sexta-feira, 18 de junho de 2010

Oração do escritor


"Estou comprometido, ou seja, vivo, num mundo que é um desastre. O meu empenho está em não separar o escritor da pessoa que sou. Esforço-me, na medida das minhas possibilidades, em tratar de entender e explicar o mundo».

José Saramago.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

crónicas no i



Rumo ao sul


Há anos que não cruzava o país de autocarro, como antes, quando no alcatrão que cicatrizava o Alentejo apertávamos os dedos nos estofos a cada ultrapassagem porque havia sempre alguém que falhava uma curva. Tínhamos a certeza que não havia no mundo viagem mais longa – uma aventura que só terminava na placa “Algarve” quando nos percebíamos perto das corridas de caricas e dos concursos de mortais para a piscina. Mas agora descer o país de autocarro é diferente. Há máquinas de bebidas no cais de partida e revistas que nos entretêm durante as duas horas e pouco (tão pouco) em que deslizamos na auto-estrada. Há ainda a babilónia linguística dos miúdos viajantes e estrangeiros, com phones brancos nas orelhas, que agora atravessam a Europa como quem vai ao pão. Há bancos de couro como num descapotável, televisões que mostram os horóscopos, um WC onde caberia uma família monoparental. E, claro, tenho sempre a mesma sorte em comboios, aviões e autocarros – a brasileira gira passou por mim mas foi a velha com cabelo de fuzileiro que ficou a meu lado: “Desligue aí o ar condicionado que não me dou bem com essa coisa.” Há, no entanto, coisas que não mudam: assim que chegamos ao destino e abandonamos o ambiente controlado da nave espacial, somos abocanhados por esse calor com cheiro de figos, capim, alfarrobas, pinhas e terra vermelha das falésias, esse calor musicado por cigarras e grilos e regadores de relva, esse calor cá de baixo, esse calor algarvio. Então, temos a certeza que somos outra vez tudo aquilo que fomos em todas as férias grandes.

Todos os nomes


No dia 4 de Abril de 1989, não valeu a Maristela Just encontrar-se na residência dos pais, no misericordioso bairro da Piedade, em Jaboatão de Guararapes, segunda cidade do estado tropical de Pernambuco, quando o legítimo marido, José Ramos Lopes Neto, de quem estava separada há dois anos, apareceu com uma arma de fogo para matar toda a família. O atacante, filho do advogado criminalista Gil Teobaldo, trancou-se num quarto com a família, disparando três vezes sobre a mulher e acertando na cabeça da rapaz (com dois anos), no ombro da rapariga (com quatro anos) e algures no cunhado, Ulisses Just, que aparecera em missão de socorro. O homicida foi detido e enviado para a penitenciária Aníbal Bruno, em Tejipió. No julgamento, que aconteceu esta semana e durou 13 horas, testemunharam Natália Just e Zaldo Neto (os filhos sobreviventes), Harlan de Andrade (policial civil), ficando por ouvir Gilson Calábria e Walter de Figueiredo Filho, testemunhas ausentes. Pela morte da mulher, o réu foi condenado, por um júri popular, a 79 anos em regime fechado. José Ramos Lopes Neto, que desapareceu há 20 anos quando lhe foi concedido um habeas corpus, também não marcou presença em tribunal embora, como disse a juíza Inês Maria de Albuquerque, tenha sido feita uma busca ao réu sem que este fosse encontrado em seu endereço. No final, a filha perguntou: “E se ele decidir terminar o que começou [há 21 anos]?” Não há motivos de alarme: José Inaldo Cavalcanti, nomeado pelo Estado para defender José Ramos Lopes Neto, explicou que jamais fora contactado pelo réu.

