segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Fé nos homens (e nas mulheres)


Querida senhora da pastelaria,

Responda ao meu bom dia, a minha simpatia não é o mesmo que apalpar-lhe o rabo, não lhe pedi o telefone mesmo sabendo da sua aliança no dedo, não lhe tapei a saída da garagem com o meu carro, não sou o vizinho que ouve Celine Dion ao amanhecer. Por que está tão zangada comigo, querida senhora, e zangada com os prédios lá fora, com as crianças que vão para a escola, com a mulher que tem menos rugas e mais peito? Por que está zangada com o movimento de rotação do planeta e com o criador do universo?

Todos os dias eu digo 'bom dia' e 'dois queijinhos frescos' com um tom educado, tão amigável e redondo que, por vezes, julgo-me o apresentador de um programa de rádio que oferece dinheiro e fins-de-semana na Madeira.

Mesmo de ressaca, nunca deixei que as dores de cabeça me impedissem sorrisos e a dicção perfeita - 'dois quejinhos frescos e uma água com gás'. Não passei para trás do balcão para lhe ver as mamas, não suguei três bagaços de seguida nem atirei papéis para o chão nem palitei os dentes. Eu sou bonzinho, e venho em paz.

Todos os dias, ao dizer-lhe bom dia e ao receber a sua cara de 'E se fosses comer lâminas de barbear', eu penso nesse teste, feito por cientistas, que explica como os músculos da nossa cara, durante uma conversa, se sincronizam com os movimentos das feições do nosso interlocutor - uma espécie de dança, de mano-a-mano. O teste mostrou que se fecharmos duas pessoas numa sala, e as pusermos frente-a-frente, sem falar, olhando-se apenas, passados alguns minutos a pessoa com a personalidade menos saliente adoptará o estado de ânimo da pessoa com a personalidade mais imponente.

Querida senhora, já me disseram que tenho um feitio difícil - gente que não me conhece, claro - e que tenho uma 'personalidade vincada' (como um papelinho de voto dobrado oito vezes). Por isso, se nos tivermos de sentar numa sala, frente-a-frente, aposto que os seus músculos faciais irão dançar ao ritmo dos meus, e me vai dizer, por fim, bom dia, e sorrir, e perceber que não fui eu que inventei a escravatura nem os transportes públicos da área metropolitana de Lisboa. Se nos encontrarmos nessa sala, farei tudo para não perder. Um dia destes, querida senhora da pastelaria, vai dizer-me bom dia e sorrir-me e, mostrando até algum interesse, perguntar-me: 'Porquê dois queijinhos frescos?'

6 comentários:

raquel disse...

Hugo, com o seu texto sobre uma das muitas senhoras da pastelaria que encontramos por aí, já conseguiu fazer dançar os meus músculos faciais...não estarão sintonizados com os seus, mas que dançaram, dançaram :)

Miss Gordon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
stranger disse...

Eu também ainda não perdi a esperança de fazer os senhores dos cafés sorrirem ;)

Profiteroles disse...

E porquê 3 queijinhos?

Wolley disse...

Um bom dia nunca fez mal a ninguem, se nao é correspondido quem fica em falta é quem nao retribuiu ...
Como acho que todos merecem um olá cá vai ... Olá =)

Por acaso a senhora do café a mim diz'me '' o que é vai ser menina ?! ''

Rita disse...

Eu cá acho que se lhe apalpasses o rabo ela passava a sorrir para ti ;)