segunda-feira, 30 de março de 2009

Polis


Não sabia ainda o que me esperava mas, como treino de preparação, li o guia da cidade escrito pelo brasileiro Nelson Motta num voo a caminho de Nova Iorque. Tinha passado duas semanas a ver, uma e outra vez, as imagens dos aviões incendiários e das torres desabando sobre gente que passei a conhecer nos meses seguintes: nos obituários do New York Times, chamados Portraits of Grief – heart breaking, pulitzer winning journalism – e nas pessoas que fui conhecendo em ambos os lados do bar: o paramédico que desatou a chorar em cima dum vodka gimlet porque já não conseguia sentir nada; a mulher que me ofereceu o The End of the Affair, sublinhado e anotado, imediatamente após o fim da relação com um homem casado e seu professor; o mecânico que odiava árabes e, com um smoking e uma limusina alugada, celebrou o aniversário de Frank Sinatra em rat pack party mode, noite fora e com os irmãos na ilha de Manhattan.

Usando o guia de Nelson Motta, ainda no avião, eu queria descobrir o que aí vinha (um contrasenso, uma vez que queria tudo o que não conhecia). Ele era um estrangeiro que tinha vivido naquela cidade, e sentia-o próximo de mim da mesma forma que em criança torcia pela selecção do Brasil. Os seus ensinamentos e experiências, a sua longa missão de reconhecimento na cidade, teriam de servir-me a partir do momento em que aterrasse em Newark. No entanto, agora, não me lembro se o guia continha recomendações de restaurantes em Brooklyn Heights ou comentários sobre a parolice iluminada de Times Square. Mas lembro-me de uma ideia, qualquer coisa como: em todos os países há corrupção, a diferença (e lembrem-se que Motta é brasileiro) está na vontade da sociedade em não pactuar com essa corrupção. E puni-la.

De regresso ao voo para Nova Iorque: não fui seguramente o primeiro a gozar com as perguntas ingénuas dos formulários dos serviços de imigração norte-americanos. Querem saber, por exemplo, se somos terroristas ou se levamos armas. O nacional espertismo lusitano (o mesmo que levou os supermercados a suspender a pesagem feita pelos clientes) não entende que há certas sociedades que se baseiam em esperar o melhor dos outros, ao invés daquelas que se fundamentam na engenharia da artimanha em proveito próprio.

Os Estados Unidos não são, seguramente, os campeões da decência humana – Kissinger, Chiney, Fox News, Enron, AIG, Wall Street, Darth Vader & Freddy Krueger – mas Nelson Motta tinha razão quando dizia que no Brasil (e eu acrescento Portugal) é menor a vontade de uma existência limpa, preferindo-se a glorificação da prática do engano.

Hoje vi Isaltino Morais dizer que era comum, há dez anos, os políticos não pagarem a totalidade dos impostos, usando um argumento do tipo: se toda a gente mija na piscina eu também posso. Isaltino não estava a pedir a clemência do tribunal ou a reconhecer a falha, estava a dizer que talvez a lei estivesse mal, uma vez que tantas pessoas honestas e capazes de dirigir o país (os políticos) praticavam a fraude fiscal.

Eu usei o mesmo argumento quando, aos 18 anos, a GNR me multou por passar um traço contínuo: “Mas seu guarda, toda a gente vira aqui”. O guarda preencheu o papel e conseguiu ser brutalmente essencial ao mesmo tempo que previsível: “E se toda a gente se atirar de uma ponte?” Felizmente, o meu caminho para o nacional isaltismo foi parado depois da terceira multa grave, com 21 anos, por excesso de velocidade.

Há mais de oitenta anos, Almada Negreiros escreveu: “Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia, se é que a sua cegueira não é incurável, e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado”.

