quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje no jornal i


O pugilista

Os comentadores parecem concordar numa coisa: a resiliência de José Sócrates que, entre tanta pancada, parece não ir ao tapete. Muitos escritores tentaram explicar como o boxe é uma metáfora da vida. Sou apenas mais um deles. Em 1967, após ter trocado aquele que considerava ser o seu nome de escravo (Cassius Clay) por Muhammad Ali, o campeão do mundo ouviu as provocações do adversário: Terrell chamou-o sempre de Cassius Clay antes do combate. Já no ringue, um despeitado e inclemente Muhammad Ali perguntou, entre socos, uma e outra vez: “Qual é o meu nome?” – mais que a resposta certa, Muhammad Ali queria prolongar a punição durante 15 assaltos. Outro pugilista, Roberto Durán, foi várias vezes campeão mundial, conseguiu 70 vitórias por KO e ficou com a alcunha “Manos de Piedra” – após mandar um adversário para o hospital, disse: “Para a próxima mato-te.” Mas, em 1980, Durán, que parecia feito de granito, ficou para a história do boxe, deixando a audiência tão boquiaberta como um paciente no dentista. Castigado pelo adversário durante oito assaltos, virou costas e disse apenas: “No más”. John Shulian escreveu sobre o abandono de Durán a meio do combate: “O seu momento de vergonha duraria uma vida.” Já Terrel perdeu de outra maneira: aos pontos, humilhado pelo campeão mundial, mas chegou ao último assalto sem dar o braço a torcer. Durán e Terrel: se o boxe é mesmo uma metáfora da vida, qual deles será José Sócrates?

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i

1 comentário:

kaku disse...

A questão mais complicada é que ele está sozinho no ringue e nós, deste lado, a desesperar por um último assalto... Quer dizer... sozinho totalmente ele não está... já tem com ele o seu momento de vergonha, que duraria uma vida se Portugal memorizasse...