segunda-feira, 9 de março de 2009

Maria Matilde


Há umas semanas, num baptizado, dei por mim numa fila de pessoas que, muitos anos antes, estavam exactamente na mesma posição: em pé, sem saber muito bem onde arrumar as mãos, aborrecidos com o senta/levanta exigido pelo protocolo da eucaristia, diante de um Cristo de pedra sofrida, de um padre que muitas vezes também era professor de Ciências ou Português, e de uma enorme ansiedade para estar no campo de futebol na hora do almoço.

Há uns anos éramos alunos de um colégio católico e passávamos o tempo a tentar fazer rir os outros, enquanto o padre murmurava passagens da bíblia e conselhos como se ainda se celebrassem missas em latim. Não entendíamos quase nada.

Nessa mesma igreja do colégio, muitos anos antes, o meu pai e os amigos descobriram uma porta junto do confessionário. Saíam para o jardim durante a missa e acabavam na praia do Tamariz, espreitando as mulher que se aventuravam num biquíni de gola alta. Foram semanas e semanas de delinquência juvenil e erótica - até que o padre Miguel (que viria a ser meu professor de Desenho) declarou o meu pai como líder da pandilha de mirones e lhe ofereceu dez vergastadas em cada mão. O padre Miguel nunca foi professor do meu pai, mas, garante o meu progenitor, foi quem mais lhe encheu o corpinho de lambadas. No meu tempo de colégio, já era improvável que o padre Miguel levantasse a mão a rapazes com idade de levantar pesos no ginásio. Mas fui muitas vezes corrido da sala porque me esquecera de um lápis número 3 ou de um tira-linhas. O padre Miguel não dava 5 a ninguém. No entanto, produzia literatura de aconselhamento nos desenhos: "Porco, está tudo borrado!!!"

Há algumas semanas, no baptizado da segunda filha de um grande amigo, voltámos a estar nos bancos de igreja, alinhados em fila, e prontos para fazer rir os colegas do lado.

O padre que baptizou a Maria Matilde tinha a mesma idade dos meus amigos (tão longe no tempo dessa fúria castigadora do padre Miguel), mas falou da erva daninha do pecado original, do respeito ao Pápa, de como quem não está com a Igreja está contra ela. Fez proseletismo, deixando sobre as nossas cabeças (e sobre a adorável cabeça de bebé da Maria Matilde) a ameaça dos malditos que não entram no templo. Não devemos apenas adorar Deus mas (e isso repetiu-o com o empenho de um missionário pugilista) devemos adorar a Igreja. Mais ou menos como pedir para nos apaixonarmos por uma pessoa mas também pela empresa de advogados que a representa.


Em toda a homilia fiquei com a ideia de que o processo de recrutamento ("Têm de trazer a Maria Matilde à igreja para que ela seja uma boa cristã") era mais importante que a celebração da existência da Maria Matilde. Olhei para os pais do meu amigo - emocionados. Olhei para o meu amigo e para a mulher - tão felizes.

Um dos meus colegas de fila, entendendo a minha inquietude de rapazinho insurgente, segurou-me no braço e, com a pressão dos dedos, foi como se dissesse: "Fica quieto, não estamos aqui por isso. Estamos aqui pelo nosso amigo e pela sua filha." Dando humanamente a outra face, pedi perdão pelo egoísmo e, até ao fim da celebração, fiquei quieto.

No final, já na rua, o meu amigo disse-me: "Se este é o marketing deles, então deixa estar, porque estão a fazer um bom trabalho". O que ele queria dizer era que, mais tarde ou mais cedo, com este marketing de cartão vermelho e dedo apontado, a Igreja deixará de ter clientes. Não sei se acredito na velocidade da decadência do negócio, mas percebi ainda melhor o que disseram os dedos do meu amigo quando me magoaram o bícepe durante a missa: "Este é o dia da Maria Matilde e da família dela. Eles estão felizes. Partilha."

Tu não tens pecado original, Maria Matilde. Eu também estava feliz. Que o mundo te seja esplendoroso e livre e cheio da música matinal dos sinos de Igreja.

5 comentários:

Clara disse...

Eu também sou cínica. Mas às vezes sabe bem não ser e dirigir o olhar e o coração para aquilo que é realmente importante. Talvez seja um dos segredos da felicidade. Nunca terei a certeza disto (senão a vida perderia sentido), mas que perder o cinismo às vezes ajuda a sorrir, ajuda.

apipocamaisdoce disse...

É claro que tem pecado original. Chama-se Maria Matilde. Queres pecado mais original que este??? Coitadinha da criança...

Goncalo disse...

Para que conste... eu tive um 5 com o Padre Miguel, naquele famoso momento onde vendi uns 4 desenhos (feitos em conjunto com o Fernando) e fui catado:
- "O menino é esperto, fez 4 desenhos, ganhou dinheiro, praticou mais, logo leva um 5."
O que ele não sabe é que tive de os repetir. Mas os 500 paus o desenho esses ninguém mos tirou. ;-)

Foi um dia bom!

Frederico disse...

O meu pai às vezes conseguia sacar-me uns quatros. Nunca passei do 3++++, ainda assim é raro encontrar alguém que desenhe melhor que eu.

A questão levantada da ultra disciplina é bastante pertinente e exige reflexão. Foi algo com que convivemos até ao 9º ano.

Guardo uma máxima dessa escola só aprendida depois do 10º ano. Liberdade = Responsabilidade.

Um abraço,

Friendly Fire disse...

que saudades tenho eu de acordar e ouvir os sinos da irgeja ao longe. sempre ao longe :)