sábado, 14 de maio de 2011

Relicário de um homem solteiro, crónica semanal no i


Retrato possível do cérebro do escritor enquanto (mais ou menos) jovem

Parece masturbação mas não é
Não estou aqui para enganar ninguém. Este texto tem o centro no meu umbigo, é sobre mim, fala da pessoa que aqui escreve. Será, como já se percebeu, redundante. Mas não saiam já da sala, ainda que isto possa parecer um teatro de vaidades estranhas. Fiquem mais um bocadinho e aproveitem a viagem no comboio fantasma do parque de diversões para freaks e desadaptados que, por vezes, pode ser o cérebro deste narrador que vos fala.
Talvez a origem desta crónica sirva para diminuir a gravidade do meu exibicionismo: quero escrever sobre o prazer orgásmico de uma ideia. Não se falará aqui de onanismo, mas do deleite do processo criativo de quem escreve. Imaginem-se a marcar um golo, a beijar a boca de alguém por quem estão apaixonados desde o jardim infantil, a ganhar um campeonato de tango, a saltar da prancha mais alta, a entrar na igreja em dia de casamento – basta de imagens estilizadas antes que isto se torne num anúncio televisivo de cerveja. O que quero dizer é isto: dá um prazer do camandro agarrar uma ideia, ver como cresce em poucos minutos ou ao longo de semanas, e depois a explosão, a chave para a última porta fechada, o tal momento Eureka, um shot de qualquer coisa que podia ser bourbon e cocaína e intravenoso de cacau. É tão bom. Ilumina o dia, torna-me mais simpático, mais como gostaria de ser.


Uma história
Passei o dia com senhas na mão, conferindo o número no papel (A124) e no quadro electrónico (A198) – em repartições, nos correios, na Loja do Cidadão, no talho do supermercado. Foi um desses dias de papéis fotocopiados, assinaturas e salas de espera. Não havia nada activo no território criativo da minha cabeça. Eu era o robot programado para desempenhar as mais aborrecidas tarefas no mundo da realidade. No final do dia, chegado a casa, abri as janelas para forçar a chegada do Verão. Não fazia calor mas a luz suavizava os telhados na outra colina, uma palmeira ao longe pareceu-me mais tropical que um coqueiro de catálogo turístico.
Sentei-me ao computador e descobri que o meu pai se estreara no Facebook e queria ser meu amigo. Não quis sequer reflectir sobre a estranheza de imaginar o meu pai a clicar em Likes, a comentar vídeos, a mandar-me despejar o lixo com um post no meu mural. Mas assim que vi um álbum que dizia “Tropa” e outro “Amigos”, com fotografias a preto e branco, escancarou-se em meu redor a armadura de robot dos recados, e acenderam-se todos os pirilampos que habitam o caótico mundo da imaginação intra-craniana.
Eu não via aquelas fotos há anos. Rapazes mais novos que eu, uns putos charilas com cigarros de malandro, sentados em jipes, a fazer poses de galã de cinema. O meu pai num campo pelado com o resto da equipa da Torre muito antes da tropa. O Russo que tinha caparro de Conan o Bárbaro sem recurso a esteróides. Os jeans apertados, os polegares nos bolsos, as popas meladas e inspiradas nos actores que apareciam no ecrã gigante do cinema São José.
Eu já não estava nesta casa, não estava sequer nas histórias que o meu pai me contou e cujos protagonistas apareciam em fotografias digitalizadas e colocadas numa rede social. Desta vez foi rápido (mas intenso). De repente tinha a génese de uma história – uma crónica? Um conto? Um livro? Não me podia distrair, quando estas ideias aparecem como um espasmo, um ataque de coração, uma epifania, tenho de concentrar-me, andar de um lado para o outro, meter os pirilampos em combustão máxima.
E a história foi-se construindo, tomei notas e recorri a outro truque – como se fosse um treino específico para bolas paradas. Quando tenho uma ideia que me entusiasma muito, telefono a pessoas que têm paciência para me ouvir, e conto-lhes a história. O acto de contar a história – como se conta a um amigo algo que nos aconteceu no emprego – e o acto de verbalizar uma coisa abstracta que até então apenas existiu nas sinapses ou em pequenos apontamentos, permitem-me ganhar músculo, preencher lacunas, acrescentar pormenores. É como ir ao ginásio. E aos poucos, como se fosse possível acelerar o processo de crescimento, uma ideia recém-nascida já tem o buço de um adolescente.
Não interessa aqui contar qual a história que construi nesse dia. O que importa é o espanto que sinto sempre que isto acontece, como se pudesse repetir o assombro de uma criança quando anda de moto ou toca na língua de um cão ou pisa a areia da praia pela primeira vez. É sempre bom. É sempre empolgante.
Não posso ser mais exacto quanto ao aparecimento de uma ideia. Há coisas que nem eu percebo. Mas posso dizer que, por vezes, só é preciso uma fotografia de um pai, uma frase graffitada na parede, uma mulher na esplanada, uma janela sobre a cidade para que, de repente, tudo aquilo que se acumulou nas traseiras do coração e da cabeça, se precipite para a sala de controlo da minha vida a fim de activar e telecomandar os pirilampos em chamas.


Como nossos pais
Quando sou arrebatado por uma ideia, depois de repeti-la ao telefone, de tirar notas, há um momento em que a história não aceita mais atenção ou trabalho. Tenho de voltar mais tarde. Por isso, decido celebrar. São coisas pequenas. Fumar um cigarro, sentar-me na praça a apreciar as pessoas, beber cerveja com amigos. Desta vez foi música. Quando falava ao telefone da tal história que aparecera enquanto via fotografias antigas, a minha interlocutora disse, já no final da conversa: “Somos como os nossos pais”, e as sinapses trouxeram de imediato a canção de Elis Regina: “Como nossos pais.” Esse seria o título da história. Desliguei o telefone e fiz algo que não fazia há muito tempo. Fechei as portadas do quarto, pus a música a tocar, deitei-me na cama, apaguei a luz e ouvi a música, uma e outra vez. Ouvi mesmo, com atenção a todas as palavras, ao baixo, à bateria espalhando-se no diafragma, ao poder da voz fumada e vivida e filha da mãe de Elis Regina.
Perdoem-me o exibicionismo. A minha motivação é, palavra de honra, cândida e infantil. Neste tempo de anúncios apocalípticos, em que nos sentimos contaminados pela mentira, pelo desperdício de oportunidades, pelo desgoverno das almas, eu só queria partilhar uma coisa pequena mas que me faz muito feliz. Talvez isso me sirva de atenuante.

4 comentários:

Ana Vermelho disse...

é bom ler tanto entusiasmo!

Trequita disse...

O poder da palavra é infinito, quantos não terão ouvido Elis depois de ler esta tua publicação? Que sensações terão sentido depois de "te" ler e de "a" ouvir?
Desculpa mas hoje tinha mesmo que comentar... sinto-me feliz por ser, mesmo que ainda de forma infima, como os meus milhares de pais... todos aqueles que nos marcam com um gesto, uma palavra, uma música são para mim como pais.

Laura Ferreira disse...

Muito bom.

hugo disse...

Excelente!...