quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Carta ao senhor Sarkozy (com banda sonora)



"Yo soy español integral y me sería imposible vivir fuera de mis límites geográficos; pero odio al que es español por ser español nada más, yo soy hermano de todos y execro al hombre que se sacrifica por una idea nacionalista, abstracta, por el sólo hecho de que ama a su patria con una venda en los ojos. El chino bueno está más cerca de mí que el español malo. Canto a España y la siento hasta la médula, pero antes que esto soy hombre del mundo y hermano de todos. Desde luego no creo en la frontera política".

Federico Garcia Lorca.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Why try to change me now



Sabes que a tua vida não é um filme e, no entanto, olhas o mundo como se fosse um ecrã. Sais de casa, o peito apertado, e caminhas pela cidade que ainda acredita no verão. Sentas-te ao lado dos bêbedos na praça, olhas a fonte sem nenhuma mulher bonita e descalça que dance como no cinema. Passam muitos turistas, os seus cabelos loiros, as suas roupas leves, nenhum deles te sorri mas gostarias de saber quem são. Tudo se resume ao coração do coração: a escrita - "A tua namorada", disseram-te. Voltas a casa com comida em pacotes. Há futebol nas televisões das esplanadas. Sobes a colina, estás só, incapaz de falar com aqueles que gostam de ti. Sentas-te, por fim, e começas a juntar as palavras. Vês: estás a escrever. E agora mostra o mundo do que és capaz.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Estado da Nação, texto publicado no i


Um estranho em São Bento

Num corredor do Parlamento, Eduardo está sentado na cadeira de veludo. Tem a seu lado duas colegas do sétimo ano. Os três teclam nos telemóveis, esperam que os outros miúdos usem as casas de banho. O debate no hemiciclo começou há uma hora e lá dentro há quem feche os olhos e não resista ao calor, ao corpo a pedir sesta, aos deputados que parecem alunos de liceu hiperactivos, tantas vezes indiferentes ao orador do momento, actualizando o Facebook, falando para trás, para o lado e para o telefone. Porque Eduardo é tão estreante nestas coisas do parlamento como eu, porque ainda não tem idade para cinismos, parece-me melhor interlocutor que os assessores parlamentares. Eduardo diz-me, sobre a viagem de estudo: “É interessante”. Quanto ao estado do país, informa-me: “Não tem nada a ver com o que o primeiro-ministro disse” – José Sócrates tinha falado do sucesso das medidas contra a crise, dos bons indicadores económicos, da aposta na ciência e tecnologia, da defesa do Estado Social e da importância do optimismo.

Escolher um adolescente para comentar o debate parece tão gratuito como os programas de televisão com criancinhas a cantar. Mas eu só queria descobrir alguém que ainda não tivesse sofrido desgostos políticos. Uma visão livre de preconceitos. Tudo isto porque decidi enfrentar a minha primeira viagem ao parlamento com o mesmo entusiasmo com que visitaria a Disneylândia caso alguém me tivesse levado em criança. E começou bem: a Assembleia parece funcionar com o profissionalismo de um condomínio fechado. Tudo impecavelmente polido e brilhante, senhoras de bata que empurram carrinhos como num hotel, menus no refeitório com direito a opção dieta, uma biblioteca com candeeiros dourados.

Há qualquer coisa de country club naquelas madeiras. Há qualquer coisa de requinte funcional, de serviço de conciérge, de internet sem fios grátis. Mas o parlamento também tem as características de uma escola ou de um quartel, esses sítios onde se juntam pessoas que se isolam do exterior – além do regimento oficial há um código de costumes para quem lá vive, as conversas nos corredores, as sms dos deputados para os jornalistas ao longo do debate, os apartes durante um discurso como uma guerra de bocas na sala de aula, o grupo parlamentar do PS aplaudindo quatro vezes o primeiro-ministro nos primeiros 2’51 minutos da sua intervenção, aplausos que surgem antes de
Sócrates finalizar uma ideia, aplausos regimentais.

