segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Conversa com poeta morto e de bigode


Para ser grande sê inteiro? Nada teu exagera ou exclui? Sê todo em cada coisa? Bonitas palavras, senhor Pessoa, tão inspiradoras como um anúncio da Nike. Mas e se tudo o que exagero e não excluo, se tudo o que sou em cada coisa, se toda essa inteireza nas acções me deixa mais desarrumado que triunfador, mais sozinho que em comunhão, mais mina anti-pessoal que tratado de paz? E quem é o senhor para dar dicas como um life coach? Se bem se lembra morreu de fígado abusado e maleitas diversas na alma anónima. Aceitar as suas sugestões seria como ter lições de condução com um cego.

O senhor fingia tão bem que ainda hoje acreditamos, quando lemos essas coisas que escreveu, que seremos inteiros. Mas não se lembra de também ter escrito que a sua alma caíra pela escada excessivamente abaixo e se partira como um vaso vazio? Nesse caso tinha razão, porque somos muito mais pilha de entulho do que alguma vez seremos inteiros.

Digo-lhe mais, antes que se ponha a beber e deixe de me ouvir: se ponho tudo o que sou em cada coisa, caro poeta, falho mais curvas do que o meu corpo pode aguentar. Se nada excluo tudo devoro. E se nada exagero morrerei de aborrecimento. E agora, pergunto-lhe, o que faço? Pois, nenhum dos seus poemas me ajuda, não há ode ou soneto que funcionem como aquela canção pop que toca na rádio e que, estamos seguros, fala exactamente daquilo que estamos a sentir.

Hoje, nem palavras bonitas nem poesia de auto-ajuda. Hoje digo-lhe na cara que sou muito menos inteiro do que poderia e gostaria de ser. E agora, o que vais fazer acerca disso? O que vou eu fazer acerca disso?

Pois. Se calhar é melhor pedir mais uma rodada enquanto não tomamos uma decisão.

Não se levante, eu vou lá.

Já lhe disse que gosto muito do seu trabalho?

3 comentários:

Michele P. disse...

Conversa instigante, gostosa de ler. =) Pessoa deve estar a se remexer no túmulo.rs

Beijo grande!

marta disse...

Lindoooooo. Hugo! Adorei mesmo!Ajuda-nos a ser mais inteiros nos fragmentos que ficam.

RaquelAlexandra disse...

Gostei imenso do texto :D