quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

'Bora não cantar as janeiras?


No dia que entrámos em recessão (pelo menos nas previsões), o primeiro-ministro ouviu cantar as janeiras nas escadarias do palácio de São Bento. Meninos com o uniforme do colégio militar elogiavam o nosso timoneiro Sócrates na letra da canção. Os rapazes eram certamente muy católicos e tão lusitanos como Viriato. O primeiro-ministro aguentava o sorriso das cerimónias obrigatórias no calendário - o mesmo sorriso que encaixamos na cara quando nos oferecem um par de meias. Em dia inaugural de recessão, imagino que Sócrates preferisse estar no seu gabinete, a trabalhar, em vez de ser louvado como líder.

E mesmo que seja uma tradição anual, havia ali qualquer coisa do Portugal das reverências e dos salamaleques, um Portugal tristemente sebastianista, que dá pena, o filho débil que precisa de um pai de mão dura - os portugueses chamam a isso carisma. Em dia inaugural de recessão o primeiro-ministro estava onde não queria: no passado.

E, como no passado, o ministro das Finanças, nesse tal dia de previsões de recessão, falou cinco minutos, sem responder a perguntas dos jornalistas, e sem mencionar a notícia do dia - a recessão. Ele fala do que quer, os outros ouvem. E mai' nada. Isso sim é carisma, senhor ministro.

Por uma vez na vida, gostava de ver um governante que motivasse os portugueses, que os elucidasse, que lhes desse pistas para enfrentar as dificuldades, que nos fizesse perceber que os sacrifícios valem a pena porque estamos a avançar para algo melhor. Ontem isso não aconteceu. O primeiro ministro aguentou o sorriso e disse que queria que, para o ano, lhe cantassem outra vez as Janeiras. O ministro das Finanças, por sua vez, parecia estar a fazer um favor aos portugueses quando debitou o seu monólogo para microfones. Nunca percebi porque continuamos a esperar por dom Sebastião (ou por aqueles que se fazem passar por ele), se o rei era tão incompetente como para atacar um território que não nos fazia falta e morrer no acto. O sebastianismo não é esperança - é preguiça, é incompetência, é marcar passo.

1 comentário:

Miss Gordon disse...

Finalmente a frase que o país estava em pulgas para cuspir! Revelada a catástrofe por que todos ansiavam, o país pode regozijar-se, 'at last', e carpir todos os males que o futuro (negríííssimo!) nos espera. Bra-vo! Agora, temos autorização, aliás temos ordem(!), para nos deprimirmos e explodir de tanto gritar "O que vai ser de nós?!!"....
Que seria dos portugueses sem a tragédia.....? É nisso que somos bons. Nisso e a bater recordes do guiness com bolos rei gigantes.
Finalmente... o fim da quadra natalícia... pode ser que agora, com o colesterol em alta para contrariar a tendência da economia, o país volte à normalidade. e alguém responda aos malditos e-mails. Wooopishhhhh.