sábado, 17 de abril de 2010

Algumas crónicas das últimas semanas no jornal i


Das Kapital

Fiquei a conhecer, pelo “New York Times”, as rapariguinhas do shopping da Polónia, que trocam o seu apelo adolescente por peças de roupa, ténis, telemóveis e outros acessórios que providenciam felicidade. Como estratégia de sedução, exibem-se na lojas, procurando homens beneméritos. São pagas em géneros e retribuem nas casas de banho. Vinte anos após a queda do comunismo, a Polónia tenta conciliar a lascívia do capitalismo com a forte moral católica do país. Não está a conseguir. O autor de um documentário sobre rapariguinhas do shopping descreveu assim o seu tempo: “Os centros comerciais tornaram-se nas catedrais da Polónia.” Depois de tantos anos de dieta comunista, os polacos querem coisas. Katarzyna Roslaniec, que fez um filme de ficção sobre as rapariguinhas do shopping, disse ao “Times”: “Os pais perderam o caminho, mais preocupados em comprar uma máquina de lavar ou um carro”. Se o sexo tem sempre mercado, a morte também. Horas após o acidente de avião que matou o presidente polaco, um vendedor de rua oferecia t-shirts com “RIP” inscrito sobre a bandeira. Venderam-se relógios com o casal presidencial, bandeiras fabricadas na China e um site cobrava dez euros para pôr mensagens de condolências num livro. O escritor Reinaldo Arenas fugiu de Cuba para Miami e cedo percebeu uma diferença: “No comunismo dão-te um pontapé no cu e ficas calado. No capitalismo dão-te um pontapé mas podes gritar.” Por mais idealistas que sejamos, a verdade é que, na maioria das vezes, a melhor escolha é um mal menor.

Big Easy

Esta história tem nome de bairro de Nova Orleães – Tremé – e começa três meses depois do furacão Katrina. Uma banda toca na rua pela primeira vez após o dilúvio, as mortes e a ineficácia do governo. Um músico malandro de muitas namoradas chega atrasado ao cortejo com o seu trombone. Dança-se em cima dos cadáveres dos carros e bebe-se cerveja. Esta história não é minha. Pertence a David Simon, que em tempos passou um ano numa esquina de Baltimore para perceber o negócio da droga e as chagas da comunidade pobre. Simon, antigo repórter, mudou-se para a televisão e criou “The Wire”, a melhor narrativa televisiva de sempre. Depois foi viver para Nova Orleães, juntou músicos, habitantes e escritores da cidade, e imaginou a série “Tremé”, que acaba de estrear. Simon está a construir uma obra. Primeiro mostrou Baltimore, onde o sistema – política e narcotráfico – corrompe e esquece o indivíduo. E agora revela Nova Orleães, uma cidade tão antiga como castigada, mas onde os músicos se recusam a arrumar os instrumentos. Na televisão, Simon faz o que a maioria não consegue no cinema ou na literatura. Em tempos explicou que gostaria de mudar a postura do telespectador: em vez de recostado no sofá, queria-o inclinado para diante, atento, intrigado, emocionado com a humanidade das personagens. Comigo conseguiu isso tudo. Esperei a estreia de “Tremé” com a ansiedade de um assaltante. Vi ilegalmente o primeiro episódio na internet (prometo comprar os DVDs). No final dos 118 minutos do primeiro episódio juro que, pelo menos neste caso, o crime compensa.

Estais perdoados


No mesmo dia ficámos a saber que a Igreja Católica perdoa os Beatles e que o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, acredita numa ligação entre a homossexualidade e a pedofilia. A propósito dos 40 anos do fim dos Beatles, escreveu-se no “L'Osservatore Romano” – jornal da Santa Sé – que o consumo de drogas ou o amor livre praticado pelos membros da banda têm agora pouca importância: “As suas belas melodias vivem connosco como jóias preciosas". Cada época tem a sua música e a sua lista de pecados. Mas se a Igreja absolveu os Beatles, ainda não concedeu a sua graça aos homossexuais. Tarcisio Bertone disse aos jornalistas: “Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre o celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram – disseram-me recentemente – que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia”. Curioso, a mim disseram-me o contrário, foi na TSF, quando o psiquiatra Álvaro Carvalho negou qualquer relação entre orientação sexual e abusos de crianças. No que toca a estudos científicos, entre uma batina e uma bata branca, confio mais em quem pode receitar comprimidos. Em tempos, quando John Lenon comentou que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo, a Igreja disse tratar-se de “uma mensagem misteriosa ou talvez satânica”. Hoje, os Beatles foram perdoados, o que dá alguma esperança aos homossexuais. Só têm de esperar 40 anos.

