segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


Macho Men

Uma das consequências da liberdade é aceitar que a liberdade dos outros nos pode deixar presos no trânsito, a admirar, pela janela, a explicação de um polícia – “É a marcha contra os gays” – e milhares de opositores ao casamento homossexual descendo Lisboa. Na manifestação, estranhei os balões cor de rosa e o hino disco sound das Supreme: “We are family”. Um bocadinho gay, não? Mas os manifestantes também tinham terços, bíblias e t-shirts com Jesus, porque a religião sempre quis controlar a sexualidade. Sei que a Bíblia, escrita quando se julgava que um terramoto era um castigo de Deus, condena a sodomia como condena comer porco e marisco – a religião é, tantas vezes, a superstição em forma de lei. Outra superstição: pensar que, caso os gays se casem, as famílias tradicionais deixarão os sapatos de vela e a missa de Domingo para correr em fio dental e plumas pelo país. Os heterossexuais têm medo do contágio gay. Ser homem a sério é ser lixado para a porrada e insultar os condutores adversários no trânsito. (Más notícias para os homens a sério: imperadores militaristas do Império Romano, um capitão da selecção de rugby de Gales e até Marlon Brando dormiram com homens.) Os gays podem vir a casar-se, mas os manifestantes tiveram uma vitória: no tempo que estive preso entre carros impacientes, a testosterona tomou conta do meu corpo e o ponteiro das rotações da minha heterossexualidade quase partiu o motor. Deus estará orgulhoso de mim – e de Jesus (do Benfica), que proibiu os jogadores de usar collants em Berlim. Homens a sério não usam roupa justa.

Nota: esta será, pelo menos por agora, a última crónica no jornal i disponível online. De hoje em diante só em papel. Vá, comprem o jornal, não tenham medo da tinta nos dedos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i



Deusa Oprah

John Mayer cresceu branco. O seu melhor amigo era um mulato – o tenista James Blake. Por causa do blues, música negra, Mayer trabalhou numa bomba de gasolina para comprar uma guitarra. O nome da sua primeira banda era Villanova Junction, uma canção de Jimi Hendrix. Já gravou com B.B King e Kanye West e disse: “O hip-hop é hoje o que o rock costumava ser.” Numa recente entrevista na Playboy, comentou-se que Mayer tinha um “hood pass”, que significa fazer parte da comunidade negra. Ele respondeu: “Não posso ter um ‘hood pass’ porque não sei o que é entrar num restaurante e dizerem-nos: Estamos cheios”. Mayer referia-se ao tempo em que segregavam os negros nos restaurantes. Mas Mayer também disse, nessa Playboy, “nigger pass” – nigger é uma palavra altamente insultuosa se dita por brancos. Percebi melhor a palavra, quando, nos Estados Unidos, uma vizinha negra me contou que, aos cinco anos, uma adulta branca lhe cuspiu na cara. Nigger é a escravatura, os homicídios do Ku Klux Klan, é o cuspo adulto na cara de uma criança. Mayer, que é americano, sabe isso melhor que eu. Perante o ultraje da comunicação social, pediu perdão. Mas já se fala de mais um pedido de desculpas, no programa da Oprah. Se Mayer precisa de ajoelhar-se para a audiência de Oprah, a mesma que exultou quando Tom Cruise saltou em cima do sofá do programa como uma atracção de circo, se Mayer precisa mesmo da limpeza espiritual da televisão de massas, se um lapso linguístico vale mais que uma história de vida, então, é melhor largar o blues e candidatar-se aos Il Divo.

