segunda-feira, 10 de maio de 2010

Crónicas no jornal i


Os outros

Estás tão aborrecido como a sala de espera de um médico de família e aguardas que o mundo lá fora te resgate. Chove, no entanto, sentas-te na esplanada, protegido pelos chapéus, como quem deseja algo extraordinário. Já devias saber que isso nem sempre acontece. Tens sorte porque um mendigo raçudo discute com o empregado e atira-lhe a caixa dos guardanapos (tinham-te avisado que o serviço de mesa era lento). Parou de chover e está uma francesa gira a olhar para ti. O mendigo regressa. Desta vez, um negro que inclina a cabeça para o lado como os polícias duros nos filmes, trata de o pôr na ordem. Temes que este seja o ponto mais alto do dia até porque a francesa queixa-se do frio e abandona a mesa com aquela que, suspeitas, seja a namorada. Os guarda-chuvas abrem-se de novo e observas aqueles que passam: adolescentes em visita de estudo com a ressaca de tantas horas sem messenger, homens que, em vez de sobremesa, pediram whisky no fim do almoço, bichas tão estilizadas como a capa da “Wall Paper”. Ninguém te salva do tédio. Olhas para o lado e uma mulher parece-te mais velha por causa do colar de pérolas. Lês, por cima do seu ombro, na revista que tem no colo, o que disse a namorada de Pinto da Costa: “Amar como eu te amo só uma vez na vida.” Por esta altura, também já devias saber que os outros nem sempre chegam para nos entreter. O músico de rua canta: “I cry my way to be free”. Estás sem paciência para revolucionários ou gente piegas. Levantas-te. Fazes-te à rua. Talvez um dia aceites que a vida não é como a ficção.

À beira de um ataque de nervos

Nós, os portugueses, andamos tensos como um condutor parado no trânsito. E isso nota-se todos os dias. Um ministro fez corninhos no parlamento, o primeiro-ministro disse, a um deputado, “Manso é a tua tia, pá”, outro deputado surripiou dois gravadores de jornalistas como a rapidez de um carteirista da carreira 28. Até Figo, o herói nacional da coxa larga e da finta curta, foi mencionado em investigações criminais. Mesmo sem saber muito bem o que faz uma agência de rating, sentimo-nos inseguros com o que elas acham de nós. Há desemprego, cortes orçamentais, as férias de verão em Monte Gordo estão em risco. O Benfica não há meio de ser campeão e os portugueses começam a parecer-se com a personagem de Michael Douglas em “Um dia de raiva” – só precisam de um pequeno pretexto para gritar com o marido, dar um chega para lá no cão, perder as estribeiras com a rapariga do telemarketing. Falta um mês para a sessão de terapia colectiva que será o mundial de futebol. Estamos de mau humor. Só nos vale, por agora, a festa do Papa. Felizmente, a comunicação social percebeu as nossas necessidades e alimenta-nos com o helicóptero do Papa, os peregrinos bem dispostos a caminho do Papa, as hóstias do Papa, as tapeçarias que irão enfeitar a varanda do Papa. Uma das artesãs dos tapetes explicou como, ao contrário dos políticos, o Santo Padre motiva a pátria e estimula a produtividade: “Tenho orgulho porque estou a trabalhar para o Papa. Procuro fazer o meu melhor.” Nem Aníbal, nem Manuel, nem Fernando. Bento a presidente.

What the fuck?

Pearl Carter tinha 18 anos quando deu a filha para adopção. Casou-se em segundas núpcias e jamais engravidou. Procurou a filha durante 15 anos. Nunca a encontrou. Phil Bailey que, tal como Pearl, vive no Indiana, nos EUA, perdeu a mãe para um cancro. Começou então a procurar a avó materna. Conseguiu descobrir a sua morada e enviou-lhe uma carta. Depois, uma foto por email. Pearl, a avó surpresa, disse que em vez de encontrar o neto, nessa fotografia, ficou em estado de alerta: “Pensei que era um homem bonito e atraente.” O impulso de Pearl foi validado por uma amiga a quem confessou a atracção. Essa amiga baseou-se num artigo sobre a atracção genética, para explicar a Pearl que familiares que se conhecem já em adultos podem sentir uma incomum apetecência para acabar na cama. Pearl confirmou: “Desde a primeira vez que o vi, sabia que nunca íamos ter uma relação entre avó e neto”. Pela primera vez, em muitos anos, senti-me sexualmente viva”. Encontraram-se, sairam e Phil, agora com 26 anos, manisfestou o mesmo interesse. Estão juntos há quatro anos e contrataram uma barriga de aluguer para ter um filho. Pearl, que tem 74 anos, investiu 54 mil dólares das suas poupanças para pagar a Roxanne Campbell, que carregará um óvulo de uma doadora fecundado por Phil. Pearl disse: “Não me interessa a opinião de ninguém. Estou apaixonada pelo Phil e ele apaixonado por mim. Em breve teremos um filho.” Scott Fitzgerald estava enganado quando disse que não havia segundos actos nas vidas dos americanos.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Crónicas no jornal i