Mesmo que eu tenha deixado de activar radares da polícia, sinto ainda a herança dessa sujidade (e de alguma testosterona), que se perpetua no tempo, que custa a limpar, e que se propaga pela atmosfera como se se tratasse da peste bubónica da decência: as fintas aos impostos, o nepotismo madeirense, as derrapagens orçamentais de milhões nas obras públicas, o entrevistado na rua que, questionado sobre os escandâlos financeiros dos bancos, responde: “Não é um roubo, é um desvio, eu se estivesse no poleiro também desviava”; os dois homens de trinta anos (filhos dessas boas famílias que fazem um péssimo trabalho) gabando-se das patranhas usadas para, infracção após infracção de trânsito, continuarem na posse da carta.

Tanto na bazófia de homem comum de Isaltino, como no pedantismo dos condutores aristocratas, é a impunidade que importa; e ser o mais esperto do bairro, ainda que isso resulte em danos para outros. Fugir da honestidade e recolher dividendos é motivo de um orgulho tão resplandecente como o orgulho do carro com jantes especiais, do telemóvel (o terceiro este ano), do passar à frente na fila do Pingo Doce.

Uma nova iorquina bêbeda, que tentei beijar na boca, disse-me uma vez, num apartamento da rua 96, entre a Lexington e a 3ª avenida: “Não interessa de onde se vem mas onde se pode chegar”. Depois mandou-me ir comprar mais cervejas.

Nelson Motta tinha razão: é a vontade de limpar que importa, porque lixo haverá sempre. Vimos de um sítio de chico-espertos triunfadores, diante dos quais as massas sussurram em aprovação: “Gamam mas ao menos têm obra feita”.

Sabendo do risco das latrinas a céu aberto, acredito que teremos de chegar a outro sítio: um sítio que tem de ser qualquer coisa de asseado.

5 comentários:

Friendly Fire disse...

Aqui por Londres o marido da Home Secretary Jacquie Smith assomou a porta do jardim de sua casa para pedir desculpa pela humilhacao que fez a mulher passar ao declarar como "despesas" o aluguer, atraves da Sky (cabo) de dois filmes pornograficos, alegadamente vistos enquanto a mulher nao estava em casa (minor detail).

Vem isto depois de Smith ter sido exposta, juntamente com outro MP, por ter uma segunda casa em Londres nas suas despesas oficiais _ normalmente paga pelo estado quando os ministros e deputados vivem demasiado longe _ onde afinal vivia a sua irma.

Dizia um MP esta semana como comentario ao escandalo da casa: Eu tambem declaro uma segunda casa como despesas. O meu trabalho exige que la fique ate tarde e nao vou propriamente fazer 40 quilometros de volta todos os dias.

Entretanto, a enfermeira que trabalha no meu centro de saude vive a 3 horas de distancia, deixa os filhos no infantario antes de ir para o emprego, faz bem mais do que 40 quilometros ida e volta em transportes publicos e eh casada com um gajo que mal trabalha e cujos filmes pornograficos sao possivelmente vividos em vida real com a vizinha do lado.

A quem eh que ela pede despesas?

luciana teixeira disse...

gostei muito. e se tu me permite, descobri porque o brasil assim! achei portugal tão semelhante... hahaha.

mas, tomara deus que estejamos próximos desse lugar mais asseado onde, além de passar desodorante, as pessoas deixem os fios de luz onde eles estão e entendam que outros passageiros também precisar usar as pias do banheiro das estações de trem e que, portanto, não se pode leva-las para casa, e que assinar o seu nome ou seus pensamentos no muro da casa dos oturos também não é a atitude mais correta possível.

abraço.

Joao Tordo disse...

eheh muito bom. isaltino morais.

Hugo Gonçalves disse...

friendly fire, andas a ler os jornais do tube que poluem as carruagens literalmente e pelo conteúdo no papel... estás a par de todos os escândalos.

quem é que paga as despesas? boa pergunta.

Miss Gordon disse...

eu acredito e até tento aplicar a máxima oliver wendell holmes e isso significa que mesmo estando hoje onde estamos não significa que não nos estamos a esforçar por sermos melhores... espero que ainda haja gerações que acreditem que vale a pena ficar aqui e tentar ensinar aos seus filhos que chegam mais cedo ao emprego aquilo que o sueco disse ao teu amigo um dia... kiss (I know I was kind'a lame)