sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Rewind & Fast Foward (compacto de Natal e Ano Novo)


e por isso, naquele palacete de Lisboa, quando ela, na noite de ano novo, ainda bonita, com falta de equilíbrio nas pernas e no discurso (embora sempre elegante), de vestido preto e sorriso Burberry's, me perguntou, 'quando é que voltas a escrever?', eu, que tinha o copo de plástico quase vazio e pouco sentido de orientação, enrolei a língua, 'preciso de mais vodka neste gelo'; e não voltei a pensar em escrever até que me sentei aqui para, num instante, estar outra vez a correr para o Estádio da Luz, dias antes da consoada, atrasado para um jogo de bocejo entre o Benfica e o Nacional da Madeira; o meu vizinho de bancada enrolou uma ganza, o meu vizinho de trás conseguiu repetir a palavra 'xuxu' em cada frase - 'Xuta, Xuxu', 'Olha-me este Xuxu', 'Então não foi falta, Xuxu?' - e ainda comi uma febra no intervalo; depois entrei num carro para o Bairro Alto, onde apareci num jantar com pessoas que não conhecia, e alguém falou da Islândia, depois dos transsexuais no Irão, e já estava no Majong, onde um rapaz musculado, sem metade do teclado dentífrico, mas com narinas de muita coca e mortinho para andar ao estalo, me perguntou se eu achava que ele era paneleiro - não fosse o meu estado ébrio impedir-me de responder, e de certeza que a suas mãos de carroceiro tunning teriam feito de mim mais um boneco na mesa de matraquilhos.

claro, e a consoada: um exercício de rapidez numa família que, por vezes, parece uma granada após a explosão: cada fragmento para o seu lado. havia uma televisão acesa, e eu e os meus irmãos jogámos dominó, e os presentes foram atacados antes de tempo pelos meus sobrinhos, crianças adoráveis mas em estado de choque pela abundância de caixas e papel de embrulho e brinquedos. regressei a casa. dormi sozinho.

e mais dias e noites com o conforto dos amigos, tantos deles que, por esta altura, regressam de cidades fora de fronteiras; horas entrelaçadas de disparate, outras de comodismo, uma casa de fados, deitar-me cada vez mais tarde, e a clara consequência dos excessos: uma espécie de bolha de álcool e leitão assado e sobredose de açúcar, o sono a empurrar-me para uma posição vertical de sofá, a preguiça sem solução, a lucidez cada vez mais embaciada.

noite de ano novo. três retratos de três festas. enfim, um esforçado exercício de síntese e desaceleração da realidade dessas 12 horas de festa a prego a fundo.

primeiro: uma mulher que me falou do seu trabalho social (uma história de louvar), eu a dizer-lhe que, segundo um estudo recente (li num jornal?) o altruísmo nos faz mais felizes que o egoísmo, e ela, altruista, com uma das pernas em ângulo quase recto, o pé sobre um canteiro, o vestido a subir sempre que ela passava a mão entre o joelho e a coxa. despedi-me. fui-me embora.

segundo: na festa seguinte, num palacete em Lisboa, o tempo passou tão depressa que, de repente, já estou outra vez num táxi a chegar ao Cais-do-Sodré.

terceiro: perdido na selvajaria do after hours do Europa, cruzando a espessura atmosférica do calor, da transpiração colectiva, da drogaria eufórica da multidão, I found a young lady, dressed in pink, que me sorriu como se me perdoasse todas as insuficiências, tão visíveis na minha cara quando saí para a rua e já era de dia.

durante toda a noite puxaram-me a gravata. tinha transpirado na pista de dança. olhar-me nas montras não seria aconselhável. Lisboa estava acordada, molhada, com vontade de não sair à rua. eu precisava de dormir. cheguei a casa de dia: a auto-estrada, na janela do táxi, cinzenta e tranquila, obrigou-me a perceber que, por vezes, num fulminante momento de tristeza e cansaço festivo, estamos irremediavelmente sozinhos - e que, logo de seguida, deixamos outra vez de estar sozinhos. e eu (sei-o tão bem) preciso de fazer sempre, mas sempre, essa viagem de retorno.


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2 comentários:

Fernando Dinis disse...

Bom Ano!
Gostei muito, mesmo muito, do Coração dos Homens, aconselhado por um amigo comum.

Abraço

Miss Gordon disse...

hmmm... Lembraste-me dele:
(...)E há palavras e nocturnas palavras gemidos/palavras que nos sobem ilegíveis à boca/palavras diamantes palavras nunca escritas/palavras impossíveis de escrever(...)