sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A gerência informa


Por motivos de escrita maior (espera-se), nos próximos três meses este blog estará tão intermitente como o sono do meu avô durante um filme - "Hã, então mas este não era mau?"; ou: "Já acabou?"; ou: "Devia ter ido para a cama".

Voltarei ocasionalmente, mas não prometo nada. Despeço-me com um conto antigo, de 2005, publicado numa antologia com ilustrações do pintor Pedro Zamith.

É sobretudo quando chove (ou faz calor) que mais me esqueço de ti

Entregaram-me, num envelope castanho, o dia em que o detective M. recebeu no seu escritório uma cliente pela terceira vez. Para ser mais correcto, recebi apenas uma hora e trinta minutos desse dia, em cassetes audio, com o som dos acontecimentos que resultariam na ressureição do detective M. – um ex-artista sem obras expostas, um combatente da ditadura cujo polegar direito fora arrancado pela Polícia Política, um adorador das tarefas domésticas como forma de diversão, e que mais tarde apelidou o dia gravado nas cassetes como “O meu renascimento”.

Confesso que esta não será a transcrição exacta do que ouvi nas fitas magnéticas, não sou jornalista nem fanático da verdade (sou escritor e já fui protagonista de cobranças difíceis). Neste meu relato aparecerão coisas que sabia antes da chegada das cassetes, e outras que pesquisei depois, e ainda outras que são apenas a manifestação das minhas características literárias. Sempre preferi construir os outros (ou destruí-los), escrevendo textos ou embatendo com tacos de madeira nos joelhos daqueles que não queriam pagar as contas. Esta é a minha versão dessa hora e meia numa cassete, quarenta e cinco minutos de cada lado, dois protagonistas naquela sala, e um terceiro, ausente, embora tenha sido o principal impulsionador do que ali se passou.

Lado A

O detective M. fumava muito mas lavava os dentes seis vezes por dia. E ela, que nunca fumou, pediu-lhe um cigarro. Nesse momento, porque se julgava a cometer uma transgressão, aquilo que parecia ser um fio cheio de penas roçou-lhe o interior do estômago, como nas descidas metálicas das montanhas-russas. Ela sentira o mesmo em outras ocasiões – na noite em que uma colega de liceu, que dormia em sua casa, lhe despiu o pijama e lhe provou a boca; ao entrar na casa de banho onde se estrearia a cheirar cocaína (nunca mais o fez); quando roubou uma garrafa de vinho num supermercado porque se esquecera da carteira e não queria aparecer num jantar de amigos sem um presente.

O detective M. levantou-se e acendeu-lhe o cigarro (o isqueiro era um artefacto dos tempos da resistência; ele sempre guardara objectos prosaicos como se administrasse monumentos nacionais). Quando passou por de trás da cliente para lhe mostrar as provas, apercebeu-se, mais uma vez, que esta era uma daquelas mulheres que depositam o próprio aroma (mistura de pele, perfume, produtos de beleza e maquilhagem) em tudo aquilo que tocam. Ele sabia que o cheiro dela ficaria ali, e que daria por si, sozinho no escritório, debruçado sobre uma cadeira, inalando a ausência de uma mulher.

Ela esticou as pernas para a frente, paralelas, juntas, como uma criança exibindo um truque que aprendeu na aula de ginástica, e nas canelas morenas, com o brilho do creme hidrantante, resplandeceu um gume de luz:
Porque não bebemos alguma coisa?

O detective não chegou a retirar da estante a pasta com as fotografias (Provas Número 1 a 14). Olhou para os dedos da mulher: verniz sem falhas, unhas de quem toma vitaminas. Reparou ainda na pele bronzeada, na tonificação dos músculos, no penteado de cabeleireiro. Não havia uma pista (olheiras, uma pausa demasiado longa entre duas frases por causa do cansaço) que indicasse que ela tinha filhos. Não trabalhava e passava muito tempo no sofá. Tinha-se casado imaginando férias com amigos, jantares de gala, quartos para as crianças, a sublimação de todas as revistas de moda, de decoração e das promessas do marido – esse lado redondo e cénico da vida familiar que nunca conseguira reproduzir.

