terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Première


O guionista, vestido como guionista – jeans, camisa preta, casaco preto – passa por trás dos fotógrafos e ao lado da passadeira vermelha (e vazia) no cinema São Jorge. Os flashs esperam por Soraia Chaves e os restantes membros do elenco. Tiago Santos, guionista do filme “A Bela e o Paparazzo”, está mais preocupado em saber se os pais têm lugar para ver a ante-estreia do filme que escreveu para o realizador António Pedro Vasconcelos. Tiago, com quem partilhei uma casa em Nova Iorque, podia ser o detective de um romance negro – silencioso, ácido, reservado. Pergunto-lhe se tem dado muitas entrevistas. Parece que não. E quando as revistas cor-de-rosa se interessam por ele, costumam perguntar-lhe pela vida romântica. Se abre a boca, alguma coisa vai abaixo: “Vou perguntar-lhes se também querem saber se sou circuncidado”.

Estamos no bar de um restaurante, antes da première, e o que conseguimos de mais glamouroso são os dry martinis em cima do balcão. Depois, alguém julga ver um finalista do Ídolos. Tiago, que escreveu um filme sobre a fama, diz: “Só escrevia telenovelas se tivesse que suportar um vício de heroína, jogo e prostitutas”. Ser guionista de cinema em Portugal é mais ou menos como ser a equipa jamaicana de bobsled.

No filme, a personagem de Soraia Chaves cita uma peça de Tchekov: “Percebi que, no nosso trabalho, o que é importante não é fama, nem glória, nem nada do que eu sonhava - o que é importante é conseguir aguentar.” Well, Mr Screenwriter: it beats working.

2 comentários:

Gustavo Gouveia disse...

enviei um mail há pouco tempo ao Tiago que, um pouco à sua semelhança, escreveu uma das peças mais brilhantes que alguma vez pude apreciar. Tiago que conheci ou reconheci no passado pelo meio de uma das minhas investidas tortuosas pelo ceio da blogosfera e que inclusivé teve a delicadeza de me responder ao elogio que lhe teci; o facto de não o ter feito desta vez leva-me a crer que talvez tenha mudado de endereço e não tenha recebido a minha mensagem, mas se assim for agradecia que lhe transmitisse essa minha mensagem. Que se foda a Soraia Chaves, mesmo sem ela a sua obra continuaria genial=)

kaku disse...

O guionismo, é em Portugal, também uma questão de "luta armada" onde o "bikini waxing" talvez já tenha ganho à camisa, aos jeans e ao casaco preto...