quarta-feira, 8 de julho de 2009

Fado marialva com óculos escuros e after hours


(texto publicado no jornal do Lux)

Querida Lisboa,

A verdade, pelo menos agora, é que me pareceste, durante muito tempo, aquelas mulheres com quem não sabemos se nos apetece ir para a cama e casar no dia seguinte ou bater com a porta, uma e outra vez, até que não voltamos mais. Talvez sinta esta inquietação porque nos abandonámos há alguns anos. Tu estavas certamente cansada das minhas críticas e das minhas ameaças de emigração Eu, de malas feitas, apanhei o avião um dia depois do Natal, seguro de que não eras mais que uma cidade que repetia infinitamente o mês de Dezembro, enrolada numa película de chuva e povoada por pessoas de fazenda, com roupas estioladas – criaturas nómadas que viajam todos os dias entre uma máquina de fotocópias a ranger dos parafusos e um apartamento de três assoalhadas no fim de duas horas de trânsito.

Mas agora, anos depois, regressei, aluguei uma casa com os sinos de uma igreja como banda sonora e começo a descobrir que não ficaste quieta, de socas e bata, apoiando as mamas no parapeito, olhando a vida dos outros na rua e tendo como única companhia o canário que apita dentro de uma gaiola. Em todo este tempo, deixámos de ser crianças envergonhadas, num recreio, que usam um pontapé nas canelas como artimanha de sedução. Estamos mais elaborados nos gestos e na eloquência. Bebemos gin com pepino. Conhecemos restaurantes secretos em outras cidades. Temos amigos estrangeiros. Mas estamos também mais directos ao assunto, mais crus, afinal, com esta idade, não andamos aqui para enganar ninguém.

E é por isso que te digo que gosto outra vez de ti sempre que faz calor e me apareces nas alças dos vestidos das mulheres bonitas que escalam o Chiado, passeando sacos de lojas enquanto caminham para mojitos nalgum terraço ou para lençóis frescos de sesta e beijos na boca. Gosto do teu coração, armazenado junto ao rio e com ruas estreitas. Mas fica a saber que não me interessam as tuas cirurgias plásticas fracassadas, o lego com excesso de peças do Parque das Nações, a geometria certinha de Telheiras, os seus móveis Ikea, os jovens casais, os dois lugares na garagem, a menina dos olhos da classe média com curso superior.

O que não quer dizer que eu não queira que trates melhor de ti. Por exemplo, devias estar menos confiante na decadência das fachadas dos prédios como atributo para atrair turistas. Devias sugerir, aos utentes dos transportes públicos, que usassem gel de banho, desodorizante e respeito pelo espaço pessoal de terceiros. Devias sugerir que os teus habitantes dissessem bom dia, que sorrissem uns para os outros, que passassem menos tempo na sala da televisão e mais tempo na rua. Diz-lhes para começar conversas com estranhos e oferecer aos indígenas a mesma simpatia com que prestam informações a turistas perdidos. Não te armes em moderna apenas porque usas a bijuteria de prédios espelhados e balcões bancários. Cuida melhor das pessoas que aqui vivem. Não sejas tão desconfiada. Dança com mais frequência e deixa as janelas de casa abertas. Melhora o teu jogo de cintura. Disponibiliza-te. Deixa que o meu braço se encoste na base das tuas costas e que os meus dedos se amarrem na tua cintura.

Gosto de ti ao fim da manhã quando, na minha rua a pique, entre roupa estendida e nuvens frenéticas de pombos, aparece o rio ao fundo, garantindo-me que não morrerei de calor e que haverá sempre um barco que possa usar em caso de fuga. Passo pelo barbeiro indiano e pelos seus filhos que já trocaram o cricket de rua pela peladinha futebolística no passeio de calçada. Velhas de roupão e cabelo de almofada comentam, numa ombreira para pessoas tão pequenas, problemas na espinha e a detenção de um neto que usa brincos, boné e dois tubos de escape. Gosto de ti quando cruzo a Praça da Figueira, espelhado na montra da loja o “Mundo das Malhas”, desviando-me dos convites das prostitutas diurnas e da coragem física dos rapazes do skate, manobras que me razam o corpo, a insolência cocktail molotov das letras vermelhas, pós-eleições, pintadas a spray na base do cavalo de D. João I: “64 %, ganhámos outra vez.”

