mulher muito bonita para a sua idade. É uma mulher bonita, ponto. Sei que se a Rosa tivesse nascido em Itália teria filmado na Cinecittà, tanto na década de 50 como agora. A Rosa é muito bonita. E caso eu estivesse agora com a chávena de chá na mão, escutando as suas ideias para o próximo livro, diria que me fascina o amor que põe em tudo o que faz, que aprendi muito com o aprumo delicado com que escreve e pronuncia todas as palavras, como um músico que toca por intuição, que já não precisa de ler a pauta.

Junto de si nunca me senti ridículo, nem julgado, nem vítima da condescendência dos mais velhos. Podia escrever-lhe agora sobre os livros que li, sobre coisas que quero escrever ou perguntar-lhe qual a história do seu próximo romance. Não, prefiro dizer que, se hoje não sou apenas aquele miúdo formatado num colégio mui católico e masculino, se já não sou tão bruto no tom e rapazola no peito insuflado de certezas, devo-o muito a si.

Consigo, Rosa, aprendi a aceitar mais pacificamente a ternura e percebi o maravilhoso dom da elegância das mulheres. Em sua casa, recebido pelos braços do Joaquim e pela sua paciência graciosa, eu nunca fui um estranho. Hoje, que penso que gostaria de ter filhos em vez de andar a incendiar o próprio corpo pelo planeta, penso também que gostaria que os meus filhos fossem lanchar a sua casa.

Mas também lhe agradeço a irreverência subversiva, como se lançasse cocktail molotovs com luvas Hermès. Sei que foi sempre dona da sua vontade, mesmo num país machista e provinciano, que pouco se importou com a opinião dos outros e que acreditava que uma coisa é a classe e outra é uma sociedade de classes.

Vimo-nos a última vez na feira do livro. E talvez o escritor encontrasse aqui o sentido para toda esta narrativa, para o ponto em que as nossas vidas se cruzaram - afinal, foi por causa dos livros que nos conhecemos. Sim, é verdade. Mas hoje a literatura não me interessa nada. O que tenho para lhe dizer não encontra forma - nenhum poema, nenhum livro, nem sequer esta carta -, o que tenho para lhe dizer chega atrasado. Se morremos para que a vida seja importante, então, sim, faz todo o sentido: a sua vida foi importante para mim. E sei que se entrasse esta tarde em sua casa, não precisava de dizer nada, nem pedir desculpa pelo meu silêncio, nem explicar por onde andei. Sentar-me-ia a comer o bolo de laranja e ficaria calado. Juro-lhe que ficaria calado. Tão calado como ficámos os dois quando descobriu que a minha mãe também se chamou Rosa.

Tenho saudades, um beijo,

Hugo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sugus


Em tempos, julgo que numa entrevista, o escritor António Lobos Antunes usou vocabulário de advogado quando disse: "As infâncias são retroactivamente felizes". Foi nesta frase que pensei, na fila do supermercado, ao ver as embalagens de sugus. Tirando o espisódio do ferro de engomar a queimar-me a perna (acidental) ou a tareia que os ciganos da Alapraia me deram (provocada), a minha infância foi de t-shirts do super-homem, gelados do Santini, tardes de bicicleta e 7Up no frigorífico, bebida nas noites de verão, quando a casa dormia e ninguém castigaria a minha insolência higiénica - beber directamente da garrafa de vidro de litro e meio.

Quando são questionados sobre a última refeição que gostariam de comer antes de ir desta para pior, a maioria dos chefes de cozinha costuma apontar algum prato da sua infância. Não é de estranhar, portanto, que os sugus estejam, para mim, associados a essa felicidade retroactiva.

Mas, desde os tempos do Naranjito e dos calquitos de animais, algo mudou - o mundo e os sugus. Hoje, o pacote de sugus foi, certamente, definido por inúmeros estudos de mercado: o pacote é de abertura fácil, traz sugus de vários sabores e os sugus já não têm aquele papel branco, impossível de tirar, e que tantas vezes foi digerido pelo meu estomâgo.

Numa era em que desesperamos se a página de internet demora dois segundos a abrir, num tempo em que domesticamos a solidão, na paragem de autocarro, a mandar sms, numa vida em que o Blackberry nos avisa, e nos agita, sempre que recebemos mais um email, os sugus adaptaram-se a estas novas pulsões humanas pela facilidade, rapidez e diversidade. São mais fáceis de abrir, têm cores - pelo menos o de limão é amarelo - e, tendo diferentes sabores, satisfazem a nossa frustração da mesma forma que a tv ligada, o facebook aberto e uma sms a apitar no telemóvel satisfazem o nosso aborrecimento.

A verdade é que os sugus que comprei (já comi todos) parecem-me mais artificiais que aqueles com que me debatia, no banco de trás do carro, cuspindo pedaços de papel branco que não conseguia arrancar do sugu preso entre os meus dedos peganhentos de saliva e açúcar

Os sugus de agora, acreditem, são mais ou menos como um one night stand sob o efeito de drogas: coloridos, fáceis de consumir, contêm produtos químicos, comem-se todos de uma vez, satisfazem uma necessidade imediata e não precisam de empenho - descascar um sugo aos 6 anos era tão difícil como abrir um soutien aos 16, hoje, nenhuma das tarefas apresenta grandes obstáculos.

Enfim, as coisas são mais fáceis, o que não quer dizer que tenham o mesmo sabor. Hoje, percebo muito melhor os ensinamentos do mister Miyagi ao Karate Kid: "Wax on, wax off" - há um caminho de paciência para as coisas bem feitas, e nem sempre o caminho mais fácil, sem o papel branco, é o melhor.