Os amigos de N.

Nem todos os dias o mundo se põe a morrer. Na noite de domingo, por exemplo, as pessoas falavam com voz de oração junto do corpo do teu pai e os teus amigos lá fora, a mostrar fotografias dos filhos no Iphone, mães que regressavam a casa para estar com as crianças, o Pedro a contar que um campeão do mundo de Fórmula 1, depois de ser pai – como tu és –, ficou mais lento um segundo nos treinos, não era capaz de arriscar como antes. Talvez não tenhas reparado mas, apesar do medo, das ressacas mais longas ou da impossibilidade de saltar das rochas para o mar de Cascais, ainda somos os mesmos, entrámos no velório errado, rimo-nos com a mão a esconder a cara, como fazíamos no colégio de padres onde o mais importante do recreio eram as duas balizas. E mesmo que ontem, no crematório, o silêncio fosse mais estrondoso por causa do motor da máquina de chocolates na sala de espera, alguém combinava uma viagem a Las Vegas, olhava para o telemóvel ou perguntava: “Onde é que vão ver o Benfica?” Nenhuma gravata preta nem óculos escuros poderão alguma vez solucionar a estranheza destes rituais. Não nos morre gente todos os dias. Não estamos preparados para isto. Jamais saberemos onde meter as mãos quando passa o cortejo. Mas, garanto-te, nem todos os dias o mundo se põe a morrer. Basta que me lembre do teu braço nos ombros da tua mãe. Basta que te lembres, como lembraste na noite de domingo, que era exactamente naquela pastelaria que comias as panquecas com doce de morango.


Coração independente


Não consigo um pingo de insolência se entro numa casa de fado. O empregado disse-me que teria de esperar mesa e obedeci silencioso como se aguardasse na fila para o beija-mão real. Já sentado, quando uns turistas falaram por cima da guitarra ou quando um amigo decidiu cantar ao mesmo tempo que a fadista, senti vergonha alheia – o mau comportamento deles fez-me temer uma expulsão. Não sei donde vem esta reverência ao fado. Sei que o oiço desde a adolescência, que o pus a tocar muitas vezes numa casa pequena em Nova Iorque e numa casa ainda mais pequena em Madrid. Nunca por saudades do meu país. Nunca como acessório de cena para a tristeza. Nunca por desamor. Claro que não. Mas na noite em que vi um concerto do Camané, em Madrid, quis mostrar o fado aos meus amigos como se estivesse a apresentar-lhes o primo talentoso da família. Sempre que me perguntaram: “Porque é tão triste?”, não respondi com o fatalismo lusitano, não disse que nos está no sangue ou sequer que a tristeza pode ser arte. Portugal com nostalgia no código genético faz tanto sentido como as Nossas Senhoras que mudam de cor com a temperatura. Mas, no intervalo de uma sessão no Clube do Fado, o guitarrista disse-me: “O fado é triste porque a verdade e a beleza estão na tristeza.” E eu calei-me. Ele preparou-se para tocar e anunciou uma surpresa: “Katia Guerreiro”. E o que ela cantou – e como cantou – fez todo o sentido no tumulto da minha pele. O fado contradiz-me. Não quero acreditar em nada do que ele me diz e, no entanto, emociona-me mais do que muitas coisas em que acredito.

Lentamente

Hisa Hilal é famosa mas ninguém a poderá identificar na rua. Foi vista por 20 milhões de telespectadores mas não conhecemos a sua cara. Caso ganhe um milhão de euros, em disputa na final de um concurso onde é a única mulher, dificilmente usará uma gargantilha de diamantes acima do decote ou uns saltos Jimmy Choo. Hisa é a candidata favorita para ganhar o programa “Um milhão para um poeta”, uma espécie de “Ídolos” do mundo árabe que, em vez de estrelas pop, premeia declamadores de poesia. O niqab que lhe cobre a face e a roupa negra são o contrário da brancura das kefyias do júri masculino. Ela é uma mulher saudita que viajou, acompanhada do marido, como manda a lei, até Abu Dabi para celebrar na televisão a herança oral da sua língua. E, como um cantor de intervenção ou um rapper anti-sistema, recitou um texto sobre os líderes religiosos que mandam perseguir, castigar e matar. Hisa disse: “Os extremistas querem condenar-nos ao isolamento e só nos oferecem medo e opressão. Quero aproveitar a minha sorte para afirmar que, se todas as mulheres árabes continuarem a lutar, teremos mudanças”. Demorou pouco para que recebesse ameaças de morte. Num tempo em que as celebridades anunciam o final das suas relações amorosas no Twitter e arriscamos um esgotamento nervoso sempre que uma página de internet não abre em micro segundos, Hisa Hilal tem outra forma de perceber o tempo: “Sacrifico-me para que algum dia as minhas filhas sejam livres”.