Por fim, o calor

Na terça-feira soubemos que fazia calor porque havia vestidos curtos, cabelos apanhados, nucas despidas e muito mais roupa a secar nos estendais. Sentia-se a levitação do fogo ao cruzar uma passadeira. Três cães no passeio tinham a língua ao lado no focinho, as lojas com ar condicionado eram porto seguro e o grupo de espanhóis no eléctrico transpirava como se estivesse na parte “Sol” de uma praça de touros. Ligaram-me a dizer: “Vou para a praia. E está um gajo a tomar banho no lago do parque.” A cidade estava mais vazia, tão preguiçosa como a hora depois do almoço, lânguida como sexo a meio da tarde. Mas também irriquieta: os miúdos da rua sem t-shirts, desafiantes nas bicicletas. Um rapaz com mais piercings que acne justificou a sua insuficiência tecnológica diante do grupo: “Este é da minha avó, que é que queres pá, não tenho telemóvel.” Outro, de rosário cor de rosa no peito sem pêlos, tinha a namorada pela mão. Nestas noites janta-se com as janelas abertas. Na televisão falavam da greve e das muitas pessoas que foram para a praia. Greve de transportes no primeiro dia de calor? Trinta e um graus e comboios parados? É como anunciar às crianças que é o primeiro dia das férias grandes e que haverá aviões a lançar brinquedos no areal. Quando faz calor a matéria torna-se maior, mais pesada, a música melhora, a noite demora tanto a chegar que ainda se ouvem gaivotas quando os talheres já se escutam nos pratos de jantar. Quando faz calor desta maneira só podem contar connosco para qualquer coisa que implique sentir o calor.

Retrato de Rapariga

Ela era empregada de mesa, loira, e por baixo do avental tinha uma camisola do Pablo Aimar. Duas penas vermelhas como brincos, os ténis confortáveis para suportar tantas horas em pé. Pareceu-me mais bonita assim que os clientes do bar dos artistas, no Coliseu dos Recreios, lhe deram um pouco de descanso. Sentou-se numa das mesas, tirou um cigarro e ficou a fumar, concentrada no jogo como se tivesse esperado o dia inteiro para estar ali. Com o golo do Porto voltou a distribuir copos de cerveja. Depois desapareceu. E o bar passou a ser o homem que fumava cigarros da marca Benfica – ofereceu-me um – e que martelava furiosamente as pernas no chão, nervoso como uma bola saltitona: “Nem olho pá, eu nem olho.” O Benfica empatou, era campeão, por isso ela apareceu a sorrir. Mais bonita ainda. Por pouco tempo. O Porto voltou a marcar, duas vezes, e ela manteve-se de pé, com a gravidade de uma criança amuada, distraída dos pedidos. Se por acaso o jogo parava numa falta aborrecida, ela punha-se a apanhar os copos vazios das mesas, tentando acelerar o fim de um domingo sem glória. Talvez fosse da luz, dos tectos baixos ou do fumo acumulado, mas começou a parecer-me menos bonita, com a pele oleosa e olheiras de quem precisa de uma folga. Despedi-me, a caminho do concerto, dizendo-lhe: “Tens um copo de plástico para a minha imperial?” A última vez que a vi, estava a contar as moedas da caixa registadora. Um amigo reparou na minha caneta a escrever no bloco de notas e disse: “Essa vai ser uma crónica triste.” Tinha toda a razão.

