quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A menina do cabelo amarelo


Nesta memória, uma das primeiras que guardo, havia o calor das férias grandes e estava sentado na mesa dos adultos. Pus-me de pé, em cima da cadeira, pronto para anunciar uma descoberta que mudaria a minha vida. Baixei os calções de banho, apontei para a minha pilinha de pré-primária e anunciei à família o assombroso mecanismo mutante que era o meu corpo: “Está tão grande”.

Não me lembro de ser repreendido – é possível que alguém tenha dito “Veste-te e vai dormir a sesta" –, mas tenho quase a certeza que o meu alegre espanto diante de tamanha descoberta tirou o tapete debaixo dos pés da minha audiência. O meu avô, o único autorizado a inaugurar melões e melancias, como se fosse o xamã da tribo prestes a degolar o cabrito, deve ter mantido a lâmina em suspenso, afinal, eu tinha tirado a pila das cuecas, a meio de uma refeição, e anunciado com orgulho que ela tinha mudado de tamanho. E isso não cabe na cabeça regulamentada de um adulto.

Hoje, não sou praticante do exibicionismo genital durante as refeições, mas lamento já não ter a destreza de me estar a cagar para a lógica certinha das pessoas grandes. Pensei nisto quando vi a menina de cabelo amarelo, sentada na relva, a chamar um cão de “babau”, a apontar para ele e a olhar para a mãe como se dissesse “Acreditas nisto? Não é possível? É um cão. Um cão!”. Nesse momento, a menina de cabelo amarelo tinha feito uma descoberta mais importante que a internet, a penicilina ou o Macdrive.

A menina do cabelo amarelo abraçou o cão pelo pescoço e, assim que ele começou a lamber-lhe a cara e as orelhas, ela cedeu ao ataque de cócegas, dando gargalhadas, de boca aberta e cabeça tombada para trás – nenhum sentido de ridículo, nenhuma preocupação com o protocolo, apenas a resposta intuitiva ao prazer.

Logo de seguida, com a mesma indiferença ao código de conduta com que, há quase 30 anos, eu puxei o elástico dos calções até aos joelhos, a menina de cabelo amarelo começou a lamber o cão. O que fez todo o sentido – mesmo quando ela se virou para a mãe, mostrando a sua mini língua cor de rosa coberta de pêlos de labrador. Se um cão pode lamber uma pessoa porque não pode uma pessoa lamber um cão?

O especialista em criatividade Ken Robinson, conta que um professor perguntou a uma criança de quatro anos o que estava ela a desenhar. A menina respondeu que estava a fazer um retrato de deus. O adulto tentou cortar o barato infantil: “Mas ninguém sabe como é deus.” A menina pô-lo na ordem: “Já vais saber quando eu acabar o desenho”.

O comediante Jon Stewart explicou que o seu filho dança de alegria só porque reconhece alguma coisa na rua – sempre que vê um cão no passeio, tira a xuxa e aponta para o bicho dizendo: “dog”. Stewart também disse que aquilo que assusta os pais é já saber o final da história, ou seja, saber que a vida – que por vezes se parece com a esquina de um móvel pronta para o dedo mais pequeno do pé – acabará por retirar aos nossos filhos a felicidade de lamber um cão ou, tão só, de serem capazes de identificá-lo na rua – dog!

Os adultos sabem como a história acaba – primeiro passamos por essa fase transitória chamada adolescência, em que nos parecemos com moscas a embater contra o vidro até que alguém nos abre a janela e nos encontramos, por fim, na idade adulta. E é então que precisamos de comprimidos, álcool, carros, 300 canais de televisão, sexo com prostitutas, saltos de pára-quedas e filhos a fim de superar o aborrecimento da repetição, a fim de aliviar o peso das coisas que parecem cada vez mais difíceis de solucionar. Os adultos conhecem o final da história e, por isso, junto das crianças, costumam ser tão temerosos dessas esquinas destruidoras de pés, tão protectores, tão inibidores da criatividade – “Isso não é para brincar, não se diz assim, ninguém sabe como é deus.”

No passado domingo, a menina de cabelo amarelo queria ver os patos bebés num jardim de Lisboa, embora os animais estivessem por trás da cerca. Primeiro hesitei. Um adulto responsável respeita os avisos, não invade a propriedade. Mas os patinhos, disse ela, eram amarelos como o seu cabelo. E foi então que lhe peguei ao colo, saltei a cerca e a levei até junto da família de patos flutuantes.

No banco de jardim, um velho cuja boca, por falta de incisivos, teria servido para arrancar caricas, disse logo, apontando para os patos: “Esses já cá não estão amanhã, as gaivotas dão cabo deles”.

Ao contrário do velho, prefiro não me preocupar com o final da história. E é por isso que, desrespeitando todas as regras de bom gosto literário, e repetindo a ousadia do gesto de baixar os calções, me preparo para escrever algo que jamais imaginei escrever:

Xi coração.

Menina do cabelo amarelo, gosto muito quando me dás um xi coração.

4 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Já alguém disse que o melhor do mundo são as crianças? :)

Miss Gordon disse...

*que texto delicioso*

Gustavo Gouveia disse...

és o meu escritor preferido!

Cláudia disse...

Vim aqui parar por acaso.
Prendeste-me com a primeira frase.

Este texto emocionou-me mais que outros. Para mim, o que já desconfiava é agora oficial: escreves bem, muito bem.

God, you're hot.