quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eléctrico, Carreira 28, entre São Bento e Chiado


"Life is just a ride"

Bill Hicks

Na paragem estou ainda sozinho, depois chega a senhora de cabelos brancos. Tem o couro dos sapatos estragado pela pressão dos joanetes, o casaco pelos ombros, uma blusa de flores, e a postura de uma Testemunha de Jeová. Lê um suplemento sobre Saúde, o dedo molha-se na língua para afastar as páginas e abrir um artigo sobre os males do Coração - falo-vos das mazelas do sal e das arranhões do tabaco, não se trata dos outros males cardíacos, aqueles que produzem Julietas suicidas e que a senhora de cabelo branco esqueceu nalguma década do século passado. Já ninguém morre de enfarte do miocárdio amoroso.

No outro lado da rua, mais quente, o edifício cor de rosa embranqueceu por causa do sol. Pensei: "Se saio daqui talvez perca o primeiro lugar da fila." E depois: "Que se foda o pragmatismo."

Cruzei a estrada e encostei-me. Os meu braços colaram-se nas paredes ásperas e a mudar de tinta como os répteis; as minhas costas experimentaram o calor da pedra. Mesmo ali, havia uma loja de congelados onde nem os motores das arcas frigoríficas se faziam ouvir. Na paz dos azulejos brancos nas paredes, alguém tinha colado desenhos de peixes e outros animais subaquáticos e coloridos.

Mesmo antes do ranger de ossos metálicos do eléctrico se espalhar pela rua, soube que é quase verão porque escuto o o ruído do calçado descapotável: a borracha vai-e-vem das havaianas, nos pés de uma loira, que me vira a cara como se estivéssemos no liceu.

No eléctrico ando até ao fim do corredor. Há outra loira entre os passageiros (acrescente-se nos guias de viagem para estrangeiros que no eléctrico 28 há sempre, pelo menos, uma miúda gira. Deve andar na faculdade e nas manicuras. Tem óculos de Sophia Loren e cabelo de Paris Hilton. Nas unhas vermelhas vejo um ipod rosa. Como todos aqueles que não suportam a solidão das viagens curtas, tem a companhia de um interlocutor nas mensagens escritas de telemóvel.

Lá fora a cidade passa nas janelas como se estivesse prestes a cair para o Tejo, incerta, torta, comida pelo tempo e pelo descuido: bancas de fruta, pretos que observam a lentidão do mundo nas entradas dos cafés, velhos com roupas intemporais e sacos do Mini Preço demasiado pesados, vincando-lhes as mãos e os pulmões. Há também a alegria dos parques de diversão, as subidas, as descidas, uma montanha russa medieval com cores tropicais e uma nostalgia que não me deixa triste.

Outra travagem. Piso a francesa que está atrás de mim e que ainda há pouco falava de Salazar. O meu francês foi danificado por um professor que dava bofetões em vez do Participe Passé. Mesmo assim, apontando para o sapato dela, branco, com a marca da minha sola, consigo dizer, usando a diligência linguística que os portugueses costumam entregar aos turistas: "Pardon por ça, madame."

Saí no Largo de Camões. Comecei a descer o Chiado. E porque tudo estava tão cheio de sol e de pessoas, fiquei com a certeza de estar a caminho de alguma coisa que vale a pena.

3 comentários:

Marilia disse...

tudo vale a pena se...whatever.
a descrição do seu dia foi tão bonita,que tornou o meu insuportável.pobres dias meus.
você escreve bem de doer.
beijinho.
G.

helen of troy disse...

Houve um dia, há pouco mais de um ano, em que decidi mudar a minha vida. E como as mudanças radicais podem ser mais dolorosas do que excitantes, a partir daquele dia comecei a preparar calmamente a minha separação. E a frase que me fez pensar para mais tarde tomar essa decisão não foi mais nem menos do que "life is just a ride!"

Adiós *

Tina disse...

Era assim que eu gostava de escrever. Os seus textos são relmente Belos. Não costumo comentar mas desta vez tive mesmo de expressar a minha admiração. Cumprimentos.
:)