No fio da navalha


Fomos criados com supermodelos na imaginação erótica e conhecemos a intimidade das actrizes perfeitas no ecrã do computador. Para manter sustentável este mundo de fantasia, acreditamos na globalização da cirurgia plástica para as mulheres. Contudo, este galopante processo de uniformização da beleza feminina, com milhões de aderentes em todo o mundo, e que tanto se inspira nas modelos da “Vogue” como na actriz recauchutada da novela da Globo, está em declínio na Europa e nos Estados Unidos, país líder em número de plásticas. Em Espanha, por exemplo, as cirurgias estéticas caíram 30% por causa da crise, com destaque para as raparigas entre os 18 e os 22 anos, que recebiam correcções a bisturi como presente de aniversário. Eu sou suspeito porque ainda ontem me senti arrebatado diante de uma paragem de autocarro com a Gisele Bündchen deliciosamente passada a ferro por photoshop. E confesso que já me espantei, como um pateta durante um truque de cartas, ao encontrar implantes num decote arriscado. Mas custa-me aceitar que tantas mulheres se mutilem para serem apenas mais uma cópia, que não percebam que a homogenia não dá assim tanta ponta e que nem sempre é o maior par de mamas que faz suspirar a sala. Mesmo com a crise a ajudar, sei que será muito difícil passar esta mensagem. No Iraque muçulmano, agora com menos atentados e uma economia em crescimento, as plásticas aumentaram 50%. Os americanos, triunfadores mundiais do silicone, bem avisaram que não saíam dali enquanto não consolidassem a democracia e os valores ocidentais.

NY me mata

Bill Clegg tem cara de menino loiro bem comportado, de rapaz que chegou a Nova Iorque, do interior dos Estados Unidos, acreditando que jantar comida chinesa era uma actividade glamorosa. Mas, rapidamente, a inocência foi substituída pelo sucesso enquanto agente literário e por uma invulgar sensibilidade como leitor. Bill ajudava, como ninguém, os escritores a editar os manuscritos. Com 31 anos, sofisticado, bem pago, culto, influente, abriu a sua própria agência e levou consigo alguns dos autores mais consagrados – os mesmos que, no início de 2005, não conseguiam contactá-lo, porque Bill estava desaparecido há semanas. Os rumores espalhavam-se, em surdina, por parecerem tão escabrosos e tristes. Bill conta agora tudo no seu livro, “Portrait of an Addict as a Young Man”, uma memória desse tempo em que ficou agarrado ao crack, ao sexo com desconhecidos, e em que gastou quase 70 mil dólares a fumar cocaína em hóteis de luxo na companhia de prostitutos – “Quero o esquecimento desfocado dos corpos em colisão durante o sexo”, diz no seu livro. Tudo acabou com um frasco de comprimidos para dormir, menos 20 quilos no corpo, e o colapso de uma existência, uma empresa, uma relação amorosa de oito anos. Bill entrou numa clínica, voltou a cair – vendeu uma fotografia de 20 mil dólares – mas há cinco anos que não consome. Foi contratado para uma das melhores agências literárias da cidade. Os seus antigos escritores foram com ele. Recebeu um adiantamento de 350 mil dólares pelas suas memórias. Nova Iorque mata. Mas também ressuscita.

Gorilas em Fiji

Os jornais diziam que o exército de Israel atacara, em águas internacionais, barcos que transportavam ajuda humanitária para Gaza. Morreram entre dez e 19 pessoas. O meu cérebro reagiu, lembrando-se de uma frase, no livro “The pugilist at rest”, do americano Thom Jones. Tive de procurar o livro, depois o parágrafo no qual o narrador afirma que a consciência dos gorilas é uma consciência do aqui e do agora, sem necessidade de guerra ou tortura, e que não é assim tão difícil aos seres humanos alcançarem esse estado – basta beber cinco martinis dentro de uma banheira de água quente. Por fim, encontrei a frase que procurava: “Leiam os jornais e percebem o que digo. O comportamento humano, 98% das vezes, é abominável.” Fui ler os jornais, como manda o narrador: “Acusado de engravidar filha surda”, “Bebé sofre queimaduras solares por desleixo dos pais”, “Mais de 145 mortos num atentado em Bengala”, “Acusado de espancar enteado de quatro anos é agredido por colegas de cela”, “Noivas criança escapam a casamento mas não a chicotadas”, “BP admite que o petróleo pode jorrar durante meses”, “Ditador Mugabe paga um milhão para ver o Brasil jogar”. Esta é uma pequena amostra da minha busca. Não devia surpreender-me, o narrador tinha avisado: “Os gorilas são felizes. Não precisam de ténis New Balance ou um Jaguar. Não há um gorila que tenha o desejo de violar ou assassinar.” Há dias em que, por mais fé que tenha na raça humana, só me apetece imitar o narrador: “Há uma série de ilhas desertas em Fiji. Eu e os meus cães vamos dar uma de Robinson Crusoe.”

domingo, 6 de junho de 2010

crónicas no i

Romance (versão actualizada)

