sábado, 6 de março de 2010

Crónica de sexta-feira no jornal i


Previously, on Lost

Manuela Moura Guedes disse, na Comissão Parlamentar de Ética, que José Sócrates ligou ao rei de Espanha a pedir a suspensão do “Jornal de Sexta”. O rei de Espanha, Juan Carlos, é amigo do presidente português, Cavaco Silva, cujo assessor, Fernando Lima, terá acusado os homens de Sócrates de escutar a presidência. O primeiro-ministro, que foi escutado, negou ter falado com Rui Pedro Soares, da PT, sobre o negócio da compra da TVI. Rui Pedro Soares pediu uma providência cautelar para impedir a publicação de escutas telefónicas no semanário Sol. Essas escutas foram retiradas do caso Face Oculta, no qual Armando Vara é arguido. Vara foi ministro de um governo do PS, partido que recebeu o apoio de Luís Figo nas últimas eleições legislativas. No mesmo dia que Figo apoiou publicamente os socialistas, tomando o pequeno-almoço com José Sócrates, assinou um contrato para promover o Tagus Park, contrato que acabou por ser cancelado, recentemente, por Isaltino Morais, presidente da câmara de Oeiras e antigo militante do PSD, que ganhou as eleições autárquicas ao mesmo tempo que era arguido num processo em tribunal. Exactamente aquilo que aconteceu a Valentim Loureiro que, nas escutas do processo Apito Dourado, disse a Pinto da Costa: “Enfim, é preciso algum folclore nesta merda”.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Deus, Pátria, Televisão


Neste domingo, ao final da manhã, a RTP, televisão do Estado, transmitia a missa do Colégio Militar - fardas e cabelos curtos nos rapazes e dourados na batina do padre. No fim, cantou-se o hino nacional. Grandes planos da bandeira. Por momentos, pensei: estou naquele episódio da Twilight Zone em que o protagonista acorda no passado. Má sorte ter-me calhado 1961.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Romancistas


Vem aí mais um workshop de escrita para romance, comigo e com o João Tordo. Podem saber mais aqui.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Counter Punch


Bruno de Almeida faz filmes. Conta histórias - como me contava quando eu lhe servia cafés num restaurante quase a cair para o Rio Hudson. Quando soube que o protagonista do meu segundo romance seria um pugilista, falou-me de boxe, de livros e filmes para a minha pesquisa e, claro, contou-me histórias. Como a de Bobby Cassidy, que se transformou num filme. O Bruno viveu 20 anos em Nova Iorque e veio para Lisboa porque a cidade se estava a tornar, segundo ele, numa versão caramelizada, disneyficada, sex&cityzada, infantilmente endinheirada daquilo que fora. Um tempo em que, a urgência estilizada de saber quais os melhores e mais caros apple martinis em Manhattan é um atributo sem o qual não se pode sobreviver.

Noutros tempos, entrei num mercado, com o Bruno, ao amanhecer, após uma festa, para que ele pudesse cozinhar uma massa puttanesca, no seu apartamento, em honra das amigas que acabáramos de conhecer. Lembro-me dessa noite porque tem uma boa história (para outro momento) e porque dancei numa rua de TriBeCa a olhar para a luz, ainda fresca, matinal, que o Empire State reflectia sobre a ilha. Tudo tão cartão postal alcoolizado, que ficou bem registado no arquivo pessoal de imagens. O Bruno fez este filme com três mil euros. Cojones, digo eu. Vão ver ao cinema rapidamente. Já não vai estar muito mais tempo nas salas.

Blood as simple as a good story



Vale a pena ler este texto, do Tiago Santos, guionista e rapaz que partilhou comigo, noutra cidade, uma casa e um ofício de empregado de mesa. Good Times. Mas estamos em Lisboa e, com os novelos empoeirados e cheios de nós amargos que são, muitas vezes, os textos de cinema, fazem falta histórias assim. Por outras palavras: right on, bitch.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


Uma ilha

O mais perto que estive da Madeira de hoje aconteceu há dez anos, durante os dias de chuva que arrancaram as casas dos morros que rodeiam Caracas, forçando carros, hotéis, bairros, famílias inteiras, toneladas de lama, num punho demasiado apertado. Uma emigrante madeirense, descalça sobre os destroços, falou para o meu bloco de notas. Nesses dias, morreram mais de dez mil pessoas, algumas delas tinham emigrado da Madeira. Ontem, na televisão, outra madeirense falou para um microfone, no Funchal. Tinha estado nas duas tragédias: na Madeira e em Caracas. Lembrei-me, por isso, do homem deitado na cama de um centro de acolhimento de Caracas, tão velho que não sabia a idade, a sua mão apertando a minha, contando como perdera toda a família e queria regressar ao Funchal. Nesse momento, a minha mão livre não procurou o bloco de notas. Quem escreve sobre o que aconteceu em Caracas ou na Madeira fica sempre aquém: há uma debilidade que não nos abandona o pulso e que não nos permite encher toda a tinta das palavras. Mas também há o consolo do ensinamento do jornalista Ferreira Fernandes, que me disse: “Quando as histórias são grandes, as palavras são pequenas.” Na Venezuela, falei com um homem enlameado, que transportava um frigorífico – não tinha mais nada. Disse-me: “Adelante amigo, buena suerte”, como se as suas costas, carregando o frigorífico, fossem já a reconstrução de tudo. Gostava que esse venezuelano lançasse agora essas palavras sobre os madeirenses. Palavras pequenas, curtas, cheias, tão fundamentais como as suas costas carregando o frigorífico.

Nota: por causa do tema desta crónica, resolvi prolongar mais um dia as crónicas do jornal i neste blog.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


Macho Men

Uma das consequências da liberdade é aceitar que a liberdade dos outros nos pode deixar presos no trânsito, a admirar, pela janela, a explicação de um polícia – “É a marcha contra os gays” – e milhares de opositores ao casamento homossexual descendo Lisboa. Na manifestação, estranhei os balões cor de rosa e o hino disco sound das Supreme: “We are family”. Um bocadinho gay, não? Mas os manifestantes também tinham terços, bíblias e t-shirts com Jesus, porque a religião sempre quis controlar a sexualidade. Sei que a Bíblia, escrita quando se julgava que um terramoto era um castigo de Deus, condena a sodomia como condena comer porco e marisco – a religião é, tantas vezes, a superstição em forma de lei. Outra superstição: pensar que, caso os gays se casem, as famílias tradicionais deixarão os sapatos de vela e a missa de Domingo para correr em fio dental e plumas pelo país. Os heterossexuais têm medo do contágio gay. Ser homem a sério é ser lixado para a porrada e insultar os condutores adversários no trânsito. (Más notícias para os homens a sério: imperadores militaristas do Império Romano, um capitão da selecção de rugby de Gales e até Marlon Brando dormiram com homens.) Os gays podem vir a casar-se, mas os manifestantes tiveram uma vitória: no tempo que estive preso entre carros impacientes, a testosterona tomou conta do meu corpo e o ponteiro das rotações da minha heterossexualidade quase partiu o motor. Deus estará orgulhoso de mim – e de Jesus (do Benfica), que proibiu os jogadores de usar collants em Berlim. Homens a sério não usam roupa justa.

Nota: esta será, pelo menos por agora, a última crónica no jornal i disponível online. De hoje em diante só em papel. Vá, comprem o jornal, não tenham medo da tinta nos dedos.