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i


Brasiú

O Carnaval acabou. Já posso falar do Brasil sem referir bundas que tremem samba no frio da Mealhada. Também não me interessa o ultraje com Maitê Proença ou a arrogância civilizacional de acharmos que os brasileiros são todos futebolistas, prostitutas ou malandros. Não esqueço, claro, a pobreza, a insegurança, a corrupção no Brasil, mas sei que o país vive um momento único, como ilustrou a capa da “Economist”, com o Cristo carioca a levantar voo como um foguetão: “Brazil takes off”. Hoje interessa-me mais uma conversa, numa festa em Lisboa, entre brasileiros, e o seu entusiasmo ao falar do Brasil: “Os próximos 40 anos serão extraordinários. Não é apenas a economia, é um estado de espírito”. Tentei responder, alcoolicamente, com o Euro 2004 – um mês de euforia que acabou numa final perdida e estádios mumificados. Sei que não é a mesma coisa, e tive de reconhecer que, em toda a minha vida, nunca senti que os portugueses tivessem o mesmo entusiasmo, com Portugal, que os brasileiros mostram hoje pelo seu país. Senti inveja. Foram precisas as palavras do jornalista brasileiro Zuenir Ventura para perceber o meu engano: “Inveja é querer que outro não tenha, cobiça é querer o que não se tem”. Então, sofro de cobiça. Quero esse estado de espírito, sabendo que o melhor de Portugal passará também pelo Brasil – pela sua esperança, pelo seu vigor, pela sua criatividade. Em tempos, Saramago corrigiu um brasileiro, dizendo-lhe: “A língua é minha, o sotaque é seu” Estou-me nas tintas para o sotaque. Porque, senhor Saramago, não se trata do passado. Trata-se do futuro.

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i


Ídolos

Paul Schrader tinha dívidas, era viciado em pornografia e vivia no carro. Hospitalizado por causa de uma úlcera, teve uma ideia: “Percebi que não falava com ninguém há semanas. Flutuava sozinho pela cidade.” Essa ideia originou o filme “Taxi Driver”, com Robert De Niro, cujo argumento, de Schrader, foi nomeado para um Globo de Ouro. Todos os grandes prémios de cinema – Oscars, Cannes, Berlim – celebram os argumentistas, mesmo os que gostam de pornografia. Recentemente, a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e a RTP inovaram na entrega dos seus prémios televisionados. Perguntei a José Jorge Letria, da SPA, por que razão uma sociedade de autores tinha premiado actores tendo-se esquecido dos argumentistas. Letria disse: “O rosto visível da obra, mais que os autores, são os intérpretes, a ideia de premiar o actor corresponde a um desejo da RTP de ver os intérpretes ter o seu espaço”. Ou seja, para uma televisão pública e uma sociedade de autores, as caras conhecidas valem mais (nas audiências e nas revistas) que as boas histórias e os degenerados que as escrevem. Pergunto: sem as palavras de Schrader teria De Niro sido capaz de ser o protagonista de “Taxi Driver”? Eu, que até ganho a vida a escrever, confesso que preferia ir a uma gala com Scarlett Johansson e deixar Schrader no carro – acontece que eu não sou uma associação que se propõe representar os autores. Uma sugestão para os guionistas: casem com uma actriz, como fez Schrader, e serão convidados para entregas de prémios. Ser autor para quê? O que interessa é aparecer na televisão.

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


O pugilista

Os comentadores parecem concordar numa coisa: a resiliência de José Sócrates que, entre tanta pancada, parece não ir ao tapete. Muitos escritores tentaram explicar como o boxe é uma metáfora da vida. Sou apenas mais um deles. Em 1967, após ter trocado aquele que considerava ser o seu nome de escravo (Cassius Clay) por Muhammad Ali, o campeão do mundo ouviu as provocações do adversário: Terrell chamou-o sempre de Cassius Clay antes do combate. Já no ringue, um despeitado e inclemente Muhammad Ali perguntou, entre socos, uma e outra vez: “Qual é o meu nome?” – mais que a resposta certa, Muhammad Ali queria prolongar a punição durante 15 assaltos. Outro pugilista, Roberto Durán, foi várias vezes campeão mundial, conseguiu 70 vitórias por KO e ficou com a alcunha “Manos de Piedra” – após mandar um adversário para o hospital, disse: “Para a próxima mato-te.” Mas, em 1980, Durán, que parecia feito de granito, ficou para a história do boxe, deixando a audiência tão boquiaberta como um paciente no dentista. Castigado pelo adversário durante oito assaltos, virou costas e disse apenas: “No más”. John Shulian escreveu sobre o abandono de Durán a meio do combate: “O seu momento de vergonha duraria uma vida.” Já Terrel perdeu de outra maneira: aos pontos, humilhado pelo campeão mundial, mas chegou ao último assalto sem dar o braço a torcer. Durán e Terrel: se o boxe é mesmo uma metáfora da vida, qual deles será José Sócrates?