Dear miss Winehouse

Quando me contaram que tinhas sido internada outra vez, imaginei-te com um cachimbo de crack e um copo de gin, envolta numa nuvem cocainómana. Depois soube que tinha sido apenas um tropeção que resultou num corte acima do olho e num problema com as tuas novas mamas de cirurgia plástica. Não te escrevo como amigo (não nos conhecemos), nem como paizinho, aliás, dizes na canção “Rehab” que se o teu pai acha que estás bem não precisas de ser internada. Eu até concordo com o comediante Bill Hicks, que disse: “As drogas já nos deram muitas coisas boas. Se não acreditam, peguem nos vossos cds e queimem-nos, porque as pessoas que fizeram essas grandes músicas, que melhoraram as vossas vidas, estavam bastante drogadas.” Nem sequer estou preocupado que os miúdos se ponham a fumar cocaína por causa de ti – as pessoas não precisam de ídolos para se drogar, drogam-se porque querem. Mas fico aflito sempre que vejo que a droga raptou um ser humano e o substituiu por um farrapo de gente – acredita em mim, morreu-me um tio por causa da heroína. Não te peço que deixes para todo o sempre o copo de Tanqueray e alguma maluqueira tóxica. Mas ouve as palavras de outro comediante, George Carlin, cujo génio sobreviveu aos excessos: “As drogas podem ser maravilhosas, mas à medida que as consumimos, a parte do prazer diminui e aumenta a dor. Passa a ser apenas dor.” O que te quero dizer é: põe-te boa dessas costelas doridas e termina o disco que começaste a gravar. Depois, sim, podes festejar. Estraga-te um bocadinho mas, por favor, não te estragues para sempre.

Gostosa, safada, cantada

Há uns meses, uma amiga brasileira perguntou-me porque não conseguia encontrar uma canção portuguesa com “gajo”, afinal, uma palavra tão usada neste país. Consegui descobrir uma música dos Ena Pá 2000 com “gajo”, mas a pergunta da minha amiga mostrou como dois povos, que falam a mesma língua, enlaçam de forma diferente letra e música. Esta semana, na Casa Fernando Pessoa, vi o documentário brasileiro “Palavra (En)cantada”, e ouvi o guionista, Marcio Debellian, explicar como se viciou em Fernando Pessoa depois de ouvir Maria Bethânia cantar o poeta do bigode tímido. Na tela vi Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Lenine, Caetano Veloso, Tom Zé e tantos outros que conseguiram, com ginga, excelência e usando a música, transportar a história oral para a literatura – uma literatura cantada, sem salamaleques, vénias, comendadores, punhos de renda ou cintos de castidade. Nas músicas brasileiras as pessoas “transam” e chegam a comer-se: “Vamos comer Caetano, degluti-lo, mastigá-lo, vamos lamber a língua”, diz uma canção de Calcanhotto. No documentário, percebe-se como 500 anos de promiscuidade racial e miscigenação linguística resultaram em coisas como a Bossa Nova. Mas o filme é muito mais que um relato histórico que viaja dos trovadores provençais até aos rappers cariocas. Está cheio de palavras gostosas, cantadas, safadas, malandras, incondicionalmente enamoradas – Lenine diz que se lhe parte o coração sempre que ouve os ditongos nasais – “ão” e “ãe” – exclusivos do português. E eu digo: obrigado, Brasil, por me dares tanta fome de língua.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Um poeta brasileiro, Ramon Mello, que me fez regressar aos poemas














BÊBADOS

toma porre de
música vinho
acorda com

verdades entaladas
na garganta
cheiro de fumaça

porre se confunde
com ressaca dói
a cabeça

LIBIDO TROPICALISTA

caetano
excita a língua
uma espécie de tesão
intelectual

ROMANCE B

não prometi amor
perfeito eterno apenas
uma trepada na noite
de sábado goza veste
a roupa e vai
embora

OFF

por que carregar mil
e quinhentas músicas
no bolso se você não
escuta meus lamentos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Crónica no jornal i


Haverá sangue?

