sábado, 20 de fevereiro de 2010

Crónica de hoje, no jornal i



Deusa Oprah

John Mayer cresceu branco. O seu melhor amigo era um mulato – o tenista James Blake. Por causa do blues, música negra, Mayer trabalhou numa bomba de gasolina para comprar uma guitarra. O nome da sua primeira banda era Villanova Junction, uma canção de Jimi Hendrix. Já gravou com B.B King e Kanye West e disse: “O hip-hop é hoje o que o rock costumava ser.” Numa recente entrevista na Playboy, comentou-se que Mayer tinha um “hood pass”, que significa fazer parte da comunidade negra. Ele respondeu: “Não posso ter um ‘hood pass’ porque não sei o que é entrar num restaurante e dizerem-nos: Estamos cheios”. Mayer referia-se ao tempo em que segregavam os negros nos restaurantes. Mas Mayer também disse, nessa Playboy, “nigger pass” – nigger é uma palavra altamente insultuosa se dita por brancos. Percebi melhor a palavra, quando, nos Estados Unidos, uma vizinha negra me contou que, aos cinco anos, uma adulta branca lhe cuspiu na cara. Nigger é a escravatura, os homicídios do Ku Klux Klan, é o cuspo adulto na cara de uma criança. Mayer, que é americano, sabe isso melhor que eu. Perante o ultraje da comunicação social, pediu perdão. Mas já se fala de mais um pedido de desculpas, no programa da Oprah. Se Mayer precisa de ajoelhar-se para a audiência de Oprah, a mesma que exultou quando Tom Cruise saltou em cima do sofá do programa como uma atracção de circo, se Mayer precisa mesmo da limpeza espiritual da televisão de massas, se um lapso linguístico vale mais que uma história de vida, então, é melhor largar o blues e candidatar-se aos Il Divo.

Nota: estas crónicas só estarão online até ao final da semana, depois serão exclusivas em papel no jornal i

1 comentário:

Rafaela disse...

Lembro-me de ter lido esta crónica e de querer tê-la guardado religiosamente, principalmente porque a legenda de "não está disponível na versão online" colocava-me a pressão de a poder perder para sempre. Mas num ataque súbito de limpeza dominical, juntamente aos 38 is acumulados, resolvi deitar tudo fora, incluindo a tua crónica.
Hoje, por acaso, encontrei o teu blog...e quando li o teu nome uma campainha tocou (aposto contigo que daqui a uns anos esta expressão entra na língua portuguesa). E lá encontrei esta fabulosa crónica.

Quase inacreditável ter sido um branco a escrevê-la.

Parabéns pela sensibilidade.