domingo, 28 de fevereiro de 2010

Deus, Pátria, Televisão


Neste domingo, ao final da manhã, a RTP, televisão do Estado, transmitia a missa do Colégio Militar - fardas e cabelos curtos nos rapazes e dourados na batina do padre. No fim, cantou-se o hino nacional. Grandes planos da bandeira. Por momentos, pensei: estou naquele episódio da Twilight Zone em que o protagonista acorda no passado. Má sorte ter-me calhado 1961.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Romancistas


Vem aí mais um workshop de escrita para romance, comigo e com o João Tordo. Podem saber mais aqui.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Counter Punch


Bruno de Almeida faz filmes. Conta histórias - como me contava quando eu lhe servia cafés num restaurante quase a cair para o Rio Hudson. Quando soube que o protagonista do meu segundo romance seria um pugilista, falou-me de boxe, de livros e filmes para a minha pesquisa e, claro, contou-me histórias. Como a de Bobby Cassidy, que se transformou num filme. O Bruno viveu 20 anos em Nova Iorque e veio para Lisboa porque a cidade se estava a tornar, segundo ele, numa versão caramelizada, disneyficada, sex&cityzada, infantilmente endinheirada daquilo que fora. Um tempo em que, a urgência estilizada de saber quais os melhores e mais caros apple martinis em Manhattan é um atributo sem o qual não se pode sobreviver.

Noutros tempos, entrei num mercado, com o Bruno, ao amanhecer, após uma festa, para que ele pudesse cozinhar uma massa puttanesca, no seu apartamento, em honra das amigas que acabáramos de conhecer. Lembro-me dessa noite porque tem uma boa história (para outro momento) e porque dancei numa rua de TriBeCa a olhar para a luz, ainda fresca, matinal, que o Empire State reflectia sobre a ilha. Tudo tão cartão postal alcoolizado, que ficou bem registado no arquivo pessoal de imagens. O Bruno fez este filme com três mil euros. Cojones, digo eu. Vão ver ao cinema rapidamente. Já não vai estar muito mais tempo nas salas.

Blood as simple as a good story



Vale a pena ler este texto, do Tiago Santos, guionista e rapaz que partilhou comigo, noutra cidade, uma casa e um ofício de empregado de mesa. Good Times. Mas estamos em Lisboa e, com os novelos empoeirados e cheios de nós amargos que são, muitas vezes, os textos de cinema, fazem falta histórias assim. Por outras palavras: right on, bitch.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


Uma ilha

O mais perto que estive da Madeira de hoje aconteceu há dez anos, durante os dias de chuva que arrancaram as casas dos morros que rodeiam Caracas, forçando carros, hotéis, bairros, famílias inteiras, toneladas de lama, num punho demasiado apertado. Uma emigrante madeirense, descalça sobre os destroços, falou para o meu bloco de notas. Nesses dias, morreram mais de dez mil pessoas, algumas delas tinham emigrado da Madeira. Ontem, na televisão, outra madeirense falou para um microfone, no Funchal. Tinha estado nas duas tragédias: na Madeira e em Caracas. Lembrei-me, por isso, do homem deitado na cama de um centro de acolhimento de Caracas, tão velho que não sabia a idade, a sua mão apertando a minha, contando como perdera toda a família e queria regressar ao Funchal. Nesse momento, a minha mão livre não procurou o bloco de notas. Quem escreve sobre o que aconteceu em Caracas ou na Madeira fica sempre aquém: há uma debilidade que não nos abandona o pulso e que não nos permite encher toda a tinta das palavras. Mas também há o consolo do ensinamento do jornalista Ferreira Fernandes, que me disse: “Quando as histórias são grandes, as palavras são pequenas.” Na Venezuela, falei com um homem enlameado, que transportava um frigorífico – não tinha mais nada. Disse-me: “Adelante amigo, buena suerte”, como se as suas costas, carregando o frigorífico, fossem já a reconstrução de tudo. Gostava que esse venezuelano lançasse agora essas palavras sobre os madeirenses. Palavras pequenas, curtas, cheias, tão fundamentais como as suas costas carregando o frigorífico.