No restaurante Tigelinha, em Lisboa, cabe muito de Portugal: a televisão está sempre ligada nas notícias ou no futebol, os homens enfrascam-se ao almoço e comentam o país com frases batidas mas reveladoras daquilo que somos: “Fugir aos impostos não é crime, é legítima defesa.” Há uma semelhança entre os comensais do Tigelinha, que dizem agir em legítima defesa e o resto dos portugueses, os políticos, os dirigentes de futebol, os procuradores, os jornalistas, os empresários, os banqueiros ou aqueles que estacionam em segunda fila. A verdade é que o progresso de uma sociedade não se mede apenas pelo número de canais de televisão, mede-se também pela forma como a sociedade, e não apenas a justiça, lida com a sua malandragem – e não falo só de enganar o IRS. Nós, os portugueses, costumamos ser coniventes, encolhemos os ombros, agimos em “legítima defesa”.Uma personagem do filme “O Padrinho” diz que, por vezes, é preciso uma guerra para acabar com o sangue mau e começar de novo. Não precisamos de uma guerra, mas, num país onde a impunidade se transformou em folclore, faz falta que vejamos, em directo e pela televisão, uma pena de prisão efectiva e algemas nos pulsos dos trafulhas que empatam o país. Faz-nos muita falta essa imagem da queda de um gigante. Não se trata de populismo, a sério, trata-se apenas da necessidade de sobreviver ao sangue mau, trata-se de começarmos a ter vergonha na cara. Se os sinos dobrarem, finalmente, por eles, talvez nos demos conta que também podem dobrar por nós.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mais crónicas no jornal i


Menino do Rio

Não tinha sequer pensado em escrever-te, ando cansado de ti e do teu humor de merda em tantas tardes de chuva. Ia escrever sobre o aniversário da descoberta do Brasil ou sobre os cariocas que graffitaram a estátua do Cristo. Mas depois saí de casa por causa do sol e comprei um cornetto e, juro-te, há sempre miúdos com uma bola na minha rua. Hoje, finalmente, a bola fugiu para os meus pés e dei dois toques antes de passá-la. O dia corria-me bem até porque numa esquina da praça já não se vendem castanhas mas morangos gordos e mangas cor de fogo. Nas escadas de calçada portuguesa encontrei adolescentes que, estou certo, se baldaram à última aula e que fumavam ganzas ou namoravam como nos filmes que vêem nos portáteis – ela com a mão no queixo, ele com a franja nos olhos. E essa asiática linda com óculos escuros de diva e cabelo de guerreira. Ou a miúda que falava ao telemóvel com a mãe, pedindo dinheiro para a renda e dizendo que não sabia se ia receber uma bolsa: “Mas tenho fé”, copiei da boca dela para o meu bloco de notas. Queria falar do Rio de Janeiro, mas por causa de uma limonada no Chiado, das estrangeiras giras com ombros de alças e chapéus de palha, por causa de todos os coxos e cegos e janados que pedem esmola, por causa dos ciganos que me tentam vender haxe, por causa dos prédios que ardem junto da minha casa, devolutos, esquecidos, sem ninguém que faça vida neles há décadas, porque me fodes o juízo e me dás tanto, estou a escrever-te a ti. Sabes, Lisboa, às vezes estás-me tão entranhada.

Memória Histórica

Manuel é táxista no Estoril e o seu português ágil não esconde a ondulação do sotaque sul americano. “Sim”, disse-me, “sou argentino”. (E eu que pensava que a imigração argentina se limitava a futebolistas.) Enquanto o táxi avançava pela marginal, Manuel disse que, ao chegar a Lisboa, em 1982, não vinha para triunfar, apenas para sobreviver. “Tinha-me metido nos sindicatos e era opositor da ditadura”. Manuel foi preso numa operação stop, pouco tempo após a guerra das Malvinas: “A minha sorte foi ter sido mandado parar pela polícia, se tivessem sido os militares não tinha chegado aqui.” Esteve alguns dias preso com o irmão de Che Guevara e, após a libertação, pediu asilo na embaixada de Portugal porque tinha familiares portugueses em Lisboa. Lembrei-me de Manuel ao ler que um tribunal condenou a 25 anos Reynaldo Benito Bignone, último presidente da ditadura argentina (1976-83). Este general foi também responsável por um “chupadero” – assim se chamavam os centros clandestinos de detenção onde se torturava, assassinava e se despachavam presos para os aviões de onde seriam lançados ao Rio de la Plata. Nos apontamentos que tirei após essa viagem de táxi, encontrei esta frase de Manuel: “Estagnei, parei”. Estima-se que a ditadura argentina tenha assassinado mais de 30 mil pessoas. Uma dessas pessoas era a mulher de Manuel.

