segunda-feira, 25 de outubro de 2010

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Relicário de um homem solteiro

Durante os anos adolescentes de beijos na boca e mãos curiosas – “Curti com ela atrás do pavilhão de ginástica” – o soutien tanto podia ser o alarme que impedia o assalto como a relíquia procurada pelo aventureiro. Os dedos afastavam o top, subiam lentamente pelas costelas, inquietavam a pele, respirava-se com mais saliva na boca, e assim que se tocava no soutien disparava a sirene: “Pára. Já disse, pára.” Mas havia um dia em que os dedos cruzavam, por fim, a fronteira do tecido, avançando mais tarde para o fecho com o nervoso com que se enfrenta um penalti. Então, quando a alça resvalava pelo ombro, quando o corpo estremecia como se passasse uma corrente de ar, então o soutien passava a ser a relíquia do peregrino. Para alguns homens, a destreza com que se desmancha um soutien importa tanto como a eloquência dos beijos. E a visão de uma alça, escapando por acidente para fora de um vestido, pode parar o tempo num restaurante, numa pista de dança até mesmo num parque de estacionamento. Tanto romance erótico para nada. Depois de lançar os soutiens, com pedras preciosas, Hearts on Fire Fantasy (6,5 milhões de dólares) e Secret Diamond (5 milhões), a Victoria’s Secret revelou agora o Bombshell Fantasy (2 milhões), fazendo do soutien uma espécie de arma para cyborgs e dando-lhe nome de filme soft porn/cor de verniz. Já não é uma relíquia. É uma acrobacia publicitária, a disneyficação da sensualidade, a morte romântica do artista de mãos para quem importa muito mais a forma como uma mulher se despe do que as jóias que resplandece.

Here comes the sun

Nasceste num desses dias de sol em que a cidade parece água – o Tejo levitando sobre os telhados, resplandecendo nas fachadas. Nasceste num país antigo e com alma cansada, num mundo que, desde sempre, tanto pode ser admirável como devastador. Não te escrevo para que aprendas alguma coisa comigo. Não te vou falar do futuro. Sou demasiado trapalhão com a vida para aconselhar um recém-nascido. Mas saí de casa e na metade mais luminosa e quente da rua havia roupa estendida, o rumor de um rádio fadista num primeiro andar, a alegria de saber que já estás aqui. Não falas, mal abres os olhos e não me podes fascinar com conversas sobre cinema, sobre noites de copos com miúdas que não acreditam em soutiens, sobre a canção dos Beatles que escolhi para banda sonora do teu nascimento. Não podes ainda, como o teu pai, ensinar-me a amizade numa língua que não é a minha, nem recordar essa cidade estrangeira em sobressalto onde me guiou, durante anos, com um coração descobridor e a certeza que podemos ser muito mais do que aquilo que herdamos. Não sabes ainda, como a tua mãe, usar a curiosidade para percorrer países e ouvir aqueles que nunca são ouvidos. Não podes sequer perceber que a tua chegada acontece no momento em que os homens não se entendem, que andam assustados, que preferem o ego, o sonho do toque de Midas, os comprimidos e as pistolas. Não sabes nada e, no entanto, sem uma palavra, sem uma cumplicidade, sem uma memória em comum, fazes de mim uma pessoa melhor. Não consigo explicar-te porquê. Mas sei que faz todo o sentido.