O debate é aborrecido e, duas horas depois, há menos deputados nas cadeiras, os miúdos das escolas desapareceram das galerias. Mesmo tendo votado em branco, quero saber se me foi atribuido um deputado. Por sorte, encontro o único parlamentar que conheço pessoalmente – entrevistei-o antes das eleições. António Leitão tem 30 anos, estudou em Harvard, foi eleito pelo PSD. Faz-me uma visita guiada e diz-me que sim, que as pessoas têm direito a um deputado, que na próxima semana vai receber uma senhora que o contactou por email. Mas também me diz que: 1) o peso do ritual é brutal e as coisas não funcionam tão bem como deviam 2) pode não fazer-se nada como deputado ou pode fazer-se imenso como deputado. 3) não se governa a partir do parlamento, ou seja, a ilusão de mudanças rápidas geradas no hemiciclo seria uma ingenuidade.

Basta um debate no parlamento para perder a inocência de estreante. Basta olhar para o hemiciclo para perceber que aquelas pessoas gostam tanto das redes sociais como nós e que também bocejam sem tapar a boca. Em determinados momentos tudo aquilo parece inútil, como se fosse um teatrinho para as câmaras. Noutros momentos parece solene, tão decisivo e imponente como as escadarias do edifício.

No corredor deserto António Leitão pára de falar porque aparece José Sócrates acompanhado de seguranças. Diz-nos: “Boa tarde”. E em seguida comentamos a resiliência do primeiro-ministro. Sócrates regressa minutos depois. Voltamos a calar-nos. Vejo-o caminhando, sozinho, afastando-se sobre o tapete vermelho, sem a escolta dos seus ministros no hemiciclo, e lembro-me que o chefe de governo gosta de Fernando Pessoa. “O que há em mim é sobretudo cansaço/ Não disto nem daquilo,/ Nem sequer de tudo ou de nada:/ Cansaço assim mesmo, ele mesmo,/ Cansaço”. Só agora me dou conta que o cansaço não é apenas do primeiro-ministro, é um cansaço antigo que está nos retratos de todos os mortos pedurados no parlamento, na cara de parvo de D. João VI, no olhar assertivo de Sá Carneiro, no público nas galerias, nos deputados que acumulam legislaturas, na nação que está a ser debatida, “um supremíssimo cansaço./ Íssimo, íssimo. íssimo,/ Cansaço…”.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Polvo ataca Ronaldo Jr., crónica no i




O polvo vidente Paul desapareceu do Sea Life Aquarium. Os primeiros dados apontavam para que Paul, que nos últimos dias encheu páginas de jornais, tablóides, revistas e abriu noticiários em todo o mundo, disputando manchetes com o filho de Ronaldo, tivesse um esgotamento nervoso por causa da fama súbita e, tal como Zé Maria, vencedor do Big Brother, deambulasse perdido pela cidade com um gatinho ao colo. Paul, a quem um psicólogo televisivo diagnosticou um terrível medo de falhar, chegou a ser ameaçado por neo-nazis após prever que a Alemanha perderia para a Espanha. Este cronista soube, através de uma fonte do aquário, conhecida como Navalheira, que a família suspeitava de rapto. Uma ministra espanhola chegou a pedir medidas de protecção para Paul – “Para que os alemães não o comam” – e Zapatero sugeriu uma equipa de resgate. Tarde de mais. Paul desapareceu no dia em que Ronaldo regressou a Portugal, após férias em Nova Iorque. A conversa do jogador com a namorada, no Facebook, através da qual ficámos a saber que ela desconhecia a existência da criança, foi ultrapassada e o casal visitará a família do craque. Esta madrugada, uma fã de Ronaldo entrou na propriedade e colocou o refém, Paul, junto do bebé, gritando: “Diz-me se foi inseminição artificial ou descuido?” Paul assustou-se com tantos fotógrafos e atacou a criança. A fã foi convidada para aparecer na Playboy. Espera-se que Ronaldo actualize o seu estatuto no Facebook para sabermos mais sobre o assunto. Mais, queremos mais. Sempre mais.

