Não percam este documentário e ficarão a perceber porque as letras namoram tão bem com as músicas no Brasil. Passa na RTP 2, no domingo, às 15h00.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i

Retrato possível do cérebro do escritor enquanto (mais ou menos) jovem
Parece masturbação mas não é
Não estou aqui para enganar ninguém. Este texto tem o centro no meu umbigo, é sobre mim, fala da pessoa que aqui escreve. Será, como já se percebeu, redundante. Mas não saiam já da sala, ainda que isto possa parecer um teatro de vaidades estranhas. Fiquem mais um bocadinho e aproveitem a viagem no comboio fantasma do parque de diversões para freaks e desadaptados que, por vezes, pode ser o cérebro deste narrador que vos fala.
Talvez a origem desta crónica sirva para diminuir a gravidade do meu exibicionismo: quero escrever sobre o prazer orgásmico de uma ideia. Não se falará aqui de onanismo, mas do deleite do processo criativo de quem escreve. Imaginem-se a marcar um golo, a beijar a boca de alguém por quem estão apaixonados desde o jardim infantil, a ganhar um campeonato de tango, a saltar da prancha mais alta, a entrar na igreja em dia de casamento – basta de imagens estilizadas antes que isto se torne num anúncio televisivo de cerveja. O que quero dizer é isto: dá um prazer do camandro agarrar uma ideia, ver como cresce em poucos minutos ou ao longo de semanas, e depois a explosão, a chave para a última porta fechada, o tal momento Eureka, um shot de qualquer coisa que podia ser bourbon e cocaína e intravenoso de cacau. É tão bom. Ilumina o dia, torna-me mais simpático, mais como gostaria de ser.
Uma história
Passei o dia com senhas na mão, conferindo o número no papel (A124) e no quadro electrónico (A198) – em repartições, nos correios, na Loja do Cidadão, no talho do supermercado. Foi um desses dias de papéis fotocopiados, assinaturas e salas de espera. Não havia nada activo no território criativo da minha cabeça. Eu era o robot programado para desempenhar as mais aborrecidas tarefas no mundo da realidade. No final do dia, chegado a casa, abri as janelas para forçar a chegada do Verão. Não fazia calor mas a luz suavizava os telhados na outra colina, uma palmeira ao longe pareceu-me mais tropical que um coqueiro de catálogo turístico.
Sentei-me ao computador e descobri que o meu pai se estreara no Facebook e queria ser meu amigo. Não quis sequer reflectir sobre a estranheza de imaginar o meu pai a clicar em Likes, a comentar vídeos, a mandar-me despejar o lixo com um post no meu mural. Mas assim que vi um álbum que dizia “Tropa” e outro “Amigos”, com fotografias a preto e branco, escancarou-se em meu redor a armadura de robot dos recados, e acenderam-se todos os pirilampos que habitam o caótico mundo da imaginação intra-craniana.
Eu não via aquelas fotos há anos. Rapazes mais novos que eu, uns putos charilas com cigarros de malandro, sentados em jipes, a fazer poses de galã de cinema. O meu pai num campo pelado com o resto da equipa da Torre muito antes da tropa. O Russo que tinha caparro de Conan o Bárbaro sem recurso a esteróides. Os jeans apertados, os polegares nos bolsos, as popas meladas e inspiradas nos actores que apareciam no ecrã gigante do cinema São José.
Eu já não estava nesta casa, não estava sequer nas histórias que o meu pai me contou e cujos protagonistas apareciam em fotografias digitalizadas e colocadas numa rede social. Desta vez foi rápido (mas intenso). De repente tinha a génese de uma história – uma crónica? Um conto? Um livro? Não me podia distrair, quando estas ideias aparecem como um espasmo, um ataque de coração, uma epifania, tenho de concentrar-me, andar de um lado para o outro, meter os pirilampos em combustão máxima.
