sábado, 10 de janeiro de 2009

No fio da navalha


(texto publicado no Semanário Económico de hoje)

Fazer a barba é coisa de homens: as mãos do barbeiro abrem a navalha, a lâmina suspende-se um instante acima da cabeça; e ele analisa-nos a cara como se fosse um cirurgião delicado, um adepto da certeza; logo que o metal desliza na pele produz-se o som enrolado e lento de um fósforo em combustão. Por vezes parece que magoa, ou que assusta um pouco: a lâmina razando a jugular, por exemplo. Mas fazer a barba na barbearia do Hotel Ritz é como pilotar um caça F18 num simulador – toda a emoção, nenhum risco. E mesmo que nesta barbearia nos ofereçam café, nos ajudem a tirar o casaco, nos limpem os óculos de sol, e nos recebam com uma simpatia sem protocolos desnecessários, fazer a barba continua a ser uma coisa de homens – que o diga Artur Freixinho, o barbeiro que manipula a lâmina enquanto monta a narrativa da sua vida: “O meu irmão estava em Moçambique, tinha lá um negócio de barbearias, e meteram-me a treinar. Comecei quando tinha dez anos, numa barbearia da minha aldeia, perto de Foz Côa. Tinha de afiar as lâminas numa assentadora, sabe o que é uma assentadora?”. O senhor Freixinho imita então o movimento de uma lâmina a deslizar numa tira de cabedal, essas fitas grossas de couro esgaçado onde os cowboys dos filmes afiavam as navalhas e a sua natureza de tipos duros. O senhor Freixinho passava os sábados de criança nesse movimento pendular, tentando tornar mais perfeito aquilo que parecia inutilizado. “O barbeiro da aldeia trabalhava no campo, e os clientes também, por isso a barbearia só estava aberta aos sábados.” Depois, o senhor Freixinho juntou-se ao irmão em Moçambique.

Na barbearia do Ritz trabalham nove pessoas. Também há um salão para senhoras. No espaço dedicado aos cavalheiros há um ambiente de clube privado, uma certa cumplicidade masculina mesmo entre aqueles que não se conhecem. É preciso ter confiança nas mãos de quem nos corta o cabelo ou nos passa uma lâmina no pescoço. Estar ali, naquele trono almofadado, com uma toalha quente e vapores de menta na cara, serve para abrir os poros da pele mas também para baixar a guarda. Os clientes conversam, trocam opiniões sobre o estado do país, preparam negócios.

O senhor Freixinho explica como é que os homens se emanciparam do barbeiro: “Hoje já toda a gente pode fazer a barba em casa, e de uma forma muito fácil. Não precisam de um barbeiro todos os dias.” O próprio senhor Freixinho disfruta, em sua casa, do resultado dos milhões de euros que marcas como a Gillette ou a Wilkinson Sword investiram na tecnologia das suas lâminas. Noutros tempos, o homem precisava de um pulso firme para se barbear. Hoje, é preciso sofrer de delirium tremens para abrir um corte sério na cara. Por outra palavras: as novas lâminas são à prova de estúpidos. “E com a Sida muita gente se assustou. Nós aqui temos tudo descartável,” explica o senhor Freixinho enquanto põe a lâmina na navalha. Os seus gestos são precisos, suaves, procuram a eficácia: “Tem de se fazer sempre a barba na direcção em que os pêlos crescem”, depois estica a pele da face do cliente com os dedos, passa a lâmina mais uma vez, acrescenta: “Hoje em dia talvez tenha uns quatro clientes por semana para fazer a barba, mas há muitos que vêm cá para aparar.”

Depois de quinze anos em Moçambique, e algum tempo após independência do país africano, o senhor Freixinho, um estudioso do seu ofício, regressou a Portugal com experiência e gosto pelo requinte. Passou por algumas das melhores barbearias de Lisboa – Príncipe Elegante, Hotel Florida, Brasília, Amoreiras. Põe, na sua aparência, o mesmo empenho que dedica aos clientes: o cabelo impecavelmente cortado, as mangas da camisa dobradas, sem uma ruga, a gravata certeira, a bater na fivela do cinto. Na barbearia do Ritz, um cliente que tenha sido vítima de algum desmazelo acidental pode sempre engraxar os sapatos, comprar meias, gravatas e alfinetes para gravatas. Quando saem da barbearia e atravessam o sumptuoso lobby do Ritz, como se cruzassem um romance de Graham Greene, os homens querem-se sem mácula.

O senhor Freixinho, que ganhou prémios como barbeiro, que usou as suas tesouras no cabelo de governantes e celebridades, avisa desde o primeiro momento: “Não me pergunte quem são os famosos que cá vêm”, porque a discrição também faz parte dos dos serviços da barbearia que comanda, com António Caeiro, há onze anos. Nessa tarde, o seu colega de salão, João Besteiro, diz: “Já me passaram tantas cabeças importantes pelas mãos”.

Terminou-se o tempo da lâmina. O senhor Freixinho usa pequenos palitos descartáveis com cabeças brancas de cutiline para fechar algum ponto (quase invisível) de sangue – a pele arde um pouco, mas não se pode dizer que o senhor Freixinho tenha feito um corte sequer. Regressa a toalha quente, depois Fátima, uma das assistentes da barbearia, passa uma pedra de gelo para refrescar a pele e encerrar os poros. Segue-se uma loção. Há um cliente que diz: “Mas onde é que nós chegámos quando o Benfica diz que aquilo é penalti?” Os barbeiros são mais ouvintes do que protagonistas nas conversas, explica João Besteiro: “E acredite que se fala mais de negócios e de política do que de futebol.”

Enquanto espera para cortar o cabelo, outro dos clientes tem os dedos ao cuidado de uma manicura. Na barbearia do Ritz pode até fazer-se limpezas de pele. Mas, nesta era da metrossexualidade cintilante e de modelos masculinos de photoshop, estar sentado numa daquelas cadeiras ainda é uma coisa de homens – talvez seja o ritual de outros tempos, talvez seja a emoção de estar no fio da navalha, talvez sejam todos os filmes de homens duros que se barbeavam com facas de mato se fosse preciso, mas assim que se abre a porta da barbearia, com o rosto liso e a pele fresca, e enfrentamos o bar do hotel Ritz, (onde se podem beber dos melhores dry martinis de Lisboa), há a suspeita que, a qualquer momento, se comecerá a ouvir a banda sonora de James Bond.

3 comentários:

Miss Gordon disse...

maravilhoso :))

Miss Gordon disse...

...e já agora uma nota muito positiva para a escolha da foto...

Clara disse...

E que bem que te fica a masculinidade na escrita!