Na carteira da mulher, semi-aberta, o detective podia ver o cartão do ginásio, os anti-depressivos, uma lamela de pílulas – “Talvez ainda mantenha relações sexuais com o marido”, pensou ele, triste, como se escrevesse um relatório com o qual não concordava. Mas o seu desagrado modificou-se ao perceber que o estojo de maquilhagem da mulher estava no topo de todos os outros objectos. Concluiu: “Maquilhou-se para mim antes de entrar no escritório”.

O detective viu então como ela rodou a cabeça para estudar a sala, como se fixou no sofá e, ainda em pé, passou a mão no tecido, avaliando a qualidade das almofadas – um gesto doméstico, de mulher, não de potencial amante. Sentou-se mas não desceu a saia para o joelhos, não se protegeu:
Dorme aqui?
Se tenho muito trabalho.
Quantas mulheres dormiram aqui?

O detective sabia que não tinha respostas originais, que nenhum dos objectos no escritório se assemelhava a uma relíquia. Ele fazia sopa todos os domingos e ia almoçar a casa nos dias de semana, descascava as maçãs com um canivete de bolso, não as mordia. Era o homem na mesa do lado, num restaurante, no qual não reparamos, mesmo que jante sozinho, cortando o bife em pequenas partes antes de mastigar, olhando as migalhas dentro do cesto de pão. Ele era o elemento da antiga resistência que apenas tinha como missão entregar mensagens (“És o mais normal”, diziam-lhe). Mas foi também o que mais suportou a tortura porque sempre acreditou na correcção dos seus actos, fazer bem aos outros, afastar-se daqueles que poluem o mundo, pessoas que magoam e cujas mãos deixam cicatrizes. Quando a mulher com quem se casara saiu de casa, ele deixou-a levar todos os electrodomésticos. E no dia em que percebeu que, se mostrasse as fotografias a um cliente, poderia causar um homicídio e obrigar duas crianças a crescer sem mãe (provável vítima de um crime passional), destruiu as provas – porque mesmo quando mentia, o detective M. queria apenas respeitar a bondade que sempre considerou necessária aos homens.

Ela apanhou o cabelo porque fazia calor. Levantou-se e disse:

Tenho sede, tem alguma coisa com álcool?

E pela primeira vez em muito tempo, olhando as alças do vestido da mulher, o detective percebeu que o seu sangue, as suas entranhas, a agitação das virilhas fariam dele um inevitável executor das acções incorrectas, um protagonista dos actos condenáveis segundo as regras dos homens bons.

Lado B

Não falarei dos sons da segunda parte da história, da possibilidade de terem utilizado o sofá ou a carpete, dos vestígios que o sexo deixa na roupa quando nos voltamos a vestir. Ela tinha estado ali duas vezes, apenas para se preparar, para descobrir alguma ternura nas coisas que ele utilizava todos os dias, para conseguir desejar um homem desconhecido que tinha contratado para provar a infidelidade do marido, o mesmo homem desconhecido que decidira usar para punir a traição conjugal. Ela era uma mulher que não acreditava na facilidade ou na satisfação do sexo com estranhos, por isso teve de conhecer o detective nesses encontros profissionais, perceber a arrumação alfabética dos livros, os retratos que ele desenhara há anos e que ninguém elogiara, a solidão de uma sandes embrulhada em papel de alumínio, numa gaveta semi-aberta, as canções antigas que ele ouvia na rádio, as mãos cuidadas embora pouco acostumadas a mulheres nuas. Naquele dia ela estava pronta para se despir diante de um estranho que começava a parecer-lhe familiar, e talvez por hábito (ou para tornar a punição mais elaborada) gemeu o nome do marido (o meu nome) e disse, no meio da acção das bocas:
Hoje cuidas de mim como nunca cuidaste.

Eu tinha traído a minha mulher algumas vezes e de forma ordinária, rápida, em móteis, no meu carro (com uma estudante universitária, com uma das monitoras do ginásio, com a minha dermatologista), e era demasiado vaidoso e masculino para pensar que ela poderia descobrir estes encontros ou que resolveria fazer o mesmo (com um detective que pintava o cabelo).

Quando recebi as cassetes ela não estava em casa. Enquanto as ouvia experimentei o descontrolo do corpo, perdi o sentido de orientação, caminhei pelo corredor, entrando nas diferentes divisões como se tivesse uma tarefa a cumprir mas não me lembrasse do que era.

