quinta-feira, 21 de abril de 2011

Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i


Três: a conta que deus fez

João
Ele acendia o cigarro mas nada. O ecrã continuava branco. Não havia outra maneira de dizê-lo: estava seco como a terra depois de uma queimada. Sentia-se tão falso como uma carteira dos chineses. Tudo o que pensava escrever naquele computador era apenas a derivação de algum filme antigo ou de um livro que já lera.
Comia hamburguers, fumava mais que a Petroquímica em hora de ponta, barbeava-se pouco. Não estava no melhor momento de forma. E havia contas para pagar.
O problema era a falta de um ordenado depois de anos e anos numa redacção de jornal, décimo terceiro mês, um sítio onde ir todos os dias. Agora, sem emprego, queria escrever umas memórias, um romance, a reportagem que daria um livro. Mas nada. Passara demasiado tempo a fazer a mesma coisa. Tinha menos de 40 anos e comportava-se como um velho despedido três anos antes da reforma.
Em algumas ocasiões, lúcido como um asceta vegetariano, disse ao espelho: “Deixa de te queixar.” Mas depois, em vez de escrever, punha-se a ver, pela enésima vez, “A Floresta Petrificada”, com Bogart a fazer de bandido.
Na mesa, ao lado do computador, acendeu-se a luz do telemóvel em modo de silêncio. Ele resistiu. Não foi ver.
João usava gabardines e até chapéus de detective. Acreditava na decência e na beleza do jornalismo. Era um romântico ultrapassado pela rapidez das notícias cuspidas a metro, não produzia tantos artigos como os estagiários, julgava que o apuro na prosa ainda servia para alguma coisa. Foi despedido e desde então nem cigarros o salvavam do aborrecimento. Passava os dias a ver filmes de gangsters, imaginando ser tão duro como James Cagney. Não era e nunca seria.
Abriu as janelas e havia um sopro de Agosto no início da noite. Ia escrever como Kerouac em speed. Ia escrever durante semanas. O telemóvel voltou a acender a luz. A primeira mensagem dizia: “Estou em casa com uma amiga a beber tequila.”
A segunda mensagem dizia: “Vem.”

Isabel
Não era a primeira vez que beijava uma mulher. Mia disse-lhe: “Outro”. Isabel beijou-a, provou o vapor da tequila, o seu polegar subiu pelas costelas, pousou no mamilo, fez peso. Mia disse: “Queria outro copo de tequila, mas isso também pode ser.”
Isabel foi buscar a garrafa. Não tirou os sapatos de salto – parecia que nunca os tirava. Todas as horas de voo, reuniões, noitadas a fechar projectos se podiam notar quando ficava bronzeada. Isabel sabia que aquelas rugas e manchas davam tesão a alguns homens mas afastavam outros. Com as mulheres era diferente.
Isabel cortou limão para a tequila. Mia investigava as lombadas dos livros. Disse: “Tanta poesia.”
Isabel tinha mais livros que muitos escritores – profissão que nunca tentara apesar dos diários acumulados desde a adolescência e da fome de histórias no papel. João, seu amante ocasional, sempre estranhou como Isabel não se punha a fazer aquilo que mais amava e, em vez disso, passava horas a analisar a viabilidade de empresas em escritórios alcatifados. A verdade é que João não sabia muito bem o que ela fazia. Interessava-se mais pelas suas pernas de sapatos de salto, pelo despojamento do seu corpo de mulher – não uma miúda, mas uma mulher com estrias, o peito um pouco descaído, uma mulher sem medo de ficar com a cama vazia no dia seguinte. João deixou de telefonar quando ela lhe perguntou, depois de uma sessão de cama sabotada pelo excesso de vinho: “Para quando esse livro?”
João respondeu: “E tu, quando é que te casas em tens um filho?”

Mia
Mia pegou num dos livros. Disse como se beijasse alguém na boca: “Música de Cama”. Disse como se estivesse no palco: “Título: Tri(n)o; autor: David Mourão Ferreira.” Disse como se tirasse a roupa: “As vossas quatro mãos/ As minhas duas/ Ó bando de seis aves no lençol.”
Fizeram um brinde, Mia tapou a boca com os dedos quando o álcool passou a fronteira da garganta. Tinha os olhos húmidos, as pernas bambas, o cabelo na cara. Perguntou: “Já fizeste um trio?”
Mia era filha de pais americanos mas nascera na Mouraria. Cresceu a brincar no Martim Moniz e passava férias na liberdade arborizada da Califórnia. Os pais eram meio hippies meio libertários e incentivaram-na a cantar fado. Mia tornou-se na fadista mais alegre da história. Era uma daquelas pessoas de bem com a vida, uma “loved child”, sem traumas ou melancolias. Mas cantava o “Fado do Ciúme” e parecia que algum homem tinha, de facto, saído de casa para as coxas da amante sem dizer se regressava. Mia cantava numa tasca e senhores de bigode punham-se a limpar os olhos com um lenço de pano. Mia dava uma volta de diva desgraçada no “Fado Português” e logo alguém gritava: “Ah boca linda”.
A boca de Mia: cheia de lábios e língua e tequila e paixão de fadista. Ela tinha um t-shirt que dizia: “Experimentalista”.
Isabel ouviu a campainha. Mia continuava a beijá-la, não queria parar. Isabel disse: “É ele.”

Três pares de asas nos lençóis
João caminhou nu pela cozinha. Todas as janelas estavam abertas e, ainda assim, os corpos naquela casa tinham a pele coberta por uma película agridoce de suor. Abriu a torneira e meteu a boca no jacto de água. Lavou a cara, viu um maço de cigarros na mesa mas distraiu-se com os gritos marítimos das gaivotas sobrevoando Lisboa. Uma vez na vida não ia ser um lugar-comum. Uma vez na vida não ia acender um cigarro para estilizar a cena. Sentou-se no parapeito. O sol começou a aparecer sobre a Graça, espalhando uma claridade meiga nas fachadas da Baixa. Era de manhã que esta cidade lhe parecia mais portuária, mais imprevista, cargas e descargas, floristas que chamam os fregueses, navios arrastando-se no Tejo para um lugar onde ele não estava.
João voltou a cobiçar os cigarros. No quarto, Mia e Isabel dormiam com as pernas entrelaçadas. Dormiam profundamente, saciadas e com a respiração de quem bebeu e fumou de mais, um fio de baba escorrendo dos lábios de Mia.
João procurou uma caneta e um papel. Queria tirar notas. Talvez aquela noite fosse o começo de alguma coisa extraordinária. Talvez fosse a estreia de uma relação com três pessoas, uma outra promessa de felicidade, um triângulo perfeito com filhos e casa de férias, a harmonia de uma santíssima trindade. Talvez aquela fosse a história que ele sempre procurou viver e escrever.
Enfrentou o espelho da casa de banho: “Deixa de te queixar. Dá graças pelo que tens.”
Depois voltou para a janela e anunciou a Lisboa, sem uma peça de roupa no corpo, a primeira frase da sua obra-prima.

3 comentários:

Isa disse...

Muito, muito bom, Hugo. Adorei. pô, bem escrito pra caraio, tu és o melhor JL português, sem dúvida.
Bjo

devaneios tolos disse...

Texto que me lembrou uma passagem de "O livro do riso e do esquecimento" de Milan Kundera.
Beijo de língua!
( pq foi a única coisa mais palpável e verdadeira que pude dizer).

Maria João disse...

A escrita é tão pura que nos transporta para as imagens como se da realidade se tratasse ...
Adorei!!!