quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

As time goes by


Voltar a viver no Estoril (onde cresci), dez anos depois da emancipação pós adolescente, tem-me levado a escrever sobre a infância. Regresso a este microcosmos da Linha - porsches e jaguares, autismo social, a maravilha da paisagem marítima, mulheres bonitas - como se fosse um viajante no tempo. Não se trata de viajar para o passado mas para o futuro. Desde que cheguei, soube que morreram pessoas com quem bebia copos. Outros limitaram-se a engordar. Uma viagem para o futuro porque nunca imaginei que todas estas pessoas pudessem ser adultas, ter filhos, montar empresas, pagar escolas, ou que pudessem sofrer desgostos e falhanços que lhes encravam o coração.

Quando somos pequenos, os mais velhos são sempre muito velhos. Para um aluno da quarta classe, um tipo do 12º ano tem a maturidade do Gore Vidal, a pujança física dos halterofilistas búlgaros e a agressividade caneleira do Vinnie Jones. Sim, as pessoas com quem jogava futebol têm agora cabelos brancos, mas, neste lugar, parece que pouco mudou, que o tempo se quer quase parado - uma espécie de reino desencantado com demasiadas palmeiras, ansiedade social e pratas da família. Estoril: uma bolha dourada que nunca rebenta.


Não sei se Bibi parou no tempo. Sei que, apesar de alguns cabelos brancos, tem ainda a mesma postura rufia de soco na boca e peito feito. Passei por ele há uns dias. Esperava o filho ou a filha na porta de um colégio onde se usa farda. Conheci Bibi no meu primeiro dia de aulas noutro colégio - católico, sem necessidade de farda, mas com muita disciplina e mais de mil portadores masculinos de testosterona. No primeiro intervalo com os novos colegas - ninguém conhecia ninguém e começámos a tratar-nos pelos números que nos tinham atribuído -, o gordo da turma recebeu a alcunha de Piranha, como a personagem da série espanhola 'Verão Azul'. Piranha é hoje um dos meus melhores amigos. Deixou de comer pizzas no recreio do almoço, de ser gordo, e viveu em Florença. Agora é advogado em Madrid.

Piranha e Bibi encontraram-se num campo de futebol pelado, nesse primeiro dia de escola. Bibi, um ano mais velho, liderava a equipa de futebol da sua turma. Nós, os do 1ºD, enfrentávamos os grandalhões caceteiros do 2ºA num jogo improvisado, com calças de ganga a molhar-se na lama e nenhum árbitro. Penalti de Bibi sobre Piranha. Gritos de crianças prestes a andar ao estalo. Bibi lança o primeiro murro. Ainda hoje se discute quem ganhou o duelo. Eu sou da opinião que, apesar de ter acertado mais golpes no adversário, Bibi perdeu o combate - a ferocidade de Piranha e o facto de ser mais novo dar-lhe-iam uma vitória aos pontos.

Perdemos o jogo. Resultado: 1ºD -1. 2ºA - 2.

Dizem-me que Bibi tirou um curso de treinador. Vou ver Piranha este Natal. São os dois adultos. E, no entanto, passando por Bibi diante da escola dos seus filhos, não pude deixar de pensar que, se os sentasse agora aos dois na mesma mesa, estariam de imediato naquele campo pelado. Talvez falassem do mercado financeiro, e de um terreno não muito caro perto da Comporta, e de férias no sul do Brasil. Talvez fossem adultos. Talvez gostassem de conversar ao balanço do whisky como sobremesa. Mas começariam sempre nesse campo de futebol e com os punhos engatados. Começariam sempre nessa luta inicial. Orwell: "Aquele que controla o passado, controla o futuro." Estoril: onde o passado continua a estrangular o futuro.

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1 comentário:

Miss Gordon disse...

A simples referência ao 'Verão Azul' acende memórias olfactivas brutais. =) Iogurtes yoplait de tutti-fruti, o cheiro do protector solar da minha tia, o cheiro do vento na praia e...... bolas de berlim..... juro!!! ....que eu não sou muito do género 'So do I!!!!'.