I ♥ Porn

Durante a II Guerra Mundial, Maurice Ginorias perdeu o pai e herdou o negócio de família, uma editora parisiense com os debochados Henry Miller e Anaïs Nin no catálogo. Durante anos, Ginorias publicou escritores lascivos, fazendo primeiro publicidade a títulos provocadores, como “Com a boca aberta”, e, caso tivesse procura, encomendava romances aos autores. Também publicou “Lolita”, de Vladimir Nabokov. Em 1958, o estado embargou os seus livros, acusando-o de obscenidade, e Ginorias mudou-se para os Estados Unidos, país onde Gerard Damiano, cabeleireiro de mulheres, pegou numa câmara e filmou “Garganta Funda”, em 1974. O filme esgotou salas, pôs senhoras idosas e celebridades a ver porno no cinema, foi banido em 23 estados e levou Nixon a criar uma comissão para acabar com aquilo que, nas palavras de um juiz, era “um festim de carne podre e sordidez, Sodoma e Gomorra enlouquecidas”. Quis a fortuna que a fonte do Washington Post que revelou o caso Watergate, do qual resultaria a demissão de Nixon, ficasse conhecida como “Garganta Funda”. Esta semana, milhares de chineses fintaram a censura na internet para seguir, no Twitter, a estrela porno japonesa Sora Aoi. Tudo o que aqui foi contado cabe numa frase de Gore Vidal: “Ditaduras visionárias, sejam de um só homem ou do proletariado, costumam condenar o sexo fora da norma.” Se a liberdade de expressão fosse um elástico, a pornografia seria esse elástico esticado ao limite. Felizmente, seja com os livros, filmes ou sites de internet, há sempre alguém a correr o risco de rebentar o elástico.

Malditas gajas

Soubessem os islandeses ou os haitianios o que sabe Hojatoleslam Sedighi, líder religioso iraniano, sobre os movimentos das entranhas do planeta, e não se metiam em sarilhos. Sedighi disse: “Muitas mulheres não se vestem de forma modesta, desencaminhando os homens, corrompendo a sua castidade e disseminando o adultério, o que aumenta os terramotos.” Já se sabe que as nórdicas são libertinas e que as mulheres das ilhas tropicais têm uma apetência para a devassidão. Não haveria catástrofes naturais caso se cumprissem os requisitos de decência impostos pela revolução iraniana, como proibir que as mulheres cantem em público, se candidatem à presidência do país, apertem a mão de homens que não sejam da família ou usem batom vermelho (porque é um insulto ao sangue dos mártires). O Irão tem um plano de prevenção para catástrofes naturais, onde se inclui prender Alieh Doost, uma mulher que participou numa manifestação pacífica ou matar, com pancada, a fotojornalista Zahra Kazemi. Para evitar males maiores, as iranianas podem, por exemplo, ser apedrejadas por adultério. E se Teerão está numa zona de grande actividade sísmica, resta aos iranianos, como aconselha Sedighi, “adaptar a vida aos códigos morais do Islão”. Mas caso deus se ponha a derrubar prédios na capital, fiquem a saber que a culpa é das iranianas subversivas que agora são 70% da população universitária, vêem o “Sex & City” em canais de satélite e cobrem a cabeça com lenços Hermès, porque as gajas, já se sabe, ou estão a disseminar o adultério ou a empurrar placas tectónicas.

Más notícias

Se o seu coração, refém da nuvem de cinzas, está preso num aeroporto, incapaz de encontrar-se com a mulher por quem se apaixonou no Facebook, se é um agricultor queniano e as suas flores não chegaram a uma jarra de Estocolmo, se é um miúdo turco que queria ver o espectáculo (cancelado) da World Wrestling Entertainment, se pagou mais por uma garrafa de água no aeroporto da Portela do que pagaria na semana passada, se espera um livro de poesia que está parado num armazém da DHL, se vai alugar um carro, por dois mil euros, para viajar entre Lisboa e Paris, se a sua vida lhe parece embargada diante de um painel que diz “Cancelado”, tenha em conta que, apenas na última semana, a terra tremeu no Afeganistão – sete mortos – e na China – 1900 mortos – ou que 18 manifestantes tailandeses perderam a vida em confrontos com a polícia. Se é um dos 6,8 milhões de passageiros afectados pelo encerramento dos aeroportos, pense que, nos últimos sete dias, quatro palestinianos foram mortos pelo exército israelita e que outros dois foram fuzilados pelo Hamás por colaborar com o inimigo. Não se esqueça que quatro espanhóis, em missão humanitária no Haiti, morreram na queda de um helicóptero ou que explodiram bombas suicidas no Paquistão – 40 mortos – e no Afeganistão – sete mortos. Sim, o mal dos outros não deve ser o nosso consolo, até porque há sempre alguém pior que nós – na Somália indigente e sem lei, radicais islâmicos proibiram a emissão de música nas rádios. E pior que sofrer, é sofrer sem direito a uma banda sonora.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

