terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pulp Fiction


Eu sou jornalista e, felizmente, não sofro do sentimento de protecção da classe - grande parte dos jornalistas em Portugal não está preparada para desempenhar o seu trabalho. Muitos editores e directores também não. Facilitam, abusam do poder, fazem o seu trabalho da cadeira da redacção com a mesma bonomia do santo padre a acenar do Papa móvel. Eu sou jornalista e, cada vez menos, me apetece ser jornalista. Porque parte da comunicação social está a magoar o país, a estupidificá-lo, a embrutecê-lo, a fazer dele um café de subúrbio com a televisão sempre ligada, e onde o drama importa mais que a verdade, que o bom senso e que a decência. Ontem, a capa do 24 Horas anunciava com grande destaque a morte do filho do ex-banqueiro Paulo Teixeira Pinto. Não é jornalismo, é telenovela; não é interesse público, é morbidez comercial (notícia de 1ª página, com a foto do pai?, uma foto claramente feita há meses, em que o senhor posa para a câmara?); não é informação, é parar na auto-estrada para ver o acidente na outra faixa. Não é um jornal, é uma senhora de socas e bata a dramatizar a vida dos vizinhos. Tudo é susceptível de ser notícia. Mas eu prefiro que as pessoas sejam primeiro pessoas, e só depois jornalistas.

No entanto, sei que eles dormem como bebés quando vão para a cama.

6 comentários:

Miss Kitty disse...

Não sou jornalista, mas tenho que concordar contigo. Confundem noticias com "Episódios cor-de-rosa". Enfim...

BJS*

patrícia reis disse...

é bom saber que estás vivo. bj

Tim James Booth disse...

Espera, pareceu-me que misturaste no mesmo assunto 24Horas e notícias. É capaz de ter sido impressão minha.

Já cá tenho passado algumas vezes, embora em silêncio. Continuarei a vir cá, silencioso ou não, conforme o tempo, a vontade e a preguiça.

Cheers

http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/

raquel disse...

Subscrevo o post, na inteireza.

Miguel Marujo disse...

Não sei que diga?! É uma opinião justa, mas não sei se concordo em absoluto com ela, porque se não, nada ou muito pouco será notícia. Este pudor existe quando é uma figura pública? Mas quando leio num Público ou DN ou vejo uma reportagem muita séria da SIC sobre (por algum motivo mais dramático-emotivo-trágico, riscar o que não interessa ou somar tudo) crianças filmadas à exaustão - e tudo é apresentado como jornalismo de referência, este pudor já não existe porque serão caras ou nomes anónimos. Pergunto-me se será só o 24 horas a ser tablóide, nestas ocasiões... Aliás, se o Hugo não se ficasse pela capa, lesse o artigo, veria que o dito estava escrito de forma irrepreensível por um jornalista (passo a piada eterna do sr. tim james booth)... Os obituários (parece-me) não podem ficar reservados a famosos ou a figuras amigas de alguém que resolve contar da sua morte nos jornais.

Declaração de interesses: sou jornalista no 24horas, desde Maio de 2007, depois de nove meses desempregado (por uma decisão política de um jornal que se apresenta como muito ético na sua prática comercial e editorial, mas isso é outro rosário). Escrevo este comentário como mero leitor de blogues, e como jornalista que prefere discutir as coisas dos jornais, sem qualquer indicação de quem quer que seja, para não haver eventuais reparos. Continuo leitor atento, mesmo destes teus reparos.

Hugo Gonçalves disse...

Miguel, tens razão quando dizes que outros meios tratam a realidade como um circo ou uma feira - palavras minhas, neste caso.

A TVIzação do jornalismo toca a quase todos. Também acho que tudo pode ser notícia. Neste caso não se trata tanto de dar a notícia mas como se dá - na primeira página, sem qualquer pudor, e com uma fotografia descontextualizada.

Não estava a avaliar o texto porque não o li. Mas, ao contrário do que julga o Expresso, que vende dentro de um saco plástico, a primeira página de um jornal é a sua cara. E nesse dia a cara do 24 horas era essa.

Não estava, muito menos, a avaliar todas as pessoas que lá trabalham - sou jornalista e sei o que custa ganhar a viva, já levei com ordens parolas e sanguinárias da administração, lidei com editores burros e filhos da puta, que sofrem da mesma arrogância pacóvia e do mesmo delírio de poder que sofrem os porteiros de discoteca.

Quem pensa que o jornalismo em Portugal é glamoroso ou protagonizado por uma quantidade infindável de seres interessantes, que se prepare para um desgosto. A nossa classe está entre o vendedor de seguros que percebe de bola e o escriturário que ouve Norah Jones. Uma classe que tem o mesmo espírito de auto crítica do Cristiano Ronaldo.

Também não sou uma autoridade moral. Mas sei que não posso dizer que o 24 Horas (e muitos outros) esteja a fazer bom jornalismo. Não fui, com certeza, o primeiro a atirar uma pedra. Nem serei o último.

Obrigado pelo comentário, H.