E a história foi-se construindo, tomei notas e recorri a outro truque – como se fosse um treino específico para bolas paradas. Quando tenho uma ideia que me entusiasma muito, telefono a pessoas que têm paciência para me ouvir, e conto-lhes a história. O acto de contar a história – como se conta a um amigo algo que nos aconteceu no emprego – e o acto de verbalizar uma coisa abstracta que até então apenas existiu nas sinapses ou em pequenos apontamentos, permitem-me ganhar músculo, preencher lacunas, acrescentar pormenores. É como ir ao ginásio. E aos poucos, como se fosse possível acelerar o processo de crescimento, uma ideia recém-nascida já tem o buço de um adolescente.
Não interessa aqui contar qual a história que construi nesse dia. O que importa é o espanto que sinto sempre que isto acontece, como se pudesse repetir o assombro de uma criança quando anda de moto ou toca na língua de um cão ou pisa a areia da praia pela primeira vez. É sempre bom. É sempre empolgante.
Não posso ser mais exacto quanto ao aparecimento de uma ideia. Há coisas que nem eu percebo. Mas posso dizer que, por vezes, só é preciso uma fotografia de um pai, uma frase graffitada na parede, uma mulher na esplanada, uma janela sobre a cidade para que, de repente, tudo aquilo que se acumulou nas traseiras do coração e da cabeça, se precipite para a sala de controlo da minha vida a fim de activar e telecomandar os pirilampos em chamas.
Como nossos pais
Quando sou arrebatado por uma ideia, depois de repeti-la ao telefone, de tirar notas, há um momento em que a história não aceita mais atenção ou trabalho. Tenho de voltar mais tarde. Por isso, decido celebrar. São coisas pequenas. Fumar um cigarro, sentar-me na praça a apreciar as pessoas, beber cerveja com amigos. Desta vez foi música. Quando falava ao telefone da tal história que aparecera enquanto via fotografias antigas, a minha interlocutora disse, já no final da conversa: “Somos como os nossos pais”, e as sinapses trouxeram de imediato a canção de Elis Regina: “Como nossos pais.” Esse seria o título da história. Desliguei o telefone e fiz algo que não fazia há muito tempo. Fechei as portadas do quarto, pus a música a tocar, deitei-me na cama, apaguei a luz e ouvi a música, uma e outra vez. Ouvi mesmo, com atenção a todas as palavras, ao baixo, à bateria espalhando-se no diafragma, ao poder da voz fumada e vivida e filha da mãe de Elis Regina.
Perdoem-me o exibicionismo. A minha motivação é, palavra de honra, cândida e infantil. Neste tempo de anúncios apocalípticos, em que nos sentimos contaminados pela mentira, pelo desperdício de oportunidades, pelo desgoverno das almas, eu só queria partilhar uma coisa pequena mas que me faz muito feliz. Talvez isso me sirva de atenuante.
terça-feira, 10 de maio de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i

Mulheres sem nome em Nova Iorque
Jersey City
Tinha acabado de chegar, moreno como um mouro, a barba por fazer, escura e cerrada, e as torres tinham caído há três semanas. Estava a viver em Jersey City, a meia hora de Nova Iorque. Entre a minha casa e a estação de comboios, passava todos os dias pelo prédio onde viveram os terroristas do primeiro ataque ao World Trade Center, em 1993. Jersey City tinha lixo na rua, os corredores do supermercado guatemalteco pareciam os corredores do hotel do “Shining” em versão centro americana, e não havia nada para fazer a partir das oito da noite.
Sentia-me estrangeiro. Tinha sotaque, olhava para mapas e procurava o nome das ruas em placas, não percebia a necessidade das sanduíches que pareciam majestosas catedrais da abundância e dos ataques de coração. Não processava o nome de produtos como “I can’t belive it’s not butter”. Não gostava dos polícias nem dos soldados de metralhadora que protegiam o sul de Manhattan nem da mulher que vendia bilhetes de metro e que, sem conseguir perceber a minha pergunta, me tratou como se eu tivesse sarna. Ela era negra e apeteceu-me falar-lhe da luta pelos direitos civis. Eu tinha direito de estar ali. Mas não consegui eloquência nem coragem para sermões. Meti a cauda de imigrante entre as pernas e senti a estranheza de não fazer parte, de não pertencer.