Algumas crónicas das últimas semanas no jornal i


Das Kapital

Fiquei a conhecer, pelo “New York Times”, as rapariguinhas do shopping da Polónia, que trocam o seu apelo adolescente por peças de roupa, ténis, telemóveis e outros acessórios que providenciam felicidade. Como estratégia de sedução, exibem-se na lojas, procurando homens beneméritos. São pagas em géneros e retribuem nas casas de banho. Vinte anos após a queda do comunismo, a Polónia tenta conciliar a lascívia do capitalismo com a forte moral católica do país. Não está a conseguir. O autor de um documentário sobre rapariguinhas do shopping descreveu assim o seu tempo: “Os centros comerciais tornaram-se nas catedrais da Polónia.” Depois de tantos anos de dieta comunista, os polacos querem coisas. Katarzyna Roslaniec, que fez um filme de ficção sobre as rapariguinhas do shopping, disse ao “Times”: “Os pais perderam o caminho, mais preocupados em comprar uma máquina de lavar ou um carro”. Se o sexo tem sempre mercado, a morte também. Horas após o acidente de avião que matou o presidente polaco, um vendedor de rua oferecia t-shirts com “RIP” inscrito sobre a bandeira. Venderam-se relógios com o casal presidencial, bandeiras fabricadas na China e um site cobrava dez euros para pôr mensagens de condolências num livro. O escritor Reinaldo Arenas fugiu de Cuba para Miami e cedo percebeu uma diferença: “No comunismo dão-te um pontapé no cu e ficas calado. No capitalismo dão-te um pontapé mas podes gritar.” Por mais idealistas que sejamos, a verdade é que, na maioria das vezes, a melhor escolha é um mal menor.

Big Easy

Esta história tem nome de bairro de Nova Orleães – Tremé – e começa três meses depois do furacão Katrina. Uma banda toca na rua pela primeira vez após o dilúvio, as mortes e a ineficácia do governo. Um músico malandro de muitas namoradas chega atrasado ao cortejo com o seu trombone. Dança-se em cima dos cadáveres dos carros e bebe-se cerveja. Esta história não é minha. Pertence a David Simon, que em tempos passou um ano numa esquina de Baltimore para perceber o negócio da droga e as chagas da comunidade pobre. Simon, antigo repórter, mudou-se para a televisão e criou “The Wire”, a melhor narrativa televisiva de sempre. Depois foi viver para Nova Orleães, juntou músicos, habitantes e escritores da cidade, e imaginou a série “Tremé”, que acaba de estrear. Simon está a construir uma obra. Primeiro mostrou Baltimore, onde o sistema – política e narcotráfico – corrompe e esquece o indivíduo. E agora revela Nova Orleães, uma cidade tão antiga como castigada, mas onde os músicos se recusam a arrumar os instrumentos. Na televisão, Simon faz o que a maioria não consegue no cinema ou na literatura. Em tempos explicou que gostaria de mudar a postura do telespectador: em vez de recostado no sofá, queria-o inclinado para diante, atento, intrigado, emocionado com a humanidade das personagens. Comigo conseguiu isso tudo. Esperei a estreia de “Tremé” com a ansiedade de um assaltante. Vi ilegalmente o primeiro episódio na internet (prometo comprar os DVDs). No final dos 118 minutos do primeiro episódio juro que, pelo menos neste caso, o crime compensa.

Estais perdoados


No mesmo dia ficámos a saber que a Igreja Católica perdoa os Beatles e que o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, acredita numa ligação entre a homossexualidade e a pedofilia. A propósito dos 40 anos do fim dos Beatles, escreveu-se no “L'Osservatore Romano” – jornal da Santa Sé – que o consumo de drogas ou o amor livre praticado pelos membros da banda têm agora pouca importância: “As suas belas melodias vivem connosco como jóias preciosas". Cada época tem a sua música e a sua lista de pecados. Mas se a Igreja absolveu os Beatles, ainda não concedeu a sua graça aos homossexuais. Tarcisio Bertone disse aos jornalistas: “Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre o celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram – disseram-me recentemente – que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia”. Curioso, a mim disseram-me o contrário, foi na TSF, quando o psiquiatra Álvaro Carvalho negou qualquer relação entre orientação sexual e abusos de crianças. No que toca a estudos científicos, entre uma batina e uma bata branca, confio mais em quem pode receitar comprimidos. Em tempos, quando John Lenon comentou que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo, a Igreja disse tratar-se de “uma mensagem misteriosa ou talvez satânica”. Hoje, os Beatles foram perdoados, o que dá alguma esperança aos homossexuais. Só têm de esperar 40 anos.