Nota: por causa do tema desta crónica, resolvi prolongar mais um dia as crónicas do jornal i neste blog.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


Macho Men

Uma das consequências da liberdade é aceitar que a liberdade dos outros nos pode deixar presos no trânsito, a admirar, pela janela, a explicação de um polícia – “É a marcha contra os gays” – e milhares de opositores ao casamento homossexual descendo Lisboa. Na manifestação, estranhei os balões cor de rosa e o hino disco sound das Supreme: “We are family”. Um bocadinho gay, não? Mas os manifestantes também tinham terços, bíblias e t-shirts com Jesus, porque a religião sempre quis controlar a sexualidade. Sei que a Bíblia, escrita quando se julgava que um terramoto era um castigo de Deus, condena a sodomia como condena comer porco e marisco – a religião é, tantas vezes, a superstição em forma de lei. Outra superstição: pensar que, caso os gays se casem, as famílias tradicionais deixarão os sapatos de vela e a missa de Domingo para correr em fio dental e plumas pelo país. Os heterossexuais têm medo do contágio gay. Ser homem a sério é ser lixado para a porrada e insultar os condutores adversários no trânsito. (Más notícias para os homens a sério: imperadores militaristas do Império Romano, um capitão da selecção de rugby de Gales e até Marlon Brando dormiram com homens.) Os gays podem vir a casar-se, mas os manifestantes tiveram uma vitória: no tempo que estive preso entre carros impacientes, a testosterona tomou conta do meu corpo e o ponteiro das rotações da minha heterossexualidade quase partiu o motor. Deus estará orgulhoso de mim – e de Jesus (do Benfica), que proibiu os jogadores de usar collants em Berlim. Homens a sério não usam roupa justa.

Nota: esta será, pelo menos por agora, a última crónica no jornal i disponível online. De hoje em diante só em papel. Vá, comprem o jornal, não tenham medo da tinta nos dedos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i



Deusa Oprah

John Mayer cresceu branco. O seu melhor amigo era um mulato – o tenista James Blake. Por causa do blues, música negra, Mayer trabalhou numa bomba de gasolina para comprar uma guitarra. O nome da sua primeira banda era Villanova Junction, uma canção de Jimi Hendrix. Já gravou com B.B King e Kanye West e disse: “O hip-hop é hoje o que o rock costumava ser.” Numa recente entrevista na Playboy, comentou-se que Mayer tinha um “hood pass”, que significa fazer parte da comunidade negra. Ele respondeu: “Não posso ter um ‘hood pass’ porque não sei o que é entrar num restaurante e dizerem-nos: Estamos cheios”. Mayer referia-se ao tempo em que segregavam os negros nos restaurantes. Mas Mayer também disse, nessa Playboy, “nigger pass” – nigger é uma palavra altamente insultuosa se dita por brancos. Percebi melhor a palavra, quando, nos Estados Unidos, uma vizinha negra me contou que, aos cinco anos, uma adulta branca lhe cuspiu na cara. Nigger é a escravatura, os homicídios do Ku Klux Klan, é o cuspo adulto na cara de uma criança. Mayer, que é americano, sabe isso melhor que eu. Perante o ultraje da comunicação social, pediu perdão. Mas já se fala de mais um pedido de desculpas, no programa da Oprah. Se Mayer precisa de ajoelhar-se para a audiência de Oprah, a mesma que exultou quando Tom Cruise saltou em cima do sofá do programa como uma atracção de circo, se Mayer precisa mesmo da limpeza espiritual da televisão de massas, se um lapso linguístico vale mais que uma história de vida, então, é melhor largar o blues e candidatar-se aos Il Divo.

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i