Vivia no primeiro andar de uma casa de madeira. No piso térreo morava uma mulher alta, cabelo grisalho, magra, com uma sala cheia de caixas de cartão. Nunca entrei, mas por vezes falávamos na ombreira da porta. E um dia, ela, que era negra e crescera no sul dos Estados Unidos, contou-me como uma mulher branca lhe cuspiu na cara, castigando-a por ser uma criança negra que se sentara num banco exclusivo para brancos.
Não me lembro do nome da minha vizinha. Tenho pena. Por causa dela senti-me menos estrangeiro. O meu desconforto, nas primeiras semanas naquele país, era muito mais insegurança de menino que estigma xenófobo. Tinha de ganhar juízo, olhar para aquela mulher a quem tinham cuspido na cara, tirar-lhe o chapéu. Pouco tempo depois mudei-me, por fim, para Manhattan.
Sway with me
Tinham passado uns quantos meses e comecei a trabalhar num restaurante. Numa noite de segunda-feira, depois de acabar o turno, cansado, a cheirar a vapores da cozinha, pronto para adormecer no sofá enquanto via má televisão, saí para a rua e lá estava G. – um cliente do restaurante onde eu trabalhava, milionário excêntrico (se fosse pobre seria louco), que um dia me apanhou a ler um livro de Sade e reapareceu mais tarde com as fotografias e o menu do jantar, que tinha organizado em sua casa, em homenagem às obras do fornicador e filósofo francês. Eu estava na companhia de outro empregado de mesa, Frederico, um brasileiro de São Paulo, que cedeu ao encanto de G. quando este disse: “Venham comigo ao Sway, a segunda-feira é a melhor noite. Pago-vos uns copos”.
Sway: discoteca pequena com mesas cheias de pessoas que me pareceram bonitas – estava sóbrio, tinha critério. Sway: uma espécie de speak easy para gente com dinheiro que gosta de bas-fond – músicos, chefes de cozinha, senhores que usam gravata de dia e t-shirts esgaçadas de noite, mulheres que iniciam conversas, que pagam bebidas e que são entusiastas do sexo oral.
G. arranjou uma mesa e apresentou-nos ao grupo. Uma das miúdas, estrangeira como eu, ficou a meu lado e, segundos depois de nos apresentarmos com um aperto de mão, estávamos a beber shots. Eu estava indeciso – ir para casa descansar ou continuar? Precisava de tempo, de ver o que a minha cara me dizia no espelho. Informei-a: “I’m going to the little boys’ room”. Ela respondeu: “Do you want company?”
Nessa noite perdi uma luva, vi o rio Hudson num jardim num sétimo andar, acordei numa casa que não era a minha. Regressei ao meu micro apartamento de manhã, quando as pessoas iam para o emprego. O pequeno-almoço soube-me tão bem.
Stand clear of the closing doors please
Ela entrou na estação 86th Street e sentou-se à minha frente. Não havia muita gente na carruagem e ela não esperou, começando a falar como se nos conhecêssemos do liceu. Estava sem casa, tinha de ir buscar as suas coisas ao apartamento de um amigo, ia a uma festa vestida de cantora pop dos anos 80: “Madonna rules”, e apontou para o seu kit da noite – uns trapos estranhos e sujos, uma mistura de folhos com luvas sem dedos.
Ela era polaca e tinha sotaque como eu. Também me pareceu louca (se fosse rica era excêntrica). Depois pareceu-me apenas perdida, com as unhas sujas e o cabelo oleoso: “Tenho fome, não me podes ajudar com alguma coisa?” Saímos do metro para a superfície. Fomos a um restaurante de hamburguers e ela pediu um menu económico. Não falámos muito e despedimo-nos no passeio. Ela insinuou-se, chegou perto, depois sentiu vergonha quando a tratei como a familiar acabada de chegar à grande cidade. Ela percebeu que eu tinha pena. Foi-se embora zangada.