Os amigos de N.

Nem todos os dias o mundo se põe a morrer. Na noite de domingo, por exemplo, as pessoas falavam com voz de oração junto do corpo do teu pai e os teus amigos lá fora, a mostrar fotografias dos filhos no Iphone, mães que regressavam a casa para estar com as crianças, o Pedro a contar que um campeão do mundo de Fórmula 1, depois de ser pai – como tu és –, ficou mais lento um segundo nos treinos, não era capaz de arriscar como antes. Talvez não tenhas reparado mas, apesar do medo, das ressacas mais longas ou da impossibilidade de saltar das rochas para o mar de Cascais, ainda somos os mesmos, entrámos no velório errado, rimo-nos com a mão a esconder a cara, como fazíamos no colégio de padres onde o mais importante do recreio eram as duas balizas. E mesmo que ontem, no crematório, o silêncio fosse mais estrondoso por causa do motor da máquina de chocolates na sala de espera, alguém combinava uma viagem a Las Vegas, olhava para o telemóvel ou perguntava: “Onde é que vão ver o Benfica?” Nenhuma gravata preta nem óculos escuros poderão alguma vez solucionar a estranheza destes rituais. Não nos morre gente todos os dias. Não estamos preparados para isto. Jamais saberemos onde meter as mãos quando passa o cortejo. Mas, garanto-te, nem todos os dias o mundo se põe a morrer. Basta que me lembre do teu braço nos ombros da tua mãe. Basta que te lembres, como lembraste na noite de domingo, que era exactamente naquela pastelaria que comias as panquecas com doce de morango.


Coração independente


Não consigo um pingo de insolência se entro numa casa de fado. O empregado disse-me que teria de esperar mesa e obedeci silencioso como se aguardasse na fila para o beija-mão real. Já sentado, quando uns turistas falaram por cima da guitarra ou quando um amigo decidiu cantar ao mesmo tempo que a fadista, senti vergonha alheia – o mau comportamento deles fez-me temer uma expulsão. Não sei donde vem esta reverência ao fado. Sei que o oiço desde a adolescência, que o pus a tocar muitas vezes numa casa pequena em Nova Iorque e numa casa ainda mais pequena em Madrid. Nunca por saudades do meu país. Nunca como acessório de cena para a tristeza. Nunca por desamor. Claro que não. Mas na noite em que vi um concerto do Camané, em Madrid, quis mostrar o fado aos meus amigos como se estivesse a apresentar-lhes o primo talentoso da família. Sempre que me perguntaram: “Porque é tão triste?”, não respondi com o fatalismo lusitano, não disse que nos está no sangue ou sequer que a tristeza pode ser arte. Portugal com nostalgia no código genético faz tanto sentido como as Nossas Senhoras que mudam de cor com a temperatura. Mas, no intervalo de uma sessão no Clube do Fado, o guitarrista disse-me: “O fado é triste porque a verdade e a beleza estão na tristeza.” E eu calei-me. Ele preparou-se para tocar e anunciou uma surpresa: “Katia Guerreiro”. E o que ela cantou – e como cantou – fez todo o sentido no tumulto da minha pele. O fado contradiz-me. Não quero acreditar em nada do que ele me diz e, no entanto, emociona-me mais do que muitas coisas em que acredito.

