quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jornalismo para vender aspiradores


Em tempos julgo ter escrito que a revista Sábado está para o jornalismo como o wrestling está para o desporto. Mas hoje, vendo a capa da newsmagazine que tem um fascínio pelas celebridades só comparável a uma adolescente americana, percebi que havia outra comparação possível - a Sábado está para o jornalismo como o Dan Brown está para a literatura.

Esta semana, a capa da revista anuncia: "O poder oculto da maçonaria é o novo livro de Dan Brown - os factos históricos que inspiraram o autor do Código da Vinci".

O melhor atributo de Dan Brown não é a qualidade literária mas a capacidade de usar truques para prender o leitor da mesma maneira que as batatas fritas de pacote têm aquele produto artificial (como se chama?) que nos faz querer mais e mais. Dan Brown pode não ser um excelente escritor, mas é um óptimo vendedor da banha da cobra.

Sempre me espantou que as pessoas acreditassem nas suas revelações históricas como descobertas irrefutáveis e determinantes - claro que Jesus andou a rebolar no feno com Maria Madalena e deixou prole que, ao longo dos séculos, acabou na Europa, no entanto, a ideia nem sequer é original, vários investigadores e escritores já tinham trabalhado nessa narrativa antes de Brown. O que me choca aqui não é a fornicação do filho de deus, mas a forma como tanto o autor, como muitos dos seus leitores, assume essa informação como factual, científica e decisiva para a humanidade, mais ou menos como dizer que Abraão viveu até aos 800 anos ou que Jonas esteve dentro da barriga de uma baleia durante dias ou que depois de rebentar com uma embaixada americana o terrorista receberá um autocarro de virgens no céu.

Num artigo de 2006 do El País, o jornal espanhol desancava o primeiro livro de Dan Brown, "Fortaleza Digital", não por causa da sua qualidade literária mas pelo medíocre trabalho de investigação e desprezo por coisas tão simples como datas. Não se pode querer fazer doutrina com a fornicação de Cristo e apelidar os romances de "históricos" se depois se escreve ficção científica. Dan Brown é a versão em livro daquele estranho produto norte-americano para barrar no pão "I can't believe it's not butter" - um sucedâneo da manteiga, que não é realmente manteiga, mas que diz ser melhor que a manteiga.

É claro que um autor que se tornou num fenómeno de vendas e de leitura na praia e no metro, merece cobertura jornalística quando lança o seu novo livro. Pode até merecer primeira página. Mas a Sábado usa exactamente a mesma estratégia de Brown para se vender e vangloriar. E, na capa, parece oferecer-nos o caminho secreto para o mundo obscuro da maçonaria, as revelações mais inesperadas, aquilo que você nunca soube mas que mudará o curso do universo. A Sábado é a mulher de barba no circo de rua medieval. A Sábado faz cockteasing - a little less conversation a little more action please.

Onde é que quero chegar? Aqui: é cómico que, numa semana de campanha eleitoral, a menos de duas semanas de eleições legislativas, a revista traga uma história sobre a compra de votos no PSD, que envolve dois candidatos a deputados, e escolha fazer capa com os segredos de Dan Brown.

Não é jornalismo, é venda de aspiradores, num ringue de wrestling, com a oferta de um pacote de I can't believe it's not butter.

2 comentários:

Joao Tordo disse...

I can't believe it's not journalism.

JR disse...

eu ia escrever uma coisa, mas o autor do comentário anterior adiantou-se: "I can't believe it's not journalism"