Get a life

Inaugurou-se o sítio justspotted.com, uma rede social que permite aos utilizadores revelar, em tempo real, onde foram vistas celebridades, com direito a mapa-mundo e fotografias. Imagine que encontra Scarlett Johansson na papelaria. Tira uma foto como o telemóvel e faz um post do avistamento da actriz para que os idiotas perseguidores de famosos fiquem a saber que Scarlett comprou a colecção de dedais da Planeta Agostini. O director executivo deste sítio de internet/ pardieiro de bufos, A. J. Asver, diz que não se trata de perseguir celebridades mas de uma forma de os fãs se sentirem psicologicamente perto dos seus ídolos. Asver parece descrever vítimas de falta de afecto a precisar de consolo, mas é dessa maneira que melhor esconde a motivação do site: ganhar dinheiro com a vida privada dos outros. Tenho que admitir que os criadores do justspotted são tão espertos na arte do engano como quem meteu Portugal a usar pulseiras do equilíbrio. Com uma vantagem: não têm grandes custos porque são os fãs que fotografam e perseguem, convencidos pela realidade mediática que lhes diz que não é preciso talento, trabalho ou excelência para serem famosos, acreditando que basta entrar numa casa com câmaras e segredos ou fotografar uma celebridade para serem salvos do quotidiano anónimo. Deviam escutar as palavras de Tyler Durden, em “Fight Club”: “Vocês não são especiais, bonitos ou flocos de neves únicos. Vocês são feitos da mesma matéria em decadência que tudo o resto”. E não é por fotografar Brad Pitt a sair de um WC público que isso vai mudar.

Manual de auto-ajuda

É segunda-feira e na rádio, nos jornais, nas televisões, na mercearia onde se compra o pão fala-se da crise, essa praga tão assustadora e peganhenta como sangue coagulado num pedaço de algodão. Melhor seria ficar na cama, não ir, usar o edredon como líquido amniótico e dormir até que tudo passe. Mas depois descubro, por acaso, que Keneth Waters esteve preso 18 anos acusado de matar um vizinho. E fico a saber que a irmã, Betty, empregada de bar, começou a estudar Direito após a tentativa de suicídio de Keneth na prisão. Durante quase duas décadas Betty tornou-se advogada, criou dois filhos – estudava, nas bancadas, durante os jogos dos miúdos –, passou por um divórcio, ouviu todas as testemunhas do julgamento e encontrou amostras de ADN perdidas durante o processo. Em 2001 provou a inocência do irmão. Seis meses depois Keneth caiu de um muro, perto de casa, e bateu com a cabeça. Morreu. Betty tem 56 anos, é gerente do bar onde foi empregada e voluntária numa associação que ajuda presos falsamente acusados. Não continuou com a carreira de advogada. Não parece amarga, destruída, revoltada. Disse: “Só quero ser avó” Na semana passada estreou “Conviction”, sobre Betty e Keneth. O realizador, Tony Goldwin, disse: “Sempre que me ia abaixo durante o filme, pensava na determinação de Betty.” Nas noites de domingo irei agora colar um post-it na mesa de cabeceira. Quando o despertador tocar, impiedoso como a crise nas manhãs de segunda-feira, vou ler o que escrevi: “Betty e Keneth”. E isso deve chegar para, de imediato, saltar da cama e me fazer à vida.


Breve relato de amor temporário

Ele contou-me que tinham combinado um encontro e que levara laranjadas porque ainda fazia calor. Conheceram-se numa festa. Ele, lubrificado pelo whisky, quase chegou a dançar. Ela, acesa por causa da erva, disse-lhe: “Não fumo tabaco, mas dás-me um cigarro?” Ele disse que a levaria aos fados e ela, de passagem por Lisboa, disse-lhe que preferia um quarto de hotel. Comunicaram em inglês, como nos filmes, e não se beijaram logo, como nos livros antigos. Mas trocaram nomes em vez de números de telefone. Ele disse: “Estás no Facebook?” No dia seguinte iriam encontrar-se no alto da cidade – o romantismo transformou um quatro de hotel num jardim com vista. Ele chegou antes de tempo, percebendo a passagem dos minutos pelos sinos da cidade. “Já reparaste que as igrejas de Lisboa não estão sincronizadas? Se deus não sabe a quantas anda ela também podia chegar atrasada”, disse-me. Ele imaginou o que aconteceria assim que ela chegasse: trocariam piadas, contariam uma história de infância, ele diria “Gosto disto” e ela diria “Posso adiar a minha viagem”, jantariam numa esplanada, a meio da segunda garrafa de vinho ela diria “Leva-me para um sítio com uma cama e um bar” e pela manhã ele teria o braço dormente porque ela ainda dormia no seu peito. Nos dias seguintes alguém iria preferir ficar sozinho. Ele cansado de falar inglês, ela com saudades do cão. Ficariam amigos. Fim. Ele esperou no jardim. Ela não apareceu. Ele disse-me: “Há um lado positivo: vivi numa hora aquilo que, de certeza, ia ocupar-me uma semana. E sabes que tenho de trabalhar”.



