terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sugus


Em tempos, julgo que numa entrevista, o escritor António Lobos Antunes usou vocabulário de advogado quando disse: "As infâncias são retroactivamente felizes". Foi nesta frase que pensei, na fila do supermercado, ao ver as embalagens de sugus. Tirando o espisódio do ferro de engomar a queimar-me a perna (acidental) ou a tareia que os ciganos da Alapraia me deram (provocada), a minha infância foi de t-shirts do super-homem, gelados do Santini, tardes de bicicleta e 7Up no frigorífico, bebida nas noites de verão, quando a casa dormia e ninguém castigaria a minha insolência higiénica - beber directamente da garrafa de vidro de litro e meio.

Quando são questionados sobre a última refeição que gostariam de comer antes de ir desta para pior, a maioria dos chefes de cozinha costuma apontar algum prato da sua infância. Não é de estranhar, portanto, que os sugus estejam, para mim, associados a essa felicidade retroactiva.

Mas, desde os tempos do Naranjito e dos calquitos de animais, algo mudou - o mundo e os sugus. Hoje, o pacote de sugus foi, certamente, definido por inúmeros estudos de mercado: o pacote é de abertura fácil, traz sugus de vários sabores e os sugus já não têm aquele papel branco, impossível de tirar, e que tantas vezes foi digerido pelo meu estomâgo.

Numa era em que desesperamos se a página de internet demora dois segundos a abrir, num tempo em que domesticamos a solidão, na paragem de autocarro, a mandar sms, numa vida em que o Blackberry nos avisa, e nos agita, sempre que recebemos mais um email, os sugus adaptaram-se a estas novas pulsões humanas pela facilidade, rapidez e diversidade. São mais fáceis de abrir, têm cores - pelo menos o de limão é amarelo - e, tendo diferentes sabores, satisfazem a nossa frustração da mesma forma que a tv ligada, o facebook aberto e uma sms a apitar no telemóvel satisfazem o nosso aborrecimento.

A verdade é que os sugus que comprei (já comi todos) parecem-me mais artificiais que aqueles com que me debatia, no banco de trás do carro, cuspindo pedaços de papel branco que não conseguia arrancar do sugu preso entre os meus dedos peganhentos de saliva e açúcar

Os sugus de agora, acreditem, são mais ou menos como um one night stand sob o efeito de drogas: coloridos, fáceis de consumir, contêm produtos químicos, comem-se todos de uma vez, satisfazem uma necessidade imediata e não precisam de empenho - descascar um sugo aos 6 anos era tão difícil como abrir um soutien aos 16, hoje, nenhuma das tarefas apresenta grandes obstáculos.

Enfim, as coisas são mais fáceis, o que não quer dizer que tenham o mesmo sabor. Hoje, percebo muito melhor os ensinamentos do mister Miyagi ao Karate Kid: "Wax on, wax off" - há um caminho de paciência para as coisas bem feitas, e nem sempre o caminho mais fácil, sem o papel branco, é o melhor.

4 comentários:

Gustavo Gouveia disse...

tem piada, também queimei a perna com o ferro de engomar


de resto de resto, é ou não é verdade que aos 16 anos nos sentimos desolados com a falta de experiencia desejando o passar rapido dos anos (e dos soutiens) que, aparentemente, trará dias mais risonhos?

kaku disse...

É bom saber que há mais quem ainda sobreviva à ingestão impaciente daquele papel branco colado ao quadradinho de sabor. :) Sempre achei que aquilo iria ter mau resultado num futuro longínquo. E não teve... ainda.
(Continua à procura do sabor retroactivo hortelã pimenta... tenho cá para mim que o grupo Sonae vai buscar estes simulacros de sugos à China!)

Filoxera disse...

:-)
Mas os chupa-chups são difíceis à brava de abrir.

pipa disse...

A sério? todos os sabores no mesmo pacote?? tcchh..e ainda dizem que há coisas que nunca mudam :S e os rebuçados-diamante, será que ainda existem? :D