Voltei a vê-la uma semana mais tarde, na mesma estação. Passou por mim com a mesma roupa e a mesma mochila. Não me reconheceu. Nunca cheguei a perguntar-lhe como se chamava.
Expect the unexpected
Em Nova Iorque a pessoas cruzam-se, tocam-se, indagam quem são os outros habitantes da Babilónia. Falei com gente sem nome enquanto esperava na passadeira pelo sinal verde ou no conforto do café com leite e jornal de domingo nalgum coffee shop. Primeiro a cidade oprime, mostra que somos apenas mais um entre milhares e milhares – uma centopeia de ambições que todos os dias se agita, criando uma efervescência de ideias e negócios e grandiosas histórias de amor, de sucesso e de desgraça. Mas depois a cidade ensina-nos a ser mais disponíveis, a perceber a quantidade de histórias que acontecem a todo o momento, e andamos mais curiosos, queremos conhecer quem viaja a nosso lado no metro, saímos de casa a pensar que qualquer improvável coisa pode acontecer. Nova Iorque enlaça-nos pela garganta, obriga-nos a viver.
Cheguei a Jersey City a sentir-me estrangeiro e saí de Manhattan, anos mais tarde, seguro de que pertenceria para sempre àquela cidade. Nova Iorque é agora como uma mulher sem nome. Há anos que não a vejo, que não falo com ela. No entanto, sei que se nos sentássemos na mesma carruagem de metro, se nos cruzássemos nas escadas do prédio, se dormíssemos juntos na primeira noite, retomaríamos a conversa onde a deixámos, disponíveis para a vida, prontos a ser parte do enredo, prontos para tudo.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Feira do Livro
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i

Dois contra dois com balizas pequenas
“O futebol é a recuperação semanal da infância”
Javier Marías
Há qualquer coisa que se desmancha quando percebemos que, caso se tivesse concretizado o sonho de sermos jogadores de futebol, estaríamos agora no final da carreira ou nos primeiros anos da reforma. Olhamos para os atletas em campo e, fossemos nós jogadores da nossa equipa favorita, estaríamos no banco, seríamos o decano do plantel que entra a cinco minutos do fim para ser aplaudido. Mesmo que joguemos com amigos em campos de relva sintética uma vez por semana, há qualquer coisa que se desvanece no ego futebolístico quando percebemos que a nossa carreira imaginária – com golos na final do Mundial e, pelo menos, uma Bota de Ouro – chegou ao fim.
Sabemos que jamais poderemos reviver as tardes no alcatrão da rua, com pedras ou mochilas a servir de balizas, bolas defeituosas que desapareciam no quintal de algum vizinho maldisposto, o corpo incansável durante tardes inteiras – mais uma finta, mais um sprint, mais um corte de carrinho e os joelhos raspados. Perdemos o fulgor dos jogos na praia, com os pés doridos e as pernas pesadas na areia molhada da maré baixa, quando um golo de calcanhar, num “muda aos três acaba aos seis”, fechava o encontro e autorizava os corpos cansados e quentes a esfaquear as ondas. Será difícil experimentar outra vez a vergonha de falhar um penalti, o desespero de pontapear lama nos pelados em manhãs de chuva ou a ansiedade no dia antes do jogo, a preocupação com o equipamento, as caneleiras e as meias e a camisola, o nosso número nas costas.
Não voltaremos ao recreio da manhã onde se jogava aos centros, ao torneio de futebol de salão onde estragámos um joelho, ao descontrolo dos gritos e da corrida sem destino certo quando se marcava um golo num clássico entre escolas rivais.
Mas temos outras coisas. Coisas que não se despegam de nós por mais anos que passem e os tornozelos não aguentem mais que três toques na bola e o coração entupido impeça que vejamos os jogos importantes do nosso clube. Sabem do que falo. Conversas com amigos sobre o penalti falhado do Veloso, o empenho canino de Jaime Magalhães, as fintas fotocópia do Paneira, o golo bala de Figo contra a Inglaterra no Euro 2000 – qualquer coisa que resgate da memória factos dispensáveis mas tão importantes. Não sabemos como armazenamos dados e pormenores de histórias que aconteceram há tanto tempo – Platini a beijar a bola antes do penalti em 86, Chalana a partir a loiça em 84, Zidane a mostrar o seu futebol matrix slow motion em 98.
