terça-feira, 4 de novembro de 2008

Onde é que tu estavas quando Obama ganhou as eleições?


No livro 'Extremly Loud and Incredibly Close', de Jonathan Safron Foer, as derradeiras páginas têm fotografias de um dos homens que saltou do World Trade Center nessa manhã de 11 de Setembro de 2001. Um fim solitário, uma manobra tristemente artística, toda a humanidade em queda livre. Mas as fotografias aparecem pela ordem contrária, ou seja, se deixarmos as páginas correr rapidamente entre os nossos dedos, parece que o homem está a ascender do chão, levantando voo, elevando-se à altura máxima de um dos edifícios. O narrador do livro, uma criança de oito anos, precoce, cómica, que nos deixa o coração fora do corpo, desprotegido e pequeno, afirma no final da sua narrativa que gostava que o mundo se pudesse reboninar, que o seu pai, morto quando os aviões se amarrotaram contra os edifícios, pudesse andar para trás, descer nos elevadores, meter-se de costas no autocarro, entrar em casa como se estivesse em modo Michael Jackson moon walker, e estar ao lado do filho, na noite anterior, passando as palmas das mãos na dobra do lençól que cobre o princípio do edredon.

Hoje, as eleições norte-americanas, talvez as mais participadas de sempre (por vezes eles são mesmo o país da democracia) não servem para rebobinar a dor e os erros, a invasão do Iraque e os escândalos financeiros da Enron, as mentiras malvadas de Cheney e o sistema propagandista Bush/Fox. Não, as eleições de hoje não são apenas um tira nódoas. Não são apenas uma cirurgia correctiva.

E Obama não é apenas um negro que pode chegar a ser presidente, uma vassoura para mandar fora o lixo neo-con e os torturadores de Guantanamo. Também não se trata apenas de uma questão de raça ou da forma como a sua narrativa pessoal encaixa na narrativa americana - 'It doesn't matter where you come from but where you can get', disse-me uma vez uma amiga americana. Sim, ele encarna o sonho americano que diz que podemos ser o que quisermos. Mas mais que isso Obama representa a maravilhosa capacidade de reinvenção dos Estados Unidos.

No primeiro episódio da série Sopranos, Tony Soprano fala do seu tempo, do zeitgeist, do seu país: 'É bom participar nalguma coisa que se construa desde o chão, e sei que nasci demasiado tarde para isso, mas ultimamente, sinto que cheguei no fim, que o melhor já acabou'. Muitos outros americanos sentem o mesmo. Obama contraria essa depressão, porque é o começo de outro tempo.

Mais uma citação de um americano, desta vez escritor, narrador contundente das peripécias das pessoas do seu país. David Mamet: 'Todos temos um mito e todos vivemos através de um mito. Parte da viagem do herói consiste em que mude, completamente, a forma como percebe o mundo, através da força das circunstâncias ou da força da vontade. Mas o herói precisa sempre de rever a forma com vê o mundo'. Talvez Mamet não soubesse, mas estava certamente a escrever sobre Obama.

Comecei por falar do 11 de Setembro porque, em mais que uma ocasião, participei em conversas nas quais se perguntava: 'Onde estavas quando os aviões bateram nas torres?' Sei que a eleição de Obama não serve para levantar aquele homem do chão, fazer com que entre pela janela do edifício, puxar os aviões de volta para a pista do aeroporto. Mas quero que esta noite tenha o mesmo estremecimento que a manhã de 11 de Setembro. E quando daqui a alguns anos, no final de um jantar de amigos, com pessoas a fumar cigarros e a afundar o indicador nas pedras de gelo no whisky, alguém perguntar, 'Onde estavas na noite em que Obama foi eleito?', quero responder com toda a certeza (uma certeza no centro do estômago, algo a pulsar numa veia do pescoço) a mesma certeza que senti quando, em directo, vi aquele segundo avião a amachucar-se como papel de alumínio. Uma certeza absoluta, cardíaca, humana, de que algo vai mudar.

1 comentário:

num relance disse...

não está ganho
esperemos que ganhe