Não precisas de olhar para o telefone de disco, ensaiando o discurso, antes de ligar para o número escrito num guardanapo de discoteca, como acontecia nos tempos em que desapertar um soutien era uma glória pouco frequente. Hoje, basta que, a meio da conversa com uma miúda que acabaste de conhecer, lhe perguntes se tem Facebook. Depois diz que vais buscar uma bebida. Volta mais tarde, quando já consultaste, no teu telemóvel, o perfil dela (deu para veres uma foto, na praia, ao fim do dia, bonito sem ser piroso, gostas da boca e do cabelo dela). Quando chegares a casa, se estiveres em condições de teclar, manda um sms, nada de emocional, reconhece que gostaste da noite. Não uses o Facebook, isso indicaria que te deste ao trabalho de ligar o computador. Durante a semana, troca mensagens no Facebook, se as mensagens acelerarem, entra no chat e fala com ela. Se as mensagens forem planas, curtas e sem espaço de manobra, esquece e aproveita os privilégios do presente: a tecnologia economiza tempo. Se as coisas correm bem, usa ferramentas de sedução, como postar o vídeo de uma banda que ela te mostrou ou apenas fazer um “Like” em algo que ela tenha escrito no mural: “O teu coração dá-me tesão”. Um dia vais acordar no quarto dela. Diz: “Deixa-te estar”, dá-lhe um beijo, diz: “Vou para casa.” Não mandes sms. Toma o pequeno-almoço e mete-te na cama com o laptop. Uma miúda que não conheces fez um “Like” na frase que roubaste a um escritor: “Your ♥ is my piñata”. Manda-lhe uma mensagem. Mais uma ficha, mais uma voltinha.

Sopra aí na corneta

Durante os festejos do Benfica no Marquês de Pombal, uma amiga brasileira, estreante entre as multidões portuguesas, comentou que no Brasil haveria logo gente com música para alegrar a celebração. Mas na rotunda ouviam-se gritos, carros a apitar melodias monótonas e um camião cujo motorista parecia ter adormecido em cima da buzina. Podemos ser um povo feliz, como quando o Benfica ganha, mas não somos musicais, o que só torna o sucesso da vuvuzela mais ameaçador. Uma vuvuzela, por si só, quieta num canto, já tem um enorme potencial destrutivo. Se operada por uma nação de trauliteiros sonoros, então, teme-se o pior. Essa corneta, que se espalhou pelos estádios sul africanos com a rapidez do herpes numa orgia romana, começou por ser um instrumento feito de lata, até que alguém percebeu o fascínio dos humanos por brinquedos de plástico que fazem barulho, e transformou a vuvuzela num produto de fabrico fácil. É facto aceite que um brinquedo da moda – Botabotilde, Hula Hoop – pode ser mais pegajoso que uma música de verão. Mas a Galp foi longe de mais ao pedir que toquemos a vuvuzela, em uníssono, um minuto antes dos jogos da selecção, para criar uma onda positiva. Eu aceito que queiram vender combustíveis oferecendo-me brindes de plástico produzidos na China. Mas meter um país inteiro a soprar na corneta e fazer disso um símbolo de união nacional, quando querem vender gasóleo, quebra o contrato (unilateral) que tenho com a publicidade e o Santuário de Fátima: aceito que me tentem enganar, só não me peçam que acredite no engano.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Crónicas no jornal i


Gente da Minha Terra

Querida Mariza, não cantes mais para mim, não voltes a tirar-me o chão, a fúria, a lucidez quando me preparo para, depois de ler o Manifesto Anti-Dantas, escrever sobre a necessidade de Portugal continuar a ser, tantos anos mais tarde, qualquer coisa de mais asseado. Por favor, não me apareças a cantar sobre a tristeza que trazes, deixando-me cativo de uma nostalgia que não quero, desmontando-me o coração de gesso como quem esmaga um pequeno brinquedo a pilhas. Peço-te que não repitas essa coisa de seres um punho na garganta, um susto na pele, uma rasteira ao meu mau feitio, quando o que mais quero é ser bruto e falar da geração que se deixa representar pela peste de encolher sempre os ombros, desculpando-se como um mestre de obras incompetente: “Isto é Portugal”. Não me segures na mão nem me tapes a boca nem faças de mim um miúdo em soluços, caído e sem luta, no colo de uma língua, de um país, de uma gente a quem tantas vezes quero apedrejar, cuspir e insultar. Pára de cantar sobre a gente da nossa terra, porque não consigo não acreditar em ti – e fico mais pequeno, menos feroz, outra pessoa. Não nos sequestres a razão desta maneira, porque se cantas assim seremos sempre sentimento e não deixaremos jamais de acreditar que a tristeza é bonita e nos aconchega quando tudo pega fogo e o caminho se faz ainda mais desgovernado. Ou então não me oiças, e continua, por favor continua, porque neste exílio dos degredados e dos indiferentes, neste entulho das desvantagens e dos sobejos, só tu nos fazes querer ser ainda gente desta terra.