Manual de sobrevivência, crónica sobre calor, no i


Se tens o corpo em chamas respira como quem mergulha. Desvia-te do alcatrão de melaço onde os carros se afundam, escorrendo ira e borracha. Evita o reflexo incendiário das montras, os bancos públicos de metal, o telemóvel a carburar na orelha. Não te aproximes do fogão e escolhe uma dieta de frigorífico. Come fruta com as mãos e bebe água gelada de seguida. Sintoniza um posto de rádio em que toque uma trompete, um saxofone, uma preta com fumo na voz e crimes passionais na garganta. Não tenhas medo de estilhaçar o gelo com os dentes nem da surpresa dos regadores da relva. Desliga a televisão caso uma repórter faça perguntas, sobre o calor da tarde, a uma mulher que não pára de cavar o campo. Uma mulher que, pressionada pelo microfone – “Responda com sinceridade” –, levanta a cara escondida na sombra de um panamá: “Nós fomos criados assim.” É normal que, depois de ouvir isto, o corpo te pese ainda mais. Por isso, abre a torneira e esconde-te debaixo de água, telefona ao amigo que tem uma piscina, executa uma fuga na direcção das ondas. Não tenhas medo da procrastinação em lume brando porque o calor é um extraordinário criador de memórias. Foi em dias assim que te atirastes da rocha mais alta, que te deixaram andar de bicicleta durante a noite, que a irmã do teu melhor amigo, mais velha quatro anos, te encostou no mármore das escadas e praticou contigo a arte dos beijos na boca. Não te assustes se, por estes dias de calor cardíaco, te achares quieto por umas horas. Porque é exactamente destes dias que te vais lembrar.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Dia de jogo na crónica do i


La cogida y la muerte

Gosto de Espanha, das sombras do bairro de Malasaña durante a sesta e do furor dos madrilenos assim que o sol começa a baixar e as mesas se cobrem de copos. Gosto de “tortilla de patata”, de salmorejo e de tabaco Fortuna. Gosto dos pátios de Córdoba, das praias de Tarifa, da sidra asturiana que sobe ao cérebro como uma bala de prata. Gosto da auto-estrada para Sevilha, os seus puticlubes com neons na berma, ondas de calor a estremecer como água na planície, uma mulher a dizer-me: “Uma esplanada às sete da tarde, com este calor? És louco?” Gosto da palavra “Joder”. Gosto do matador José Tomas, porque mostra uma entrega, em cada movimento da muleta, que poucos humanos conseguem pôr naquilo que amam – e porque uma mulher lhe gritou: “Me has arrancado mi corazón y ahora lo tengo en un puño”. Gosto das palavras espanholas de Juan José Millás, inscritas na carne da memória como um bisturi que também cicatriza. Gosto da aldeia de Castela La Mancha onde os velhos me falaram da guerra civil. Gosto das praias pintadas por Sorolla e das mulheres que atacam, seguras, nos seus saltos altos. Gosto muito de Espanha e do poema de Lorca, “La cogida y la muerte”, que diz que “a las cinco de la tarde eran las cinco en punto de la tarde”. Mas, ao contrário do que diz o poema, a criança não aparecerá com um lençol branco – aparecerá um homem português, vestido com a cor do sangue derramado na praça de Lorca. Hoje, às sete e meia em ponto, não serão as hastes do touro a penetrar o coração. O sangue – España, mi amor – estará dentro da tua baliza.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Noite em branco, reportagem publicada na Index, revista do i


