quarta-feira, 22 de outubro de 2008

First Blood


Hoje acordei mais cedo do que queria - com uma dor perfurante num músculo do pescoço e, lá fora, o que me parecia ser o ruminar eléctrico de uma moto-serra gigante, talvez um berbequim para chegar ao centro da terra, algo que me despertou muito antes do tempo.

Durante os últimos anos sou perseguido por obras estridentes e perturbadoras do sono. Em tempos, na rua 97 com a Park, começaram a construir um prédio ao lado do meu - doze meses de tortura auditiva e mini terramotos a chocalhar o quarto. Na Travessa do Abarracamento de Peniche, havia uma garagem onde o dono lavava os carros com uma mangueira ligada a uma máquina que abanava o pequeno edifício. Na Calle Espíritu Santo, o vizinho da frente renovou a casa a pancadas de martelo, e a vizinha do lado foi de férias mas deixou o despertador programado para as sete da manhã - um daqueles alarmes que parecem uma corneta desafinada. Todos os dias acordava em sobressalto. Na minha adolescência, tive um despertador assim, que acabou na parede porque temi acordar um dia apenas para abrir os olhos e sofrer um ataque de coração.

Uma noite de mau sono deixa-me inclinado para a violência. Nada mais frustrante que querer dormir e não poder, ou acordar e não conseguir (por causa de forças externas) voltar ao sono, como quando passamos férias com amigos e há sempre uns madrugadores (ou os que chegam a casa de manhã) que se põem a conversar na cozinha e a produzir barulhos de loiça na bancada.

Não percebo porque só há massacres a tiro de espingarda nas escolas. Se nas notícias descobrirem um tipo que entrou num prédio em construção e disparou contra homens de ferramentas ruidosas em punho, fiquem a saber que fui eu. Ontem, tinha pensado em escrever um texto sobre um tema optimista. Hoje, sem poder virar o pescoço, com dores, e com o sono por cumprir, estou preparado para ser bombista.

3 comentários:

Miss Gordon disse...

estás a ter um william foster day?

"Annoying Man at Phone Booth: Excuse me... Hey, EXCUSE ME. I don't know if you have noticed it or not, but there are other people waiting to use the phone here.
Bill Foster: There are?
Annoying Man at Phone Booth: Yeah.
Bill Foster: There's other people who want to use the phone?
Annoying Man at Phone Booth: That's right, you selfish asshole.
Bill Foster: Well, that's too bad. Because you know what?
[firing a machine gun into the phone booth]
Bill Foster: I think it's out of order."

F. disse...

:) Know the feeling. Obras no apartamento ao lado, conversas de pedreiro (mais ou menos pedagógicas)logo pela matina, com martelos e afins pelo meio. Como se não bastasse, já andam por aí uns bichos pendurados em andaimes, mesmo colados ao prédio, para montar as iluminações de Natal. Até o mais paciente dos santos começa a ganhar instintos assassinos.

raspberry stain disse...

try adding night shifts to the mix... nao podes exactamente pedir ao vizinho de tras que deixe de jardinar ao domingo a tarde, nem aos vizinhos da frente que despecam os homens do andaime e das brocas que as 7:00 da manha ja estao a fazer a rua tremer. nao podes por enquanto. ha-de chegar a altura em que a tenue linha entre o poder e o nao poder se desvanecera e nessa altura temo pela saude de muitos. para ja temo pela minha que isto so la vai a forca de comprimidos para dormir... zzzzzzzz.