Nos últimos meses, tenho vivido todos os dias contigo. Temos casas separadas, é verdade, e nenhum compromisso que tenha exigido a presença de um notário. Mesmo assim, escrevo-te porque estou estes dias numa cidade fora de fronteiras e quero assegurar-te que não me escapei outra vez. Quero dizer que sim, que gosto de ti, que sou entusiasta das tuas ruas, onde roço ombros com vendedores de haxe, turistas de esplanada e romenos que tocam Sinatra num acordeão. Quero dizer-te que percebo o deslumbramento dos fotógrafos com a tua luz e dos Erasmus com o experimentalismo a céu aberto. Quero confessar-te que me emociono com o som de uma ventoinha, dos talheres a tocar nos pratos, do sotaque brasileiro a cantar na rádio sempre que passo junto a um rés do chão com a porta aberta.

Gosto das tuas meninas betas com tapetes de ioga debaixo do braço e óculos escuros que lhes cobrem metade da cara, gosto dos cyber cafés com paquistaneses que espreitam pornografia no ecrã, gosto dos folhados de salsicha nas pastelarias, das festas ao final da tarde, em casas com pátios, baldes de gelo e crianças despenteadas. Gosto de pensar (embora seja mentira) que Lisboa tem praia. Gosto do apito dos eléctricos que parece a campainha de uma bicicleta. Gosto do momento em que a porta do táxi se fecha e já se pode ouvir a música da pista de dança. Gosto de chegar a casa de manhã. Gosto dos domingos, quando a ressaca é macia e um mergulho basta para nos ressuscitar, e nas ruas não se passa nada, a não ser o barulho distante de uma motorizada e a máquina de café do único sítio aberto. Gosto que sejas toda verão e bolas de berlim e carreirinhas. Gosto que gostes de cama a meio do dia. Gosta que tenhas agora muito mais possibilidades, que sejas mais confiante, que chegues a pedir o número de telefone a alguém que conheceste esta noite. Gosto de ti. Gosto de ti, pelo menos enquanto houver sol.

7 comentários:

Miss Gordon disse...

um texto lindo lindo mr. sheppard
obrigada pela homenagem a esta lisboa que eu amo

Teresa Queiroz disse...

gostei de ler :)

a minha Lisboa, que ao regresso se torna ainda mais luminosa .

pipa disse...

Espectacular, dos melhores que já li aqui. E um sorriso ao ouvir o barulho do eléctrico e da mota ao fundo da rua :)) e a porta do taxi com o som da disco, parecia que estavam mesmo aqui ao lado. Obrigado por estes momentos de viagem.

Cátia Inácio disse...

Parabéns pelo texto, mas principalmente parabéns pelo dia de hoje. Tenho seguido ultimamente a tua escrita atraves do blog, este é sem dúvida dos melhores textos que já li, adorei.
Muitos parabéns.
Bejinhos.
Cátia Inácio

Catarina disse...

Estou agora longe de Lisboa, mas com o teu texto voei até lá outra vez. Também gosto tanto dela! E para mim Lisboa sempre terá praia, para onde migrava de manhã cedo com o guarda-sol e campingás, acompanhada dos meus primos e tios, e de onde voltava com o corpo dormente e a pele salgada para ir dormir a sesta.
Gosto imenso do teu blog.
Beijinhos

Rafaela disse...

Foi o primeiro texto que li neste blog e estou sem palavras...
...após três anos a viver noutro país, em Agosto regresso ao nosso país. E ler este post faz-me querer fazer as malas neste preciso momento, deixar para trás o Duomo, o Coliseu e a pasta al sugo pomodoro e mergulhar em cada 1 dos parágrafos que escreveste. Obrigada.

Pedro F. disse...

QUE BOM!