Um homem que sai sozinho à noite, com calças brancas, não pode recusar a bondade dos estranhos. É por isso que estou na rua, entre espanhóis que me oferecem bebida, comida e cigarros. Começo a ficar menos consciente da minha roupa de primeira comunhão porque eles, tal como eu e outras quinze mil pessoas, se vestiram de branco para entrar na festa Sensation White, no Pavilhão Atlântico. Samuel Prieto é o líder do grupo de andaluzes. Tem o peito largo, o cabelo com gel, uns óculos escuros pendurados na gola da t-shirt. Quero fazer-lhe perguntas mas Samuel não descansa enquanto não mastigo a tortilha de batatas da sogra. E faz piadas: “A minha sogra é uma grande tortillera” – em castelhano tortillera também quer dizer fufa. Os espanhóis chegaram de Huelva. Têm três geleiras com comida e um bar na carrinha estacionada ao lado do Pavilhão. O rádio toca música electrónica para quem passa, como num arraial – a batida é um coração gigante a pulsar nos tímpanos. Depois de mandar a namorada servir-me uma dose (dupla) de rum, Samuel diz: “Gastámos 200 euros por cabeça, incluindo o bilhete, que custou 65, eu gastei 400 porque paguei a parte da minha namorada.” Não há crise económica em Huelva? “Tenho uma empresa de ar condicionado num sítio onde faz muito calor.” Samuel pergunta se quero outra bebida.

Em Huelva, dizem, não há tanta variedade de gente, nem aparecem Dj’s de primeira linha. “Não há afluência [de pessoas]”, conta Samuel. Olho para a roupa e atitude de uma das miúdas espanholas, com óculos de massa, que podia ser estudante de belas artes em Berlim, e percebo que a globalização é um facto consumado. Huelva pode não ter festões cosmopolitas, mas tem internet. Só o sotaque andaluz, tão sibilado como uma lâmina na pedra do amolador, denuncia as origem dos viajantes. Eles podem ser de Huelva, mas apresentam-se como num vídeo clip. O que procuram? “Pasarlo bién”, respondem. Ou seja, curtir largo. Grato ao meu anfitrião, ofereço-lhe um cigarro. Samuel, o macho alfa generoso, diz: “Obrigado mas não fumo lights”, e saca de um Malboro a sério. Já começou o espectáculo de abertura e a nave mãe chama os seus discípulos. Há filas para entrar.

Estou no salão vip delux como num céu almofadado, envolto na gaze branca com que o rum duplo embrulhou o meu cérebro. Tudo é branco e vasto e cruzo-me com meninas de calções curtos e asas de anjo prateadas. Têm ancas estranhamente magras e pernas longamente jovens. Pergunto-me sem têm idade legal para estar ali (“Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. Lo. Li. Ta.”) Tem lógica. O tema da festa, “Wicked Wonderland”, mistura sonhos infantis, alusões ao País das Maravilhas, borboletas, fatos teatrais, cintos de ligas e uma ou outra prática de dominação – mais tarde, no palco, bailarinas irão passear outras bailarinas pela trela.
Saio da calma vip (ainda é muito cedo) e enfio-me pelos túneis brancos, piso alcatifa branca, e entro por fim na escuridão momentânea da pista de dança principal. Depois as luzes acendem-se, o som é poderoso, o cenário imperial. O espectáculo está no palco, no centro da pista. Milhares de pessoas de branco dançam viradas para o Dj. Lisa Stutterheim, mulher do criador da festa, tinha razão quando disse: “Não é uma rave, é um cruzamento entre um concerto, o Cirque Du Soleil e um evento de dança.”

Embora com roupa da mesma cor, todos os participantes querem ser diferentes, saciando na pista a necessidade humana e contemporânea que ordena: sintam-se parte de alguma coisa comum mas desenvolvam uma identidade distinta. Esta é a tribo Sensation White: irmãos de branco durante algumas horas, fiéis da música electrónica, seguidores de Dj’s celebridades, hedonistas imediatos, dançarinos furiosos, sedutores à espreita, exibicionistas aperaltados, utilizadores do corpo com claras noções dos benefícios do pecado, cada um sentido-se singular e contrariando as certezas de Tyler Durden: “Não és especial. Não és um floco de neve bonito e único.”

Fuck Tyler Durden – as pessoas na pista não vieram ouvir sermões. Vieram, já se sabe, para curtir. Este é o nosso coliseu romano. Não matamos cristãos nem aplaudimos gladiadores. O espectáculo agora somos nós, o nosso corpo a subir com a música, o culto do eu e dos acessórios de moda: rapazes de t-shirt de alças com lentes de contacto que imitam os olhos dos vampiros, um homem de saias brancas e cabelo de Jesus Christ Super Star, negros com máscaras venezianas brancas, milhares de óculos escuros, a ocasional Monica Selles com roupa de jogar ténis, o rapaz com chapéu de basebol largo na cabeça e atitude de gangster rapper, as duas miúdas que posam uma para a outra, as duas miúdas que se beijam na primeira de várias cenas girl on girl. E para que tudo seja mais especial e memorável, há sempre telemóveis levantados entre a multidão para filmar o palco, os fogos de artifício, a própria multidão aos gritos.