Morrer de amor

Os amigos dizem que Simon Monjack não tinha ruindade no coração, que era mais como um miúdo com delírios de grandeza, usando as mentiras como se usa um smoking no baile de finalistas – para parecer mais bonito, para que gostassem dele. Tal como o pai, que morreu quando Simon tinha 15 anos, o filho trabalhou no mercado financeiro londrino. Dizia ser grande mecenas de Damien Hirst, embora tenha comprado uma só peça do artista celebridade. Foi perseguido por bancos e expulso de casas. Era um trapaceiro com aspirações artísticas. Casou com a actriz Britanny Murphy e logo os rumores, nos sites de famosos, questionaram o seu amor – queria a fortuna dela para pagar dívidas, queria um visto de residência nos Estados Unidos. Não se largavam, viajam juntos para todo o lado. Há seis meses, Simon encontrou Britanny morta. Disse que tentou manobras de reanimação e, quando percebeu o inevitável, despediu-se com um beijo – Britanny morreu por causa da anemia, do abuso de medicamentos e de um coração fraco. Nos meses seguintes, Simon tentou limpar o seu nome, oscilando entre a energia dos mitómanos e o choro dos danificados: “O meu mundo foi destruído”. Foi filmado em casa, para um site, dizendo: “Chegámos a um ponto, nesta cultura, em que já não importa a diferença entre factos e ficção. O que interessa é aquilo que consegue despertar o interesse do leitor médio”. Foi encontrado sem pulso no mesmo quarto onde Britanny morreu. O seu coração também falhou. Já ninguém morre apenas de amor. É preciso, pelo menos, um pouco de fama maldita.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

crónicas no jornal i


Viagem no tempo

E, de repente, havia de novo o gelado Fizz de limão e o cheiro dos cromos Panini e a Praia Grande com ondas que apunhalámos durante todo este fim-de-semana, destemidos, eufóricos, como se as aulas tivessem acabado e não houvesse uma agenda de adultos até ao final de Setembro. Logo que o sol começou a descer sobre o mar, fomos outra vez miúdos a quem as consequências do álcool não importam, com o cheiro do marisco nos dedos e a efervescência das imperiais na boca. De noite saímos para a rua, uma camisa fresca que chegará a casa de madrugada, colada ao corpo e com nódoas, as mãos apertando bebidas com gelo, passa-me mais um cigarro, as ruas de Lisboa apinhadas de gente bem disposta que queria sacudir a depressão da crise e estrear a primeira noite sem uma brisa. Sandálias de mulheres bonitas na calçada, tornozelos, pernas, ombros, cinturas maleáveis na pista de dança, pássaros a amanhecer no regresso a casa, poucas horas de sono, dores existenciais curadas com o primeiro mergulho no mar e a certeza que, ao fim da tarde, estaríamos outra vez numa esplanada com manchas de sal nos músculos preguiçosos, diante da final da Liga dos Campeões, numa comunhão que talvez só os crentes religiosos conseguem. E comentários sobre o jogo, minis geladas, peixe grelhado, tudo com o mesmo empenho, a mesma certeza de imortalidade, a mesma fruição com que há anos corríamos para o homem das bolas de berlim, para a prancha mais alta da piscina, para a miúda que, depois de prender o cabelo, nos ofereceu o espanto da sua boca e nos inaugurou nos beijos com língua.