Don Draper

Os rapazes, desde pequenos, querem ser outra coisa. Obriguei a minha mãe a fazer-me um fato de super-homem, quis ser o meu irmão mais velho, imitei Marco van Basten no Euro 88 e houve dias que, se me chamassem Mr Sinatra, eu pagaria uma rodada. Mas com o passar do tempo, pensar ser outra coisa, fantasiar, é para alguns tão patético como ir ao pão com um pijama do Batman. É uma pena, porque a imaginação apura a existência ao mesmo tempo que nos alivia de peso, como a primeira descida de uma montanha russa. Eu, por exemplo, ando por estes dias com a certeza que quero ser Don Draper, o protagonista da série Mad Men, passada num tempo em que ainda se usavam chapéus. Não falo apenas da forma como enlaça as mulheres sem precisar de as agarrar pela cintura, das garrafas de álcool duro no escritório, de frases tão graves como os fatos que usa – “O amor foi inventado por tipos como eu para vender collants” –, frases que seduzem secretárias, artistas e clientes da agência publicitária onde é director criativo. Falo também das manhãs em que acorda com a roupa da noite anterior ou se esquece de ir buscar a filha ou tem um ataque de pânico ou aparece bêbedo numa reunião. É que já não acredito, como aos seis anos, que uma pedra verde de outro planeta seja a única fraqueza do herói. Quero ser Don Draper porque ele é a prova da distância entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser, e porque depois do fracasso não desiste da fantasia: “Espero agora, serenamente, que a catástrofe da minha personalidade pareça outra vez bonita e interessante e moderna”.


Sobre estar vivo

Se nenhum homem é uma ilha quando os sinos dobram – o terramoto no Haiti, o tsunami no Índico, as bombas num comboio de Madrid – então nenhum homem é uma ilha quando, em vez de sinos que anunciam a desgraça, há canais de televisão a transmitir uma prova de vida. Mais de mil milhões de pessoas acompanharam o resgate dos mineiros chilenos. Num bar em Nova Iorque, conta o “NY Times”, um grupo via televisão segurando cartazes que diziam “Esperanza” e um chileno comentou: “A fé move montanhas e aquela montanha foi movida pela fé”. Um dos mineiros, chegado cá acima: “Estive com deus e o diabo. Ganhou deus, agarrei-me à melhor mão.” Houve quem visse na data uma prova do acaso divino: dia 13, mês 10, ano 10, números que somados dão 33, total dos mineiros. Percebo a fé dos homens mas prefiro encontrar alegria e consolo no engenho, na coragem e na dignidade dos homens que não aceitam ser uma ilha – falo dos especialistas da NASA que colaboraram no resgate, dos engenheiros que estrearam a cápsula e as roldanas ou de todos os mineiros que, sem excepção, queriam ser o último a subir. Mais de mil milhões de pessoas do mesmo lado: crentes, cínicos, adúlteros, filantropos, assassinos, doadores de órgãos, pais que cuidam, filhos ausentes. Gente inteira ou em colapso, gente que não se sentaria na mesma mesa mas que esteve em sintonia por causa dos homens capazes de inventar máquinas salvadoras e dos mineiros que, durante 69 dias, confirmaram a teoria da evolução desta espécie – aquela que diz que a morte existe para que façamos o melhor que podemos com a vida.

2 comentários:

Cuca disse...

Adorei o "Relicário de um homem solteiro".

Tatiana disse...

é tudo vivo... real... ta ai, gostei!