Horas mais tarde, no camarote presidencial, olho para a pista, lá em baixo, e percebo que há tanto de ritual, na forma como milhares de pessoas dançam em redor do altar do Dj, como nos milhões de muçulmanos que todos os anos, vestidos de branco, dão sete voltas a Kaaba, em Meca. André Resende, 30 anos, um dos sócios da Hype, empresa portuguesa responsável por trazer a festa para Lisboa, explica-me o mito fundacional da Sensation White: “O irmão do criador do conceito tinha morrido umas semanas antes da primeira festa. Ele não sabia se cancelava ou não mas decidiu que podia homenagear o irmão se fossem vestidos de branco. É uma forma de recordar o irmão todos os anos.” Essa festa de estreia aconteceu em 2000, em Amesterdão, com 20 mil pessoas no estádio do Ajax. Dez anos mais tarde, a Sensation White acontece também na República Checa, Espanha, Bélgica, Polónia, Alemanha, Chile, Brasil e Russia. André diz que o espectáculo, que dura oito horas, custou cinco milhões de euros a desenvolver. Depois os holandeses vendem-no para diferentes cidades. Duncan Stutterheim, o tal fundador, dono da empresa ID&T, é um dos homens mais ricos da Holanda.

Pergunto quanto custa uma mesa no vip deck, mesmo ao lado do camarote presidencial. André diz: “Três mil e quinhentos euros, para oito pessoas, com direito a oito garrafas.” Quem costuma reservá-las: jogadores de futebol que trazem os amigos de infância, empresas que gostam de mimar os clientes. Durante a noite, há quem compre mais garrafas para as mesas (150 euros) e ofereça 50 euros de gorjeta às empregadas giras. André também me explica, com entusiasmo pelas coisas mecânicas, como funciona a esfera que faz rodar o palco – os amigos alcunharam-no de “Tetris” por estar sempre a organizar geometricamente os objectos em cima da secretária.

Estica o braço para os ecrãs gigantes, para o filme que passa entre a mudança de Dj’s: “É a história de uma miúda, meio inocente, que vai abrindo portas até encontrar o caminho. Em cada porta há um tipo de música diferente, no fim está com outra mulher, vestida de cabedal preto” – nunca uma metáfora pareceu tão adequada para o que acontece durante a noite. Saímos de casa engomados, cheirosos, imaculados, acreditando nas surpresas do caminho, abrindo portas, e acabamos corrompidos, com os sapatos sujos, a roupa colada na pele, o corpo gasto. Não nos enganemos, as pessoas saem à noite para se comerem. Não se trata apenas de sexo, não é isso – pode ser o flirt com os empregados de bar, podem ser os sapatos de salto agulha, pode ser a vontade que gostem de nós, pode ser o jogo da caça, pode ser a dança da namorada que activa o desejo numa relação que dura há sete anos. A noite é uma forma de strip-tease: as pessoas ficam mais acesas, mais vulneráveis na carne, menos domesticadas. E não é por acaso que as meninas que vendem senhas de bebidas têm todas a mesma t-shirt com um decote acentuado ou que as bailarinas no palco estão vestidas como se para acompanhar a excentricidade de Lady Gaga, a rebeldia sexual de Madonna ou as ancas maleáveis de Shakira. O sexo vende, cativa e deslumbra. Quem disser o contrário, na Sensation White, é tolo.

