quarta-feira, 13 de abril de 2011

Relicário de um homem solteiro, nova crónica, semanal, no suplemento LiV, do jornal i



Decoração, arrumação e outros fretes domésticos

1
O amor (ou a ilusão do amor) já fez muito pela indústria do mobiliário e das coisas inúteis que se espalham pela casa. Um homem apaixona-se e um empresário bate palmas em Paços de Ferreira.
Ela vinha do sótão da Europa e ia ficar pela primeira vez na minha casa de estrunfe em Madrid – 35 metros quadrados, dois bicos eléctricos no fogão, um frigorífico que não me chegava à cintura, um quarto sem janelas, um depósito de água quente que dava para um duche e meio, um sofá de molas torturadoras, o despojamento de quem vive sozinho e, mais por preguiça do que por convicção, se justificava: “Os objectos são sobrevalorizados.”
Há anos que era assim: tudo o que tinha cabia em duas malas e poucos caixotes. Mas ela vinha visitar-me e, com medo que não gostasse de mim (com medo que não gostasse do minimalismo de mau gosto do apartamento) pus-me a caminho do IKEA num carro emprestado. Como se tivesse entrado num supermercado morto de fome, meti-me a comprar tudo aquilo que imaginei que ela pudesse gostar: velas aromáticas, um tapete para a sala, uma capa de edredão, individuais e talheres, um wok e até um cacto. La pièce de résistance: uma estante para os livros (ainda arrumados em caixotes). Muitas horas depois, debatendo-me com as instruções e com parafusos e com chaves que me esfolaram os dedos, a estante estava montada. Mas, como o nosso amor, demasiado instável. Aquela não era a minha estante.
Uma amiga, quando viu a nova decoração, disse: “Isto não és tu.” O que ela queria dizer: “Não sejas outra pessoa para agradar à menina.” O que disse o filósofo Alain de Botton sobre o assunto da perda de autenticidade quando estamos apaixonados: “Se ela gostava de homens duros, eu seria um homem duro, se ela gostava de windsurf eu seria um windsurfista, se ela odiava xadrez, eu odiaria xadrez (…) era como se o meu verdadeiro eu provasse um fato demasiado apertado (…) um homem gordo provando um fato que era demasiado pequeno (…) O amor estava a fazer de mim um aleijado.”
Ela não sabia o empenho que eu tinha posto na decoração. Ela tinha um apurado sentido de bom gosto, moda e feng shui. Ela foi-se embora passado três dias. Fui visitá-la na sua cidade. Não foi uma surpresa. Estas coisas sabem-se. Deixei-lhe um ramo de lírios na sala no dia da despedida. Não valia a pena dizer mais nada: fim.
Tinha mais mobília em casa e ainda me sentia apertado num fato justo que fazia comichões.
Deixei o cacto morrer. Voltei a ser eu.
Com uma nova estante.

2
O amor (ou a ilusão do amor) já fez muito pela arrumação e limpeza das casas. Um homem apaixona-se e no dia seguinte está no supermercado a comprar produtos de limpeza que jamais ouviu falar, rótulos que garantem “Poder total”, “Sem amoníaco”, “Limpeza em profundidade em toda a casa”. Um homem apaixona-se e vê-se de joelhos e com luvas de borracha, esfregando retretes, caçando bolas de cotão, distraindo-se, por momentos, da necessidade de ser mais asseado, porque encontrou jornais velhos e se põe a ler artigos com anos de vida.
O amor lava mais branco.
Na minha vida de adulto tive apenas uma empregada. Lili falava mal português, o que para mim era um alívio. Nunca soube dar ordens a quem limpa. Nunca quis dar ordens a quem limpa. Lili aparecia uma vez por semana e, no dia anterior, envergonhado com o desarranjo da casa, punha-me a arrumar e a limpar. Tinha vergonha.
Durante uma temporada no Rio de Janeiro, Ana Maria, faxineira, aparecia uma vez por semana (éramos quatro naquela casa, precisámos ajuda), com a sua pele de pau Brasil e a barriga pendendo entre o top e as calças de licra. Na primeira vez disse: “Quer que eu faça seu café da manhã? Quer que eu cozinhe? Quer que eu passe as camisas? E eu, que há anos seco as camisas em cabides para não ter que manobrar o ferro de engomar, fugi para a rua: “Vou correr, até já Ana Maria.” Se uma empregada entra em minha casa, eu saio. Não fui feito para mandar.
Mas mesmo que concorde com P.J. O’Rourke – “Manter uma casa limpa e arrumada é tão desagradável como ser mineiro” – aparece o amor (ou a ilusão do amor) e lá estou eu a aspirar, a branquear a banheira, a fazer máquinas de roupa consecutivas, a ser uma versão mais organizada de mim mesmo. Com amor há menos ácaros em casa. Tudo cheira a lençóis lavados. Depois uma das partes fala como se fosse poesia de Ramon Mello (pelo menos na minha cabeça): “Não prometi amor/ perfeito eterno apenas/ uma trepada na noite/ de sábado goza veste/ e vai embora”. E é dessa maneira que começam a nascer outra vez bolas de cotão nos cantos da casa, nos esconsos mais inalcançáveis do coração.

3
Vivo, pela primeira vez, enquanto adulto, numa casa com bonitos móveis (são da senhoria). Já preciso de mais que duas malas e alguns caixotes caso volte a mudar de casa, cidade ou estado civil. Tive, recentemente, uma empregada mais dedicada ao seu oficio que um fundamentalista islâmico, mais opinativa quem um comentador de política: “Como é que consegue viver aqui com tanto pó?”, “Estes jornais velhos vão para o lixo”, “Tenho um filho da sua idade, sei como vocês são.” Ela entrava em casa e eu punha-me a milhas do ruído do aspirador e do barulho da sua censura de empregada impoluta.
Enquanto escrevo olho em meu redor: ténis no meio da sala, loiça empilhada, roupa por lavar, livros no quarto, no chão, em cima do bidé. E os jornais que ela tanto odeia por todo lado. Tenho de ligar-lhe em breve. Ou talvez não. É Primavera, as hormonas parecem amendoeiras em flor, o sol empurra os corpos para a paixão, as pessoas beijam-se com mais frequência e, como tal, as casas ficam muito mais limpas.
Para quê gastar dinheiro em empregadas quando basta o amor (ou a ilusão do amor)?

3 comentários:

Samandi disse...

Mais uma vez gostei. Conseguir ver a ordem na desordem das coisas. E pedir ajuda a alguem no que toca a limpezas não é assim tão complicado :)Fique bem.

Laura Ferreira disse...

Muito bom...

m. disse...

Just perfect :)