segunda-feira, 2 de maio de 2011

Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i


Dois contra dois com balizas pequenas

“O futebol é a recuperação semanal da infância”
Javier Marías

Há qualquer coisa que se desmancha quando percebemos que, caso se tivesse concretizado o sonho de sermos jogadores de futebol, estaríamos agora no final da carreira ou nos primeiros anos da reforma. Olhamos para os atletas em campo e, fossemos nós jogadores da nossa equipa favorita, estaríamos no banco, seríamos o decano do plantel que entra a cinco minutos do fim para ser aplaudido. Mesmo que joguemos com amigos em campos de relva sintética uma vez por semana, há qualquer coisa que se desvanece no ego futebolístico quando percebemos que a nossa carreira imaginária – com golos na final do Mundial e, pelo menos, uma Bota de Ouro – chegou ao fim.
Sabemos que jamais poderemos reviver as tardes no alcatrão da rua, com pedras ou mochilas a servir de balizas, bolas defeituosas que desapareciam no quintal de algum vizinho maldisposto, o corpo incansável durante tardes inteiras – mais uma finta, mais um sprint, mais um corte de carrinho e os joelhos raspados. Perdemos o fulgor dos jogos na praia, com os pés doridos e as pernas pesadas na areia molhada da maré baixa, quando um golo de calcanhar, num “muda aos três acaba aos seis”, fechava o encontro e autorizava os corpos cansados e quentes a esfaquear as ondas. Será difícil experimentar outra vez a vergonha de falhar um penalti, o desespero de pontapear lama nos pelados em manhãs de chuva ou a ansiedade no dia antes do jogo, a preocupação com o equipamento, as caneleiras e as meias e a camisola, o nosso número nas costas.
Não voltaremos ao recreio da manhã onde se jogava aos centros, ao torneio de futebol de salão onde estragámos um joelho, ao descontrolo dos gritos e da corrida sem destino certo quando se marcava um golo num clássico entre escolas rivais.
Mas temos outras coisas. Coisas que não se despegam de nós por mais anos que passem e os tornozelos não aguentem mais que três toques na bola e o coração entupido impeça que vejamos os jogos importantes do nosso clube. Sabem do que falo. Conversas com amigos sobre o penalti falhado do Veloso, o empenho canino de Jaime Magalhães, as fintas fotocópia do Paneira, o golo bala de Figo contra a Inglaterra no Euro 2000 – qualquer coisa que resgate da memória factos dispensáveis mas tão importantes. Não sabemos como armazenamos dados e pormenores de histórias que aconteceram há tanto tempo – Platini a beijar a bola antes do penalti em 86, Chalana a partir a loiça em 84, Zidane a mostrar o seu futebol matrix slow motion em 98.
Resgatamos, com os amigos, informações e recordações de jogos do Euro de 88 como quem troca cromos – aquele golo de Van Basten, sem ângulo, tão espantoso como um quadro de museu ou a estreia no território dos soutiens desapertados. Esta é a nossa forma de comunicarmos. O nosso passado em comum – como aquela noite de chuva torrencial em que andámos de moto e comemos numa pizzaria do Estoril e quase houve porrada entre amigos: Sporting 3 – Benfica 6.
Mas aquilo que temos é mais do que a compilação de factos e histórias, é um impulso que precisa de ser satisfeito. Por exemplo, se descemos a rua e reparamos num café onde passa futebol, olhamos para a televisão tentando encontrar o resultado no canto do ecrã. Gostamos de entrar num táxi a meio de um relato e ficar atentos enquanto não chegamos ao restaurante. E quando chegamos a casa, depois de um dia cruel trabalho, prontos para comer o que seja e aterrar onde seja, se por acaso percebemos que vão passar os resumos da Liga dos Campeões, perdemos o sono por, pelo menos, meia hora.
Talvez seja a pulsão de regressarmos ao tal lugar onde fomos felizes – a bola no pé direito, uma tabelinha, outra vez em mim, remate cruzado ao ângulo, a pulsação a galopar em todos os músculos. Esse lugar onde nada mais importava que a bola, sem contas para pagar, sem medo das feridas por fora e por dentro do corpo, e com a certeza que um dia jogaríamos na Luz, em Alvalade, na Antas, no Maracanã.
É um impulso ainda mais incontrolável se temos uma bola ao alcance do olhar. Se alguém na praia chuta uma bola para junto de nós, corremos para devolvê-la, pomos empenho no passe, regressamos felizes. Se os putos jogam na rua, desejamos que alguém com menos pontaria chute na nossa direcção. Pisamos o esférico com o pé e atiramos para o lado direito do guarda-redes de rua. Se os sobrinhos têm uma bola mínima, que faz trajectórias escanifobéticas, organizamos logo um concurso de penaltis – e não vamos à baliza.
Porque o tempo passa, porque temos outros interesses na vida, mas também por causa do lixo verbal e das manhas dos dirigentes, por causa da boçalidade animal das claques, alguns de nós fomos perdendo o interesse obsessivo pelo futebol. Mas esperamos ainda encontrar todas as semanas o assombro de uma finta, de um petardo de fora da área ou de uma defesa com a ponta dos dedos de um guarda-redes com lombares de gato.
Já chorámos depois de uma derrota da selecção, já perdemos a cabeça, a voz e a compostura, já fomos tão incendiários e idiotas como os presidentes dos clubes. Mas isso é apenas folclore. Aquilo que mais interessa está nalgum fim de tarde, quando o carro passava na rua e por fim podíamos regressar ao jogo e marcar o livre. Tínhamos a boca seca e uma ferida em chamas na coxa, ainda com marcas do asfalto. Havia suor nas patilhas, a nossa equipa jogava sem t-shirt, os ténis sobreaqueciam, e queríamos bater a bola por cima da barreira. Faltava pouco para que alguém nos viesse chamar para casa, a comida está na mesa, não te volto a avisar. Faltava pouco para ficar escuro e havia um livre para marcar.
Aquilo que mais interessa hoje, quando vemos Messi ou Ronaldo ou Xabi, é que eles sejam sempre essa tarde de futebol na rua quando batemos o livre e – estas coisas sabem-se – já estávamos de braço no ar quando a bola passou entre uma mochila do He-Man e o guarda-redes sem luvas. Depois disso, não precisávamos de mais nada para saber que íamos ser felizes na final do campeonato do mundo.

6 comentários:

I am from Lisboa disse...

Já há algum tempo não tinha o vício diário de acompanhar os escritos de alguém.
Leio todos os dias as crónicas do i, e publíco (com os devidos créditos) os textos que vais escrevendo.
Gosto do tom e da forma como o fazes.


Obrigado.

Jaime Maia da Silva disse...

Partilho exactamente das mesmas sensações relativamente ao futebol! Um texto tão simples e no entanto tão rico. Excelente transmissão de ideias!
Parabéns.

Diogo Faro, disse...

Está épico! Sempre fui e ainda sou jogador amador, sem grandes pretensões mas com uma paixão enorme. Este texto transmite tudo, o jogar, o ver, o viver o futebol. Principalmente, os momentos e os amigos que retiramos dele.
Muitos parabéns.

carregador de piano disse...

Só para dizer que este Diogo Faro tem tanto de jogador e percebe tanto de bola como eu de pesca submarina...e eu nem sei nadar...

P.S.: Texto de caralho! Parabéns!

il _messaggero disse...

simplesmente a crónica que eu gostava de ter escrito.

busycat disse...

Mesmo quem não tem essas memórias (de jogos, livres, centros e resultados desportivos) está sempre de olho no canto de uma qualquer tv onde esteja a dar futebol :)

Mais um óptimo texto.