quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Man on fire


Podia estar aqui horas e, desesperadamente, começar com a frase feita: Hoje, não dá para mais que isto. Podia continuar com o processo de procrastinação das últimas semanas que, apesar de confortável, tem em mim resultados tristes: o que está a dar na televisão?, deixa cá espreitar o Facebook, mais um episódio de Mad Men, ainda não li o jornal.

Mas temos de começar por algum lado.

1
No fim da estação regressa o previsível desconforto de saber que alguma coisa tem de mudar. Na praia e nas tardes sem nada, há tempo para reflexões e promessas. Não é a primeira vez nem sequer a derradeira. Percebo agora que me custa levar as coisas até ao fim. Há umas semanas deram-me o aviso: “Não tens muito jogo de cintura quando és contrariado. Para ti, as contrariedades são ofensas”. E antes que isto se torne num consultório psquiátrico, eu assumo: “Tens razão”.

2
Vejo um político, presidente de câmara, num programa sobre futebol. O político foi meu professor de Princípios Gerais do Direito e tinha o hábito de ridiculizar os estudantes – fazia perguntas para a turma, incentivava a coragem de uma resposta e depois descontruia o aluno diante de uma audiência com medo, demasiado ingénua para se sentir enojada com a crueldade académica.

No programa sobre futebol, o político anuncia, com a superioridade de quem domina aquilo que nós nunca perceberíamos, que o mês de setembro é vital para o país – parece que, em poucas semanas, teremos duas eleições e momentos decisivos na temporada futebolística. O Porto joga com o Braga, depois com o Chelsea e logo a seguir com o Sporting. A selecção, com o apuramento para o mundial em risco, entra em campo dias antes das legislativas. Os próximos jogos do Benfica, diz o político, são o tira-teimas de Jorge Jesus.

Esta é a viscosa promiscuidade entre um desporto e a arte de melhorar as coisas. Esta é uma tremenda confusão que nos faz mal.

3
Em minha casa a música não era importante. Ouvia-se rádio no carro e, para que percebam o mau gosto, o primeiro episódio da minha adolescência amorosa tinha o acompanhamento musical dos Berlin – “Take my breath away”.

Os Beatles, por exemplo, nunca me entusiasmaram. Se no dia do juízo final a humanidade se dividisse entre os que escolheriam Elvis ou os Beatles, eu estaria na fila com a malta da brilhantina, dos comprimidos e das pernas I’m all shook up.

Mais recentemente, ouvi dois amigos e as suas repetidas conversas sobre os Beatles. Algumas vezes, fui eu quem incentivou o debate. Primeiro, porque aquilo me parecia cómico, depois porque queria saber mais sobre essa capacidade revolucionária de quatro suburbanos de Liverpool.

Comecei a ouvir Beatles, a ler coisas sobre a banda, a ver documentários como aquele que explica o processo criativo do álbum Sgt Pepper. Posso dizer que, intelectualmente, estou fascinado. E que, diante de deus no fim dos tempos, talvez mudasse agora para a outra fila.

Mas não é a primeira vez que processo uma coisa intelectualmente e só depois me atrevo a sentir. Não se trata de sobranceria. Trata-se de uma peça que falta. Não é um super poder. É uma insuficiência. Eu sou um atrasado emocional.

Mas os Beatles permitiram-me mais uma revelação – os Beatles e, claro está, esse exercício de estilo que tento que seja a minha vida.

Eu percebo os Beatles, ou seja, aos 33 anos, o meu cérebro treinado para fazer algumas coisas, consegue perceber os mecanismos do poder criativo dos Beatles; consegue perceber as suas intenções bem como aquilo que foi criado apenas porque sim, por fruto do acaso ou do subconsciente dos músicos, aquilo que apareceu sem intenções revolucionárias.

O mesmo se passa com filmes, livros e mesmo com as relações humanas. Eu percebo. Eu percebo muita coisa. Mas só recentemente me dei conta que o facto de perceber não significa que possa fazer igual – seja como pai de família, namorado ou guionista de um filme. Quando vejo “O Padrinho” ou um episódio de Six Feet Under ou leio o último romance de Junot Diaz, percebo o que eles estão a fazer e essa percepção leva-me a acreditar que, por compreender onde querem chegar, detenho a mesma capacidade de criação – e de trabalho. Hoje, posso assumir que há uma diferença entre ter a capacidade de perceber uma obra de arte e a capacidade de criar uma obra de arte.

4
“You’re an idiot but your mother dresses you fine. Now smile, douche,” in Californication.

5
Este verão, na praia, estive no topo de uma rocha de oito metros. No alto de outra rocha, estavam os pós adolescentes que me desafiaram a escalar a falésia (eles estavam na rocha mais alta, com dez metros). Fiquei parado alguns minutos. O desejo de alguma coisa diferente, a pulsão pelo risco, ainda permanecem alojados na minha imaturidade. Mas o medo físico serve de paizinho. Os miúdos saltaram. Com 20 anos são inquebráveis. Nada de mal lhes poderá acontecer. Os miúdos saltaram e eu ainda estava ali.

Depois saltei.

6
Chegas a minha casa quando as temperaturas aconselham actividades dentro de lugares com ar condicionado e a luz incendeia a praça, encadeando turistas sem óculos escuros, atacando os ombros das meninas que procuram a sombra e que correm para um almoço de sushi.

Ficas emoldurada na ombreira da porta: o vestido, a curva do pescoço, os óculos de aviador, a expectativa de saberes se, assim que a porta se fecha, almoçamos primeiro ou se de imediato estarás na cama, com as janelas abertas para a cidade e uma veia do pescoço cada vez mais grossa, os olhos fechados, a marca de duas mãos na parede branca por cima da cama.

Entras no duche, pegas na minha toalha, estás na sala, nua, e recolhes a roupa, reduzes o volume da música e fazes tudo com a lucidez harmoniosa de uma solista de violino – és tão precisa, tão delicada, tão determinante para que, durante esse breve tempo que demora um almoço num dia de semana, eu saiba que alguma coisa de extraordinário está mesmo para acontencer.

7
Não acreditas em bloqueios literários mas sabes que és preguiçoso.

Não sejas palerma.

Vês, em menos de uma hora escreveste isto tudo. Melhor assim? Não fiques quieto, porque o mundo não acontece apenas nas possibilidades determinadas pela tua cabeça. Mostra-te. Faz pela vida. Não é assim tão complicado, a sério. E agora desliga isto e sai para a rua.

5 comentários:

busycat disse...

Percebo tão bem o texto dos Beatles que até doi. (a diferença entre o perceber e o fazer é abissal)

Obrigada pelo esclarecimento. E pelo regresso.

beijo
busycat

cleyenne disse...

...do que ter aquela velha opiniao formada sobre tudo..

Miss Gordon disse...

Pfff.... Não sejas palerma.
Adorei ler isto.

Miss Gordon disse...

''Não fiques quieto, porque o mundo não acontece apenas nas possibilidades determinadas pela tua cabeça. Mostra-te. Faz pela vida. Não é assim tão complicado, a sério. E agora desliga isto e sai para a rua.''

Amo.

Joao Tordo disse...

brilhante. eu sempre te avisei dessa dos beatles ;)