Tudo isto parece evidente para Fred, rapaz educado e de boas maneiras, ex-habitante de outros países, conhecedor de festas internacionais, que sabe que a cumplicidade entre homens se constrói, tantas vezes, a falar de mulheres. E no salão vip delux há muitas mulheres bonitas, celebridades da televisão, meninas betas e de solário, agentes provocadoras por uma noite. Fred diz, com discrição: “Olha aquela”. E, no meio de tantos vestidos curtos e saltos altos, entre pernas morenas e tonificadas, na confusão apetecível de penteados e lip gloss, torna-se difícil identificar a escolhida de Fred, que acrescenta: “É aquela, com as orelhinhas de coelho na cabeça”. Quando lhe pergunto o que acha da festa, ele responde: “É elevar a rambóia de Lisboa a outro patamar.” Resolvo acompanhá-lo no caminho para a pista principal. Ele diz a frase de ordem das noites de dança: “Embora lá para o meio”. Quanto mais perto do Dj mais perto do centro do prazer. Depois perdemo-nos um do outro.

Desde segunda-feira que André Resende dorme num hotel para estar mais perto do pavilhão. Tem poucas horas de sono e ainda que confesse que, ao ver-se de branco, no espelho do quarto, tenha pensado, “Olha o Mickael Carreira”, o casaco e os ténis Converse parecem o uniforme de um empresário da noite de Miami. Desloca-se pelo pavilhão numa trotinete, falando com os colaboradores que precisam de ajuda, sendo parado a cada cinco metros por amigas, conhecidos, funcionários, um careca de gigantes olhos azuis, com pele bronzeada e músculos de legionário no deserto, que mais tarde me dirá: “Esta festa devia ser todas as semanas”.

Cruzamos as entranhas do pavilhão, onde o público não tem acesso, passamos por tubos e empilhadoras, até que entramos numa pequena sala onde um homem gordo escuta as comunicações de rádio. Diz que alguém precisa de uma acreditação. André, o solucionador dos problemas, trata disso e explica-me que tencionava simplificar as coisas desde o início: “Só queria três tipos de pulseiras para as diferentes áreas, mas não conseguimos. Há 16 pulseiras e três acreditações.” O rebanho de quinze mil pessoas precisa de ser distribuido e arrumado. É um monstruoso processo de organização.

Mas por que vem esta gente toda para aqui, dançar, vestida de branco?, pergunto. E André responde: “O que a nossa geração quer é pão e sensations”, e solta uma gargalhada, sabendo que aquilo que disse está entre o slogan de refrigerante e a análise sociológica. Por fim, abandona a trotinete e leva-me para o salão vip. Não nos voltaremos a ver.

Tanto na pista principal como nas áreas vip uma coisa é certa: hoje, os portugueses cuidam mais da aparência. Os espectáculos com passadeira vermelha, trasmitidos na televisão, as revistas de moda, as fotografias de famosos, as lojas globais de roupa, serviram para apurar o estilo. Esta é a geração que nasceu em democracia e para quem a liberdade é também uma autorização para usar o corpo como bem entender, sem restrições morais, com voracidade – seja através do sexo, das drogas, do álcool, da dança, da roupa com etiqueta de marca. Não há, nesta festa, a sensação apocalíptica do fim de uma era, como se o império da boa vida estivesse próximo do fim. Duvido que na pista alguém pense que os salários irão mesmo baixar, que o modelo social europeu corre perigo ou que as pensões de reforma e as noites de dança estão em risco. Este tipo de festas já faz parte do estilo de vida, como o Natal, as férias de verão, o décimo terceiro mês. São um direito adquirido. Este não é um lugar para a austeridade, é um escape para o excesso.

Já a caminho da saída, encontro um dos espanhóis, de língua alcoolizada, mas ainda capaz de dizer: “Perdi-me dos meus amigos, é impossível achar alguém aqui, estão todos vestidos de branco.” São quatro e meia da manhã, a sobriedade e o cansaço empurram-me para a rua, onde os prédios do Parque das Nações se acumulam como legos mal amanhados, símbolo do mau gosto e da opulência de outros tempos. Não há nenhum prenúncio de austeridade – o que a nossa geração quer é pão e sensations. Vejo uma luz verde, estico o braço no ar, não preciso sequer de gritar a palavra mais importante no fim de uma noite: táxi.