7

Numa noite de chuva no antigo estádio da Luz, junto da linha lateral, vi tudo em câmara lenta. Não foi um golo monumental, um pontapé de bicicleta. Mas lembro-me de tudo. Figo corria para disputar a bola, prestes a sair de campo, com um irlandês. Escorregou na relva molhada, deslizou de joelhos e, quando o adversário estava prestes a ganhar o confronto, Figo levantou-se, deu um toque para o lado, dobrou os rins do irlandês como quem prega uma partida, e saiu a correr. Tinha valido a pena a molha durante mais de hora e meia. Figo é agora um homem de negócios, uma celebridade internacional que toma o pequeno almoço com o primeiro-ministro. Figo, o habitante da sumptuosa cidade de Milão, disse: “Gosto muito de Portugal, dos portugueses, mas há poucas coisas que me interessam [em Portugal]”. E nós, que queríamos que ele fosse sempre o jogador que, depois de marcar um golo contra a Inglaterra, foi buscar a bola dentro da baliza, ficámos magoados ou tristes ou indignados. Nós, os portugueses, tantas vezes duros com o país, não admitimos que o façam diante de estrangeiros, tal como Michael Corleone, que disse ao irmão: “Don’t ever take sides against the family.” Mas não sejamos ingénuos. Figo não é da nossa família nem janta em nossa casa nem é o apaixonado salvador da pátria que esperávamos que fosse com a camisola da selecção. Figo é um empresário e os empresários não emocionam ninguém numa noite de chuva quando a bola estás prestes a sair de campo. Figo, lamento informar, já não é o número sete. É um homem de negócios.

Telenovela

José, homem que chegou longe na vida, era chefe de família e usava bons fatos. Nas suas viagens aprendeu, com um amigo italiano, que o último botão do casaco nunca se aperta. Um dia entrou em casa e declarou que não sabia nada sobre os boatos que o acusavam de querer prejudicar Manuela, uma habitante do prédio, que todas as sextas feiras insultava José. E quando as reuniões do condomínio investigaram a altercação, José afirmou que o queriam prejudicar. No quarto aniversário do seu casamento, antes da cerimónia da renovação dos votos, também garantiu que as contas da família estavam em ordem. Meses depois, com a segunda aliança no dedo, entrou em casa e disse que, afinal, não estavam assim tão bem e que era preciso gastar menos água e tirar os carregadores dos telemóveis das fichas – os bancos que financiavam a família tinham aumentado os juros. Também disse que não iria recorrer aos mealheiros dos filhos. Bastaram poucas semanas para que mudasse de opinião e a sua prole, contrariada, aceitou partir os porquinhos, em nome da família, a partir de Julho. José, homem de princípios fortes, não pediu desculpa. O ambiente em casa era cada vez pior. Mas José assegurou que o dinheiro para as férias não seria tocado. Dias mais tarde, a família foi informada que percebera mal (os palermas) e que era para partir os porquinhos já em Junho, incluindo o que continha o pé de meia para as férias em Quarteira. Um dos filhos perguntou: “Pai, quantos meses tem um semestre?” José respondeu: “Sete, meu filho”. Moral da novela: José tem sempre razão.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

crónica no jornal i


Uma coisa de cada vez

Portugal teve sorte, não fosse a urgência em resolver a crise e talvez a sociedade se fracturasse por causa do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Espanha, que aprovou este tipo de união em 2005, esteve, como se sabe, perto de uma guerra civil assim que os homossexuais se começaram a casar, transformando-se numa Sodoma descontrolada. Os gays corromperam os heterossexuais, homens bem casados passaram a frequentar quartos escuros e a família tradicional é hoje tão rara como o lince ibérico. Quando os gays se casam, como está provado cientificamente, o mal abate-se sobre todos nós. Na segunda-feira, o Presidente da República alertou para os perigos desse desmoronamento social, sublinhando que os partidos deviam ter optado pela solução dos países que contemplam uma união civil mas recusam chamar-lhe casamento, por causa das consequências que daí decorrem (não disse quais seriam, na prática, essas consequências). Ou seja, o risco de ruína está na forma como se chamam as coisas. União civil: o país aguenta-se. Casamento: Portugal em queda-livre. O Presidente acha que apenas somos capazes de preocupar-nos com uma coisa de cada vez, como se os portugueses não conseguissem mastigar e caminhar ao mesmo tempo. Se combatemos a crise não podemos concentrar-nos em mais nada, nem casamento gay, nem mundial de futebol, nem mesmo na hipnótica e despesista visita do Papa, durante a qual o Presidente se recusou a comentar a situação económica do país porque estava em Fátima. Nisso, o presidente é como nós, só faz uma coisa de cada vez.

quarta-feira, 19 de maio de 2010