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i


Love Story

O amor globalizado é isto: Hirsi Ali, nascida na Somália, foge da Holanda, ameaçada por islamitas radicais, e apaixona-se, em Nova Iorque, por um famoso professor escocês. No entanto, o académico é casado com a ex-directora do tablóide conservador britânico Sunday Express. Em 1992, Hirsi Ali escapou de um matrimónio arranjado pela família, pediu asilo na Holanda e, depois de ter sido empregada de limpeza chegou a deputada. Disse que, após muito pensar, teve uma epifania por causa do vinho: “Porque deverei arder no inferno por beber isto? Mas o que me alertou foi que os assassinos do 11 de Setembro acreditavam no mesmo Deus que eu.” Hirsi Ali escreveu o argumento do filme “Submission”, no qual mulheres muçulmanas, com versos do Corão escritos no corpo, relatam abusos. O realizador, Theo van Gogh, foi assassinado por um muçulmano e Ali vive nos EUA com protecção. O amante escocês, Niall Ferguson, enfrenta agora um mediático divórcio com Susan Douglas – Ferguson ganha 6 milhões de libras ao ano e Douglas será candidata pelo Partido Conservador. O Sunday Express esfrega as mãos: o tablóide moralista/voyeurista adora capas com as infidelidades dos famosos e, há dias, titulava: “Mais de 1,3 milhões de imigrantes com emprego após primeiro-ministro prometer empregos britânicos para os britânicos.” Imagino o título do Express: “Escocês trai loira conservadora com negra feminista e imigrante.” Ferguson sabe que as palavras com que descreveu as suas aparições televisivas também servem para a exploração do amor nos tablóides: “É como estar nu na rua”.


Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Crónica de segunda-feira no jornal i


Babilónia Suburbana

Os polegares de Pedro Matias conheceram a fama porque bateram um recorde do Guiness: teclaram um sms de 264 caracteres em um minuto e 59 segundos. Matias foi celebrado pela televisão com a mesma euforia pacóvia com que perguntam a Tom Cruise – a promover um filme – se visita Portugal e se gosta de bacalhau assado. Lembrei-me de Matias durante uma investida pelo centro comercial Babilónia, na Amadora – concelho destruído pela construção selvagem e criminosa de prédios com marquises, e que apresenta a maior densidade populacional do país: 7241 habitantes/km². Mal entrei no Babilónia, pareceu-me ouvir: “Os anos 80 ligaram e querem o seu centro comercial de volta”. Mas algo mudou desde a inauguração, em 85: o centro tem agora 30 lojas de telemóveis (a sério). E Matias faz parte do grupo de jovens (15-34 anos) em que a taxa de penetração do serviço móvel é de 99 por cento. Os sms substituíram o Spectrum 48k e o Bate Pé. Não é grave. Sou tecnologicamente liberal. Mas nessa mesma tarde, escutei o socialista Candal, no debate do Orçamento de Estado, falar exageradamente de um país tecnológico. Candal enganou-se. Nem sempre a tecnologia é progresso: muito do furor lusitâno com recordes de sms, telemóveis, plasmas ou carros topo de gama, é uma prova de que somos o estranho caso do país pobre com pulsões de novo rico. Os recordes das árvores de Natal gigantes e dos centros comerciais monstruosos não significam sempre progresso – são apenas um penso rápido para um ego doente que precisa, afinal, de um transplante de coração.


Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas no jornal i)