Resgatamos, com os amigos, informações e recordações de jogos do Euro de 88 como quem troca cromos – aquele golo de Van Basten, sem ângulo, tão espantoso como um quadro de museu ou a estreia no território dos soutiens desapertados. Esta é a nossa forma de comunicarmos. O nosso passado em comum – como aquela noite de chuva torrencial em que andámos de moto e comemos numa pizzaria do Estoril e quase houve porrada entre amigos: Sporting 3 – Benfica 6.
Mas aquilo que temos é mais do que a compilação de factos e histórias, é um impulso que precisa de ser satisfeito. Por exemplo, se descemos a rua e reparamos num café onde passa futebol, olhamos para a televisão tentando encontrar o resultado no canto do ecrã. Gostamos de entrar num táxi a meio de um relato e ficar atentos enquanto não chegamos ao restaurante. E quando chegamos a casa, depois de um dia cruel trabalho, prontos para comer o que seja e aterrar onde seja, se por acaso percebemos que vão passar os resumos da Liga dos Campeões, perdemos o sono por, pelo menos, meia hora.
Talvez seja a pulsão de regressarmos ao tal lugar onde fomos felizes – a bola no pé direito, uma tabelinha, outra vez em mim, remate cruzado ao ângulo, a pulsação a galopar em todos os músculos. Esse lugar onde nada mais importava que a bola, sem contas para pagar, sem medo das feridas por fora e por dentro do corpo, e com a certeza que um dia jogaríamos na Luz, em Alvalade, na Antas, no Maracanã.
É um impulso ainda mais incontrolável se temos uma bola ao alcance do olhar. Se alguém na praia chuta uma bola para junto de nós, corremos para devolvê-la, pomos empenho no passe, regressamos felizes. Se os putos jogam na rua, desejamos que alguém com menos pontaria chute na nossa direcção. Pisamos o esférico com o pé e atiramos para o lado direito do guarda-redes de rua. Se os sobrinhos têm uma bola mínima, que faz trajectórias escanifobéticas, organizamos logo um concurso de penaltis – e não vamos à baliza.
Porque o tempo passa, porque temos outros interesses na vida, mas também por causa do lixo verbal e das manhas dos dirigentes, por causa da boçalidade animal das claques, alguns de nós fomos perdendo o interesse obsessivo pelo futebol. Mas esperamos ainda encontrar todas as semanas o assombro de uma finta, de um petardo de fora da área ou de uma defesa com a ponta dos dedos de um guarda-redes com lombares de gato.
Já chorámos depois de uma derrota da selecção, já perdemos a cabeça, a voz e a compostura, já fomos tão incendiários e idiotas como os presidentes dos clubes. Mas isso é apenas folclore. Aquilo que mais interessa está nalgum fim de tarde, quando o carro passava na rua e por fim podíamos regressar ao jogo e marcar o livre. Tínhamos a boca seca e uma ferida em chamas na coxa, ainda com marcas do asfalto. Havia suor nas patilhas, a nossa equipa jogava sem t-shirt, os ténis sobreaqueciam, e queríamos bater a bola por cima da barreira. Faltava pouco para que alguém nos viesse chamar para casa, a comida está na mesa, não te volto a avisar. Faltava pouco para ficar escuro e havia um livre para marcar.
Aquilo que mais interessa hoje, quando vemos Messi ou Ronaldo ou Xabi, é que eles sejam sempre essa tarde de futebol na rua quando batemos o livre e – estas coisas sabem-se – já estávamos de braço no ar quando a bola passou entre uma mochila do He-Man e o guarda-redes sem luvas. Depois disso, não precisávamos de mais nada para saber que íamos ser felizes na final do campeonato do mundo.
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