Lentamente

Hisa Hilal é famosa mas ninguém a poderá identificar na rua. Foi vista por 20 milhões de telespectadores mas não conhecemos a sua cara. Caso ganhe um milhão de euros, em disputa na final de um concurso onde é a única mulher, dificilmente usará uma gargantilha de diamantes acima do decote ou uns saltos Jimmy Choo. Hisa é a candidata favorita para ganhar o programa “Um milhão para um poeta”, uma espécie de “Ídolos” do mundo árabe que, em vez de estrelas pop, premeia declamadores de poesia. O niqab que lhe cobre a face e a roupa negra são o contrário da brancura das kefyias do júri masculino. Ela é uma mulher saudita que viajou, acompanhada do marido, como manda a lei, até Abu Dabi para celebrar na televisão a herança oral da sua língua. E, como um cantor de intervenção ou um rapper anti-sistema, recitou um texto sobre os líderes religiosos que mandam perseguir, castigar e matar. Hisa disse: “Os extremistas querem condenar-nos ao isolamento e só nos oferecem medo e opressão. Quero aproveitar a minha sorte para afirmar que, se todas as mulheres árabes continuarem a lutar, teremos mudanças”. Demorou pouco para que recebesse ameaças de morte. Num tempo em que as celebridades anunciam o final das suas relações amorosas no Twitter e arriscamos um esgotamento nervoso sempre que uma página de internet não abre em micro segundos, Hisa Hilal tem outra forma de perceber o tempo: “Sacrifico-me para que algum dia as minhas filhas sejam livres”.

Obrigado, Lionel (ii)

O seu Russo nasceu na Galiza, passou a adolescência em Lisboa e, após um período em Barcelona, mudou-se para Madrid, onde é recepcionista da noite num hotel. Leitor de Nietzsche quando tinha 18 anos, mistura os dois idiomas, gosta de drogas leves, filmes, Fórmula 1, teorias da conspiração e do Futbol Club Barcelona. Mostrou-me documentários sobre Cruyff, vídeos de Figo – a quem chama Judas – e contou-me a história de Lionel Messi – a criança que precisava de injecções para crescer e que, na noite de terça, como escreveu o "El País", nos levou ao passado das tardes inteiras com uma bola: “Os miúdos não perguntam, simplesmente saem para jogar no pátio.” O seu Russo, tratado assim pelos amigos por deferência cómica e por ser loiro, disse-me que não lhe importam bandeiras, nem tem de sentir-se mais espanhol que português. O seu ídolo futebolístico, Messi, nasceu argentino mas viveu quase metade da vida em Barcelona. Ontem, o El País titulava: “Messi devora o Arsenal”. Mas também informava que em Valença do Minho havia bandeiras espanholas por causa do encerramento do centro de saúde – lembro que o alcaide de Tui, em Espanha, ofereceu os serviços de saúde do seu município. Nenhuma rivalidade ibérica importará ao seu Russo que, no Facebook, mostrou as suas prioridades: “Estou em alta há 12 horas, visca el Barça”. Tal como não importa que a “Time” não tenha escolhido Messi como um dos atletas mais influentes. A influência não sai para jogar no pátio e marcar quatro golos. Nem português, nem espanhol: durante aquele jogo fui messista. E russista.


A Preto & Branca

Esta crónica existe por causa de um beijo. Mas começou há um ano, quando cruzava o Rossio com uma rapariga do norte que, reparando nos africanos da praça, disse: “Lá em cima não se vê isto”. Respondi: “Deve ter sido isso que os nazis disseram ao entrar no bairro judeu de Cracóvia”. Há uns meses, numa paragem de autocarro, recolhi no bloco de notas as palavras de um homem que, ao ver um grupo de adolescentes africanos, disse: “Vêm aqui parar ó caralho, deviam era ir todos de volta em contentores.” Na minha mesa de trabalho, ao lado desse bloco, está o jornal Destak onde copiei, na semana passada, a frase escrita num banco de autocarro: “As vacas de C. Verde e da Guiné é só parirem macacos para subçídios, esta macacada arruina as finanças do paíz, anda tudo a sacar do erário público.” Os erros são do autor original que (tendo em conta o seu domínio da língua) bem pode lamentar a falta de dinheiro do erário público para a Educação. Ontem, na minha rua, uma senhora de bengala queixava-se dos sacos de lixo no passeio: “Desde que os indianos se mudaram para aqui que está tudo sujo.” Tentei explicar-lhe que o lixo estava ali por causa de uma greve dos serviços camarários. Não valeu de nada. Quem escreve todos os dias vive num estado de alerta, procurando frases ou pormenores que instiguem uma crónica. Foi isso que encontrei, segundos depois de abandonar a velha de bengala, ao entrar na agitação quente do Rossio, no momento em que um preto de cabelos rasta beijava a boca de uma branca com pele tão branca como a luz que encadeava toda a praça.