Obrigado, Lionel (ii)

O seu Russo nasceu na Galiza, passou a adolescência em Lisboa e, após um período em Barcelona, mudou-se para Madrid, onde é recepcionista da noite num hotel. Leitor de Nietzsche quando tinha 18 anos, mistura os dois idiomas, gosta de drogas leves, filmes, Fórmula 1, teorias da conspiração e do Futbol Club Barcelona. Mostrou-me documentários sobre Cruyff, vídeos de Figo – a quem chama Judas – e contou-me a história de Lionel Messi – a criança que precisava de injecções para crescer e que, na noite de terça, como escreveu o "El País", nos levou ao passado das tardes inteiras com uma bola: “Os miúdos não perguntam, simplesmente saem para jogar no pátio.” O seu Russo, tratado assim pelos amigos por deferência cómica e por ser loiro, disse-me que não lhe importam bandeiras, nem tem de sentir-se mais espanhol que português. O seu ídolo futebolístico, Messi, nasceu argentino mas viveu quase metade da vida em Barcelona. Ontem, o El País titulava: “Messi devora o Arsenal”. Mas também informava que em Valença do Minho havia bandeiras espanholas por causa do encerramento do centro de saúde – lembro que o alcaide de Tui, em Espanha, ofereceu os serviços de saúde do seu município. Nenhuma rivalidade ibérica importará ao seu Russo que, no Facebook, mostrou as suas prioridades: “Estou em alta há 12 horas, visca el Barça”. Tal como não importa que a “Time” não tenha escolhido Messi como um dos atletas mais influentes. A influência não sai para jogar no pátio e marcar quatro golos. Nem português, nem espanhol: durante aquele jogo fui messista. E russista.


A Preto & Branca

Esta crónica existe por causa de um beijo. Mas começou há um ano, quando cruzava o Rossio com uma rapariga do norte que, reparando nos africanos da praça, disse: “Lá em cima não se vê isto”. Respondi: “Deve ter sido isso que os nazis disseram ao entrar no bairro judeu de Cracóvia”. Há uns meses, numa paragem de autocarro, recolhi no bloco de notas as palavras de um homem que, ao ver um grupo de adolescentes africanos, disse: “Vêm aqui parar ó caralho, deviam era ir todos de volta em contentores.” Na minha mesa de trabalho, ao lado desse bloco, está o jornal Destak onde copiei, na semana passada, a frase escrita num banco de autocarro: “As vacas de C. Verde e da Guiné é só parirem macacos para subçídios, esta macacada arruina as finanças do paíz, anda tudo a sacar do erário público.” Os erros são do autor original que (tendo em conta o seu domínio da língua) bem pode lamentar a falta de dinheiro do erário público para a Educação. Ontem, na minha rua, uma senhora de bengala queixava-se dos sacos de lixo no passeio: “Desde que os indianos se mudaram para aqui que está tudo sujo.” Tentei explicar-lhe que o lixo estava ali por causa de uma greve dos serviços camarários. Não valeu de nada. Quem escreve todos os dias vive num estado de alerta, procurando frases ou pormenores que instiguem uma crónica. Foi isso que encontrei, segundos depois de abandonar a velha de bengala, ao entrar na agitação quente do Rossio, no momento em que um preto de cabelos rasta beijava a boca de uma branca com pele tão branca como a luz que encadeava toda a praça.

4 comentários:

LI disse...

Hugo,
Sigo o blogue há pouquíssimo tempo mas fielmente. Quero apenas dar-lhe os parabéns pela escrita.

Bob's disse...

Big Easy. Demorei quase um mês a ir ver Tremé (pois, também não muito legalmente), lembrava-me vagamente de ter lido em qualquer lado que era uma boa série, que valia a pena.
Se me é difícil perceber o que eles dizem, porque tenho pouco treino nestes sotaques americanos do sul, gosto do groove da série. Mais do que perceber, é ouvir e sentir.

(obrigada pela dica)

fuzzy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fuzzy disse...

A proposito do The Wire:
http://www.nytimes.com/2010/06/26/world/europe/26iceland.html
Eheh