Pensei qual teria sido o dia do encontro gravado nas cassetes. Talvez ela tivesse vindo para casa e dormido a sesta. Talvez eu me tenha sentado na cama, como fazia tantas vezes, admirando-a, assustado se por acaso o tempo entre a expiração e a inspiração se alongava. Em nenhuma outra ocasião, a não ser quando ela dormia, eu me sentia culpado por ter estado com outras mulheres.

Por mais que soubesse que ela perdoaria as minhas infidelidades, a minha biologia não me permitia fazer o mesmo. O meu corpo (óptima desculpa, o determinismo biológico) obrigava-me a querer partir objectos, a humilhá-la, a fazê-la sofrer quando percebesse que eu sairia de casa sem sequer a confrontar. Primeiro, agarrei em toda a sua roupa interior e nos lençóis da nossa cama e meti-os em alguidares, despejando-lhes em cima um garrafão de lixívia. Depois, fiz as malas e, quando desci as escadas, ela esperava-me no sofá, não com a sobranceria de quem ganhou uma luta, mas com pena, lamentando as nossas insuficiências, a nossa vulgaridade, a certeza de que éramos representantes das falhas mais convencionais e desinteressantes do seres humanos.

Eu olhei-a sem me mexer, quase sem respirar. Mas, embora quieto, era como se levantasse a mão para lhe bater e, abanando a cabeça, baixasse depois os dedos, desprezando a própria agressão. Entrei no carro (não me lembro de alguma vez ter feito essa viagem) e estacionei em frente do escritório do detective.

Ele prometeu-me que nunca mais se encontraria com a minha mulher (por integridade de carácter, não por medo), e tentou explicar-me que de todo aquele mal surgira o bem (“O meu renascimento”). Mas eu sabia que era pior pessoa que o detective M., que todo aquele mal me obrigava a espatifar-lhe a cara e a lançar para o chão todos os seus livros organizados por ordem alfabética, bem como (infantilmente) a urinar no sofá e na carpete do escritório.

Passaram-se, para mim, dez livros escritos, mais dois casamentos e quatro filhos (dois de cada mãe), mas por vezes, como neste dia em que choveu muito no final da tarde sem que o calor desaparecesse das ruas, ou quando a minha família passa fins-de-semana fora e os domingos me impedem de escrever, percebo que as minhas mãos têm agora menos mal, que não seguram sequer com força os braços dos meus filhos se por acaso começam uma luta no banco traseiro do carro; percebo que hoje, caso aparecesses, teria alguma coisa para te dizer, que não ficaria quieto na porta da sala, que talvez te confessasse que escrevi todos estes livros para que percebesses que fiz alguma coisa, ou para te mostrar aquilo que perdeste (que eu perdi, que eu perdi), ou para que ao menos me escrevesses uma carta com a tua morada no envelope. É por isso que me quero esquecer de ti, porque se aparecesses lá em baixo, na sala onde os meus filhos acabaram de entrar, chamando-me aos gritos, e onde minha mulher levanta o tabuleiro com restos de comida que deixei no chão, alguma coisa dentro de mim se desmoronaria, porque sou muito mais fraco do que aquilo que os meus livros, e os críticos, e os leitores e os meus filhos (“O pai bate em todos”) dizem de mim

Escuto os passos rápidos mas leves na madeira das escadas, a velocidade dos seus pequenos pulmões, um brinquedo chutado pelo chão. Os meus filhos (que acham que sou estranho porque não tenho chefe e saio pouco de casa) correm, saltam-me para o colo e agarram-me o pescoço. Esperam (é o nosso jogo) que eu lhes morda a barriga. O calor da noite humedeceu a pele das crianças, reforçou-lhes o doce cheiro da pele e molhou-lhes o cabelo nas patilhas e na franja. E é nestes momentos que eu mais tenho de me esquecer de ti, percebes?

2 comentários:

Miss Gordon disse...

vais desaparecer ainda com mais empenho?
tentei falar-te
tinha umas opiniões
mas já sabemos o que se diz destas
e não quero interromper o frenesim literário.
b.

busycat disse...

Esperarei pacientemente.

beijo
Até breve