sábado, 20 de novembro de 2010

Carta ao pai Natal

Take It Easy 'Dear Santa Claus' from Marco Espirito Santo on Vimeo.

História de amor, crónica no i



Pilar debruça-se para executar alguma tarefa caseira, o seu corpo entre o computador e José, nunca um obstáculo, o seu corpo dobrado e José dando-lhe uma palmada malandra no rabo, depois o nariz do escritor encostando-se na pele das costas da sua mulher. Ou a voz espanhola de Pilar lendo um livro de Saramago, sobreposta na voz portuguesa de José - é um artifício da montagem do filme "José e Pilar", mas é também a vida real, duas vozes coladas uma na outra, duas línguas entrelaçadas como as mãos que se agarram várias vezes durante a vida e durante um documentário que merece todos os elogios. O tempo aperta e a doença reduz a voz do escritor, ameaçando-o com a morte, com a impossibilidade de escrever mais, de amar ainda mais. Saramago tem muita graça, mesmo muita, como quando, cansado da correria mediática, propõe a história do escritor que mata jornalistas em série. São um casal: Pilar e José discordam um do outro no banco traseiro do carro ou discutem por causa de Hillary e Obama. São um par de namorados: ela apoia-se na porta do quarto de hospital de José, triste e irritada com os jornais que querem escrever um obituário precoce; ele diz: "Se eu tivesse morrido antes de conhecer Pilar teria morrido muito mais velho." Talvez só o amor impeça a morte. Talvez por isso José diga que quer que Pilar o continue. O escritor que vivia desassossegado e escrevia para desassossegar também diz, sozinho e apaixonado, para a câmara: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." E nós acreditamos, nós só podemos acreditar.

Diário de um tatuador


História de uma tatuagem e de um tatuador que já foi mórmone, para ler aqui.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Três crónicas no i


Testículos de bronze, Fado da Sina e Obituário de um adeus

Respira fundo, crónica no i


Porque é fim-de-semana e tens sentido a tristeza gasta de um falhado, sai da cama devagar, abre as janelas e toma um bom pequeno-almoço – omelete de tomate, laranjas espremidas com as mãos, pão alentejano no consolo da torradeira. Depois, quente e preguiçoso, regressa aos lençóis frescos, encontra o teu sítio na almofada e se tiveres a fortuna de poder beijar alguém, pousa primeiro os lábios na curva entre o ombro e o pescoço. Então, ataca, mas que sejas leve, que tenhas tempo para tudo. Mais tarde, já com o coração a reduzir o galope, os músculos em levitação e a boca a pedir água, podes dormir mais. Hoje, não ligues o telemóvel, abdica de narrar a tua vida em emails e redes sociais. Não alimentes a electricidade estática do teu cérebro nem a ansiedade televisiva de querer saber tudo em tão pouco tempo. Tem calma. Caminha longe dos motores, procura um jardim onde ainda sobrevivam buganvílias. Não digas nada. Experimenta viver sem ruído. No final da tarde liga aos teus amigos ou fala com a família. Marca um jantar, pega numa faca e acende o fogão, serve vinho a quem aparecer, toca no corpo daqueles que te fariam falta se ficassem doentes e --------, toca-lhes porque também precisam. Nunca nada é tão dramático como parece. Vai ser fodido, Portugal, mas quando tudo parecer em chamas lembra-te do admirável poder do toque – a cara barbeada do teu pai quando o beijas, a mão que te compõe a franja, um pé procurando outro pé, sobre o lençol, a meio da noite – e talvez percebas que tudo tem que voltar a ser muito mais simples.

Passeio com poeta morto, crónica no i


Era de noite quando Fernando Pessoa me tocou no ombro mas não me assustei. Já tinha lido nalgum relatório da OCDE que os poetas portugueses estão entre os mortos que mais aparecem aos vivos, logo a seguir aos portageiros gregos e aos guardas-nocturnos irlandeses. Disse-me que queria companhia para um passeio. Na Baixa, o poeta comentou que as decorações de Natal pareciam papel higiénico amarrotado e assustou-se com um vendedor de haxixe. Quis mostrar-lhe que o modernismo não era apenas um movimento artístico e entrámos na engenharia fluorescente do metro da Baixa, aproveitando a boleia das escadas rolantes para subir ao Chiado. Emergimos quando passava o eléctrico – um postal da cidade, pensei. Talvez me safe como guia turístico de defuntos. Percebi a vaidade e levei-o aos restaurantes dos Armazéns do Chiado. Disse: “Quereres uma pita?” Fernando Pessoa olhava para as adolescentes maquilhadas e de calções tão curtos como uma peça de roupa que encolheu na máquina. Repeti: “Queres uma pita shoarma?” Ele disse-me que aquele lugar era triste como as casas de pasto onde jantava sozinho do poeta ao ver a estátua de si mesmo. Perguntei-lhe se, no além, era amigo de Van Gogh. Ele desviou a conversa, dizendo que morrera sem pagar uma conta na Brasileira e que era melhor arrepiar caminho. Ponderei perguntar-lhe pela Ofelinha mas tínhamos fome. No Rossio perguntei: “Chamo-te um táxi?” Ele: “Obrigado, mas uma das coisas boas de estar morto é o dinheiro que se poupa em transportes. Isto não anda fácil”. E depois bebemos uma ginginha sem dizer uma palavra.

Marina & Leonid, crónica no i


Na praça do Rossio, ela segura uma câmara fotográfica e pergunta-me: “Do you speak English?” E depois de apertar o botão fico a saber que se chama Marina, que o marido, Leonid, fugiu da Letónia, então URSS, durante a Segunda Guerra Mundial, escondendo o seu sangue judeu no Uzbequistão. Regressou no final da guerra e casou com Marina, também judia – “Ele teve de identificar os irmãos mortos durante a ocupação alemã”. Mais tarde, Leonid serviu no exército soviético junto da fronteira com a China, a mais de nove mil quilómetros de casa: “Era muito duro, demorámos um mês para lá chegar”. Em 1977 Marina e Leonid tinham um filho: “Por causa dele fugimos para Berlim Ocidental. Queríamos que tivesse uma vida melhor”. Marina e Leonid saíram de um país que os tinha sob controlo para um país que, quatro décadas antes, os invadira. Falam de Berlim como a sua casa: “Já voltei à Letónia, mas é diferente, há gente muito rica ou muito pobre, não há nada no meio. Tens de vir a Berlim.” Marina fala um inglês eloquente – “Fiz um curso de línguas” – e os seus olhos agigantam-se ao mencionar o filho: “Estudou hotelaria na Suíça, foi para os Estados Unidos, casou-se com uma israelita e tenho dois netos.” Fala-me da importância da família. Tem tantas saudades do filho. Percebe-se tão bem quando me abraça e se despede e lhe digo: “Goodbye”. Ela responde: “Never say goodbye”. Já em casa descubro que os nazis mataram 90 mil lituanos entre 1941 e 1944. Tanto tempo depois Marina e Leonid estão na praça que cruzo todos os dias. Marina tinha razão: “Never say goodbye”.