quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Fado da Partida


O meu avô era guarda-fiscal numa aldeia encostada a Espanha onde fazia calor de forno e havia largadas de touros durante o verão. Os miúdos viviam na pobreza descalça de pisar a neve, sem sapatos, no inverno. O meu avô deixou um familiar cruzar a raia a caminho de França. A PIDE descobriu a complacência do meu avô e mandou-o para o castigo de um quartel desterrado, onde não havia aldeias por perto nem familiares aventurosos a caminho das bidonvilles de Paris. Os filhos dos guardas andavam quilómetros a pé para terminarem a quarta classe antiga.

Depois de fazer a guerra em Angola, o meu pai mandou-se para França com uma mulher e um filho. Ganhava mais, podia falar de política em lugares públicos (embora esse não fosse seu hábito), elogiava o sistema de saúde local e talvez tenha pensado em enriquecer. Regressou a Portugal porque a minha mãe não se dava bem com os subúrbios de Paris.

Durante muito tempo o meu pai sugeriu que Truman Capote era da família – tínhamos um tio-avô, de sobrenome Capote, que emigrara para Buenos Aires e depois para algum lugar nos Estados Unidos até que deixou de dar notícias. O meu pai acreditava que o espírito empreendedor e internacional da família tinha, por fim, apresentado resultados grandiosos: um escritor famoso sobre o qual até fizeram um filme com direito a Oscar de melhor actor.

Já vivi em Nova Iorque, Madrid e preparo-me para morar no Rio de Janeiro, mas só agora, muitos anos depois da estreia como emigrante, começo a perceber (a entranhar) uma evidência bem portuguesa – tão portuguesa como é chegar atrasado, desenrascar uma saída num momento de aflição ou ter a habilidade gentil de indicar o caminho certo ou a mesa de casa a um forasteiro. Essa evidência é muito antiga e perpetua-se em nós apesar dos fundos comunitários, dos multibancos e dos hipermercados. É uma evidência que se prolonga na História e se propaga no sangue, algo que se manifesta se ouvimos a voz de Amália no gira discos ou cheiramos as alfarrobeiras a sul ou se a garganta se aperta de tanta beleza numa esquina de luz lisboeta. Essa evidência é mais forte do que aqueles portugueses que a transportam pelo globo, mais importante que o legado da ditadura, a crise ou a globalização. Seja qual for a razão porque saímos deste país – amor, arreliação, aventura, desespero, disponibilidade para a vida – a verdade é que a vontade (ou a inevitabilidade) de partir é tão forte como a certeza que voltaremos um dia, mesmo que não seja para ficar.

Agosto de 2011

7 comentários:

R.B. NorTør disse...

Como multi-migrante, mas menos exótico, subscrevo na íntegra o último parágrafo.

Espero que a estadia em terras de Vera Cruz seja produtiva, porque fazem falta as micro-ficcionadas desde que o i se tornou 'i'tragável...

uma disse...

great!

dg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
dg disse...

é mesmo verdade…

'a latere': faltam páginas ao 'i'. não é a mesma coisa.

teresa disse...

q saudades destas histórias....

omeujornaldiario disse...

Hugo, descobri o seu blog e não resisti a comentar o seu post. Passei o mês de Agosto no Brasil a matar saudades da família e este post veio fazer-me sorrir. Obrigado :)

PS: Boa estadia!!

Jorge Ramiro disse...

É um mundo difícil e às vezes temos que encarar as coisas de que não gostamos, mas então o que vamos fazer. Assim é a vida. No outro dia eu quebrei a casinha para cachorro que eu fiz com minhas próprias mãos. Isso me deixou triste, mas eu fiz outra.